Bolsa em Recuperação após Crise de Agosto
Depois de um mês de agosto marcado por turbulências, o Ibovespa iniciou o mês de setembro em um caminho de recuperação. Em agosto, o principal índice da Bolsa de Valores brasileira havia enfrentado uma sequência de onze dias seguidos de queda, resultando na saída de R$ 18 bilhões em capital estrangeiro da B3. Atualmente, o índice opera próximo aos 185 mil pontos, registrando uma alta de 4% no mês.
Expectativas Eleitorais e Retorno de Investidores Estrangeiros
A recuperação do Ibovespa é, segundo analistas, em grande parte impulsionada pela expectativa de uma eleição mais acirrada. As pesquisas mais recentes indicam que Luiz Inácio Lula da Silva (PL) e Flávio Bolsonaro (PL) estão tecnicamente empatados para um possível segundo turno nas eleições. Em adição, os investidores estrangeiros, que haviam deixado a B3 em agosto, estão retornando ao mercado financeiro local. Até meia-doze do mês, os aportes na Bolsa nacional totalizavam R$ 6,287 bilhões.
Mudança de Recomendações pelo Bank of America
No início de setembro, o Bank of America (BofA) alterou sua recomendação para o Brasil, elevando-a para overweight (equivalente a compra), mais de um ano após ter rebaixado sua posição para marketweight (considerada neutra). O banco também revisou sua projeção para a taxa Selic, estimando-a em 11,25% para o final de 2027, em comparação à previsão anterior de 12,75%. Para o BofA, a desaceleração das atividades econômicas e a diminuição dos riscos inflacionários podem possibilitar um ciclo de cortes na taxa de juros mais profundo do que o esperado pelo mercado. Com uma política monetária mais flexível, os preços das ações no Brasil devem aumentar, mesmo diante de revisões potenciais negativas de lucros e incertezas eleitorais.
Cautela na Desaceleração
A economista-chefe da InvestSmart XP, Mônica Araújo, concorda que a desaceleração econômica e a expectativa de novos cortes de juros têm beneficiado o Ibovespa. No entanto, ela alerta que essa desaceleração deve ser cuidadosamente monitorada para não precificar um cenário de recessão, o que teria um impacto negativo sobre os investimentos em renda variável.
Fatores Externos Influenciando o Mercado
Um fator externo que também contribuiu para a recuperação do Ibovespa foi o anúncio feito pelo Tesouro dos Estados Unidos em agosto sobre o aumento do programa de recompra de seus títulos públicos, conhecidos como Treasuries, especificamente os de prazos mais longos. O teto da operação foi elevado de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões para vencimentos de 10 a 20 anos e de 20 a 30 anos. Essa ampliação da liquidez no mercado financeiro dos EUA favorece a entrada de fluxo estrangeiro na Bolsa brasileira e, consequentemente, a valorização do real.
Volatilidade no Caminho para os 200 Mil Pontos
Apesar das contribuições positivas dos fatores antes mencionados, a trajetória do índice rumo aos 200 mil pontos deverá ser marcada por volatilidade. O principal índice da B3 quase alcançou essa marca em abril, ultrapassando 199 mil pontos, mas não conseguiu se estabelecer nesse patamar. Segundo Araújo, os principais impulsionadores de uma possível reversão da recente alta do Ibovespa estão diretamente relacionados ao cenário eleitoral, incluindo alterações nas pesquisas de intenção de voto e os resultados do primeiro turno das eleições, além de eventuais escândalos de corrupção envolvendo membros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Para Araújo, aumentos ou diminuições na possibilidade de alternância no governo levarão os investidores a reavaliarem suas posições, o que criará volatilidade tanto nas altas quanto nas baixas do mercado.
Expectativa de Correção Rápida
Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil, comenta que, da mesma forma que mudanças nas pesquisas eleitorais beneficiaram os ativos brasileiros, uma reversão desse cenário pode ocasionar uma correção rápida no mercado. Ele afirma que parte da valorização recente reflete uma mudança de expectativas, e não uma melhora efetiva nos resultados das empresas até o momento.
Potenciais Vencedores do Trade Eleitoral
Recomendações da Ativa Investimentos
A situação eleitoral já está influenciando as recomendações de corretoras. A Ativa Investimentos, em sua carteira recomendada para setembro, incluiu ações do Banco do Brasil (BBAS3), visando capturar a reprecificação do risco eleitoral, dado que o mercado percebe uma maior chance de um segundo turno competitivo. A análise indica que a ação negocia a múltiplos mais baixos e tende a reagir positivamente ao aumento do fluxo estrangeiro, embora a recuperação operacional ocorra de forma gradual.
A Performance das Ações
As ações do Banco do Brasil já começaram a responder ao ambiente eleitoral. Após uma queda de 16,63% entre o início e meados de agosto, as ações se recuperaram e ganharam 28,94% entre 18 de agosto e 10 de setembro, quando o Ibovespa alcançou seu maior nível desde abril, conforme levantamento da consulta da Elos Ayta Consultoria. O estudo revelou que ações relacionadas à economia interna lideraram a recuperação no índice após as quedas de agosto, destacando empresas como Magazine Luiza (MGLU3) e Yduqs (YDUQ3), que reportaram altas de 38,79% e 37,65%, respectivamente. Contudo, a CSN (CSNA3) foi o grande destaque, com uma valorização de 58,37% no mesmo período.
O Potencial da Petrobras
Além do Banco do Brasil, as ações da Petrobras (PETR3;PETR4) também são vistas como beneficiárias do trade eleitoral, com ambas as classes de ações apresentando altas superiores a 6% em setembro. O relatório da Genial Investimentos indica que uma parte significativa do desconto das ações da Petrobras em relação às petrolíferas internacionais está relacionada ao seu status estatal e à incerteza sobre políticas de preços, disciplina de capital e retornos aos acionistas.
A corretora estima que o desconto das ações da companhia em comparação a concorrentes estatais chega a 19,9% e 46,6% a menos que as privadas. Na avaliação da Genial, uma vitória de um candidato favorável ao mercado poderia alterar a percepção de risco, reduzindo o retorno esperado pelos investidores antes mesmo de qualquer mudança substancial nos resultados operacionais da Petrobras.
Influências do Oriente Médio
O analista de ativos da Monte Bravo, Bruno Benassi, acrescenta que, apesar da Petrobras se beneficiar de um cenário eleitoral mais competitivo, as dinâmicas do conflito no Oriente Médio e o comportamento dos preços do petróleo desempenharão papéis cruciais no desempenho das ações da empresa. Ele observa que, em caso de resolução do conflito e de uma correção nos preços do petróleo, a empresa pode menos aproveitar os efeitos do trade eleitoral.
Estratégias de Carteira para Diferentes Cenários
Carteira de Lula e de Flávio
Com Lula e Flávio Bolsonaro tecnicamente empatados para um possível segundo turno nas eleições de 2026, analistas estão elaborando carteiras para os diferentes cenários que podem surgir a partir dos resultados eleitorais. O Citi, em caso de reeleição do petista, tende a preferir papéis que são adequados para diferentes condições do mercado, além de ações de empresas que possuem exposição a programas públicos, como o Minha Casa, Minha Vida.
Por outro lado, em um cenário de vitória de Flávio Bolsonaro, a preferência dos analistas se volta para ações cíclicas que são sensíveis às variações da economia, além de um foco selecionado em papéis de companhias alavancadas, que se beneficiariam de juros mais baixos no longo prazo.
A Visão da Kinea Investimentos
A Kinea Investimentos propõe uma carteira que se sustenta em ambos os cenários. A gestora seleciona empresas com crescimento previsível nos lucros, como aquelas ligadas ao Minha Casa, Minha Vida e ações do setor de serviços públicos, ao mesmo tempo em que busca capturar oportunidades nas áreas financeira, industrial e varejista. O estrategista Bohm explica que, caso Lula avance para o quarto mandato, pode haver uma valorização do dólar frente ao real, o que geraria uma expectativa de gastos e desequilíbrio nas contas públicas, impactando as taxas de juros futuras.
Na chamada “carteira Lula”, as seleções incluem empresas exportadoras que se beneficiariam de um dólar mais forte e negócios mais defensivos, cuja performance não depende excessivamente do crescimento econômico. Já na “carteira Flávio”, são incluídos nomes como Petrobras, Banco do Brasil, Axia Energia (AXIA3), BTG Pactual (BPAC11) e Cyrela (CYRE3), reunindo estatais com possíveis mudanças de gestão, empresas com potencial para melhorar a governança e companhias cíclicas favorecidas por um cenário de juros mais baixos.
Fonte: www.estadao.com.br
