A bolsa americana está supervalorizada? Confira o que indicam os lucros do S&P 500.

A bolsa americana está supervalorizada? Confira o que indicam os lucros do S&P 500.

by Editoria Bolsa e Mercado
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Em meados de agosto, durante a divulgação dos resultados corporativos das grandes empresas americanas, o índice S&P 500, que avalia o desempenho das 500 maiores empresas de capital aberto dos Estados Unidos, atingiu outra máxima histórica. Essa situação frequentemente provoca debates de que a bolsa americana estaria “cara”. Tal afirmação é recorrente em discussões, especialmente entre aqueles que justificam a decisão de não investir ou que adiariam a escolha de investir no exterior.

Contudo, não é o objetivo deste artigo decidir se a bolsa americana está barata ou cara. A proposta aqui é enfatizar que análises superficiais devem ser vistas com cautela. O real problema reside em assumir que um único múltiplo pode fundamentar tal conclusão, ao mesmo tempo em que ignora a complexidade do mercado e as mudanças atualmente observadas na economia americana, que se refletem agora na negociação do índice da bolsa.

Altas que encontram embasamento em lucros

Um dos gráficos mais reveladores, frequentemente deixado de lado devido à sua simplicidade, estabelece a relação entre o preço das ações que compõem o S&P 500 e os lucros das empresas participantes. Historicamente, esses dois fatores – preço e lucro – tendem a andar de mãos dadas.

Neste ano, a bolsa americana já acumula uma alta de pouco mais de 10%, enquanto os lucros das empresas que compõem o índice aumentaram em mais de 20%. Assim, a alta recente não pode ser atribuída apenas a um sentimento de euforia; na verdade, é resultado do mercado acompanhando a geração de lucros, mesmo que, em alguns momentos, essa valorização estivesse atrás do crescimento dos lucros.

Essa relação entre preço e lucro é uma constante observável ao longo do tempo. O aumento sem o respaldo de lucros pode ser considerado uma moda passageira, enquanto o aumento baseado em lucros crescentes indica uma situação diferente e mais sustentável.

Além disso, ao concluirmos setembro, tivemos a divulgação dos resultados do segundo trimestre nos Estados Unidos, e o que os números indicaram? Um resultado notável foi que 88% das empresas do índice superaram as expectativas de receita, com crescimento médio aproximado de 15% em relação ao mesmo período do ano anterior. Já no âmbito dos lucros, mais de 70% das empresas relataram resultados acima do esperado pelo mercado, com um crescimento superior a 30%, excluindo os dados extraordinários de Google e Amazon que impactaram os números totais.

Embora esses dados refiram-se a um passado recente, o mercado não apenas comemorou esses resultados, mas também ajustou suas expectativas para o futuro. Diversas empresas revisaram suas estimativas para os meses seguintes e para o ano como um todo, com pelo menos 15% delas divulgando projeções mais otimistas.

Após a divulgação de resultados expressivos e com várias revisões para cima nas expectativas, o mercado, como de costume, reprecificou o que vem pela frente. Atualmente, o consenso prevê alguns trimestres de crescimento dos lucros na faixa de 20%.

Mas e o que a economia nos diz?

As empresas listadas na bolsa americana funcionam como um reflexo de uma fração da economia. Portanto, se houver inconsistências nas informações fornecidas pelas empresas, essas discrepâncias também devem ser visíveis na economia de maneira geral. Aqueles que sustentam a visão de um cenário de excesso costumam buscar na economia uma contraposição à leitura do mercado: “o mercado subiu, mas a atividade não acompanha”.

Entretanto, a realidade atual nos mostra um cenário diferente. Os indicadores de atividade econômica nos EUA, especialmente os últimos Índices de Gerentes de Compras (PMIs) de agosto, revelam um quadro de expansão da atividade. O índice ISM de serviços, por exemplo, avançou pelo 26º mês consecutivo, e os PMIs da S&P Global corroboraram este padrão, alcançando o nível mais elevado em mais de quatro anos. Portanto, a economia americana continua a crescer, com serviços liderando, a indústria ainda apresentando resultados positivos, uma postura mais cautelosa em relação ao emprego e custos compondo um cenário persistente.

Usamah Bhatti, da S&P Global Market Intelligence, resumiu bem essa dinâmica ao afirmar que a atividade no setor privado acelerou em agosto, e os dados indicam um Produto Interno Bruto (PIB) anualizado de 3,0% para o terceiro trimestre, significativamente acima do 1,5% registrado no trimestre anterior. Além disso, uma aceleração no emprego também foi observada.

E o receio de bolha?

A comparação com a “bolha das .com” no início dos anos 2000 colide com a realidade atual dos resultados e balanços das empresas. Embora tal comparação seja compreensível, visto que o momento econômico contemporâneo é fortemente influenciado pelo setor tecnológico, especialmente pela inteligência artificial, existem importantes diferenças.

No final da década de 1990, uma parte significativa do crescimento foi impulsionada por expectativas impulsivas, com muitas empresas apresentando receitas baixas e lucros inexistentes, sustentando múltiplos que apenas seriam justificáveis se o futuro trouxesse resultados imediatos e substanciais. O ciclo atual de valor relacionado à inteligência artificial, por sua vez, apresenta uma diferença crucial: os lucros são tangíveis e mensuráveis, manifestando-se em margens, retornos e caixa.

Embora os resultados atuais não garantam que toda a aplicação em IA gere retorno ao acionista, há uma percepção geral de que um aumento notável na produtividade e nos investimentos está em curso. Essa dinâmica deverá resultar em vencedores e perdedores, mas está alicerçada em realizações reais e não apenas em promessas de um futuro incerto.

Antes de entrar no debate sobre o valuation (avaliação do ativo), é crucial abordar as margens e a rentabilidade operacional. Um dos argumentos para refutar a ideia de uma bolha é que atualmente as empresas têm reportado lucros, além de margens que estão em níveis historicamente altos. A fase de resultados mais recentes revelou que as empresas do S&P 500 estão operando com margens de lucro que batem recordes, uma realidade que não se limitou a duas ou três grandes empresas.

Cerca de 90% dos setores representados no índice mostraram expansão de margens neste trimestre. Quando a rentabilidade é generalizada, enfraquece-se a ideia de que apenas um pequeno número de ações sustentam o índice. O retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) é um dos pilares fundamentais de qualquer avaliação. Com lucros crescendo e margens se mantendo elevadas, o ROE agregado do S&P 500 alcança novos patamares, superando consideravelmente a rentabilidade operacional de empresas da Europa, Japão, Canadá e demais mercados emergentes.

Essa informação é crucial, pois, ao se iniciar a discussão clássica sobre a afirmação de que “a bolsa americana está cara”, é vital levar em conta essa nova realidade. Isso se deve ao fato de que qualquer comparação com o múltiplo médio de um S&P 500 mais voltado para setores tradicionais, que possui margens e ROEs estruturalmente menores, pode resultar em uma percepção distorcida. A realidade atual destaca um índice que possui mais empresas com margens altas e retornos elevados.

Valuation: o múltiplo isolado é o começo, não o fim

Com isso em mente, é verdade que, atualmente, a bolsa americana está negociando a múltiplos mais altos em relação à média histórica. Negar essa assertiva seria desonesto. Portanto, é pertinente questionar: o múltiplo histórico ainda representa o parâmetro correto?

Primeiramente, deve-se observar que houve uma mudança significativa em sua composição. Décadas atrás, o S&P 500 continha uma proporção maior de empresas de economia tradicional, que, como regra, possuíam margens e ROEs inferiores. Assim, utilizar a média desse cenário para avaliar o índice atual é comparar realidades distintas.

Em segundo lugar, o chamado “P/E justo” não é uma determinação arbitrária. Ele resulta da relação entre o retorno sobre o capital e a taxa de crescimento. Quando o crescimento e o ROE são incorporados ao modelo, a resultante – o múltiplo justo – chega a ser bem maior.

Uma maneira de ajustar essa avaliação é considerando a chamada PEG ratio — o P/E ajustado pelo crescimento. Embora essa métrica não solucione todas as indagações, ela evita o reducionismo que ignora o denominador. Durante períodos de revisões significativas de lucros, o mercado pode até se apresentar mais barato em termos de PEG, enquanto os preços aumentam, simplesmente porque o crescimento avança mais rapidamente que a valorização das cotações.

Portanto, a discussão acerca da bolsa americana, considerada “cara”, continuará a ocorrer, assim como sempre ocorreu. Porém, é fundamental não levar ao pé da letra a simplificação que ignora a complexidade do quadro que envolve essa análise econômica e de mercado.

Fonte: www.estadao.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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