A economia americana está realmente em uma ‘era dourada’, como afirma Trump? Descubra em quatro pontos.

Discurso de Trump e a Realidade Econômica

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, proferiu, em seu discurso sobre o Estado da União na terça-feira, dia 24, uma tentativa de persuadir os cidadãos americanos sobre a ideia de uma economia em crescimento, que se caracteriza pela redução dos preços e um aumento acelerado no número de empregos disponíveis. Iniciando sua fala, o republicano destacou que os EUA estariam vivendo a sua “era dourada”. No entanto, ele se deparou com um público cético, que possui uma visão muito mais pessimista sobre a situação econômica atual.

Confiança do Consumidor

Menos de 12 horas antes do discurso de Trump, o The Conference Board, um respeitado grupo de pesquisa de negócios, divulgou um relatório sobre a confiança do consumidor. Este relatório indicou que a confiança geral na economia dos Estados Unidos continua em níveis historicamente baixos, apenas ligeiramente acima do patamar em que despencou durante a recessão ocasionada pela pandemia de covid-19.

No mês de fevereiro, o índice subiu para 91,2, um número consideravelmente inferior ao pico de 112,8 alcançado em novembro de 2024. Os cidadãos americanos demonstram estar desanimados com os preços elevados e percebem uma escassez de oportunidades de emprego, conforme revelado pela pesquisa.

Outras pesquisas corroboram esses resultados. Segundo um levantamento realizado pelo Associated Press-NORC Center for Public Affairs Research, apenas 39% da população aprova a liderança econômica de Trump. Além disso, o indicador de sentimento do consumidor da Universidade de Michigan se mantém em níveis que são típicos de uma recessão.

Discrepâncias entre Fatos e Política

Trump buscou superar esse pessimismo ao apontar dados econômicos que retratam um cenário mais positivo. Essa estratégia, já utilizada pelo presidente Joe Biden, teve sucesso limitado. Na noite de terça-feira, as afirmações do presidente apresentaram discrepâncias em relação à realidade econômica vivenciada por muitos americanos.

“A inflação está despencando, as rendas estão subindo rapidamente, a economia vibrante está mais forte do que nunca”, afirmou Trump. Mas em que medida a economia dos Estados Unidos realmente se encontra em sua “era dourada”?

Crescimento Econômico

Em primeiro lugar, a economia americana está, de fato, crescendo, porém esse crescimento é considerado modesto em comparação a um cenário de “plena expansão”. O crescimento registrado foi de 2,2% no último ano, inferior ao crescimento de 2,8% no último ano do governo Biden e ao de 2,9% em 2023. É importante ressaltar que muitos americanos manifestaram descontentamento com os altos preços durante a gestão de Biden, que resultaram em uma inflação que atingiu 9,1% em 2022, o maior índice em 40 anos.

Uma economia realmente aquecida nos Estados Unidos normalmente se assemelha ao final da década de 1990, quando o crescimento superou 4% por quatro anos consecutivos, ou à década de 1980, quando o crescimento permaneceu em 3,5% ou mais por seis anos seguidos.

Pressão por Preços Altos

A inflação pode ter desacelerado no último ano, mas muitos americanos ainda apontam os preços elevados como o principal motivo de sua insatisfação econômica. Embora Trump tenha mencionado que a inflação subjacente, excluindo categorias voláteis como alimentos e energia, caiu para o menor nível em cinco anos em janeiro, outras medidas indicam que a inflação persiste em níveis elevados.

Um indicador de preços subjacentes monitorado de perto pelo Federal Reserve (Fed) estava 3% acima do nível registrado no ano anterior, ultrapassando a meta de 2% fixada pelo Fed. Este indicador concede menos peso aos custos de habitação, que apresentaram desaceleração, em comparação com a medida citada por Trump.

Praticamente metade dos entrevistados na pesquisa de sentimento do consumidor da Universidade de Michigan em fevereiro “mencionou espontaneamente os altos preços corroendo suas finanças pessoais”, conforme declarações de Joanne Hsu, diretora da pesquisa.

Trump também mencionou a queda acentuada no preço dos ovos, o que é verdade, mas a maior parte dos itens essenciais da cesta de consumo dos americanos, como alimentos, aluguel e eletricidade, permanece consideravelmente mais cara do que há cinco anos. É digno de nota que os preços da eletricidade, por exemplo, aumentaram mais 6,3% apenas nos últimos 12 meses.

As tarifas implementadas por Trump também contribuíram para elevar o custo de muitos itens importados, que incluem móveis, peças automotivas, ferramentas e vestuário. Alimentos como carne moída, café e bananas tiveram uma expressiva alta de preços no último ano, sendo que a carne moída, em particular, teve um aumento de 17%.

Taxas de Emprego

A desaceleração nas contratações no último ano é uma das razões que explicam o pessimismo entre os consumidores. Os empregadores apenas acrescentaram 181 mil novos postos de trabalho em 2025, resultando em uma média de 15 mil postos por mês, fazendo deste o pior ano para a criação de empregos fora de um período de recessão desde 2002.

Apesar da promessa de Trump de revitalizar a indústria americana, o setor de manufatura perdeu 108 mil postos de trabalho em 2025, além das 202 mil vagas eliminadas nos dois últimos anos do governo Biden. Somente as montadoras e fábricas de autopeças encerraram cerca de 74 mil vagas nos últimos dois anos.

As tarifas de Trump contribuem de forma parcial para essa situação, pois impõem custos mais altos para muitas fábricas na aquisição de matérias-primas e peças importadas. As taxas de juros elevadas também têm prejudicado diversos fabricantes nos últimos anos.

Além disso, muitos empregadores contrataram de maneira agressiva em 2021 e 2022, quando a economia dos EUA se recuperava com vigor das restrições implementadas devido à pandemia. A automação, tendência estimulada pela pandemia, fez com que diversas industrias necessitassem de menos trabalhadores.

Por outro lado, houve um surpreendente aumento nas contratações em janeiro, com 130 mil novos postos de trabalho, sendo que as fábricas voltaram a criar vagas pela primeira vez em mais de um ano.

Impacto das Tarifas

Trump sugeriu que suas tarifas comercialmente punitivas resultaram em um crescimento econômico significativo nos EUA, mas é improvável que a maioria dos americanos perceba benefícios diretos provenientes dessas medidas. “Daqui para frente, fábricas, empregos, investimentos e trilhões e trilhões de dólares continuarão fluindo para os Estados Unidos da América”, prometeu Trump.

Em seu discurso, o presidente reiterou que suas tarifas são indolores, insistindo que os custos são arcados por países estrangeiros. Na prática, essas tarifas são pagas por importadores americanos, que frequentemente tentam repassar esses custos para os consumidores através de preços mais altos.

Enquanto empresas estrangeiras podem enfrentar perdas se forem obrigadas a reduzir preços para captar vendas no mercado americano, os preços de importação não diminuíram significativamente. Isso sugere que os exportadores internacionais não estão enfrentando grandes dificuldades.

Um estudo conduzido pelo economista de Harvard, Alberto Cavallo, e outros colegas, revelou que os consumidores americanos suportaram 43% dos custos elevados advindos das tarifas, enquanto as empresas americanas assumiram a maior parte do restante.

Até o momento, as altas taxas de importação estabelecidas por Trump não resultaram em avanços substanciais em seu objetivo de reduzir o déficit comercial dos EUA, que representa a diferença entre o que o país vende e o que compra no exterior. O déficit comercial americano em bens, incluindo automóveis e eletrodomésticos – que são o foco das políticas protecionistas de Trump – atingiu um recorde de US$ 1,24 trilhão no ano passado, um aumento de 2% em relação a 2024.

Fonte: www.moneytimes.com.br

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