A Visita de Xi Jinping aos Estados Unidos
A visita do presidente da China, Xi Jinping, aos Estados Unidos resultou em oito entendimentos entre as nações e uma declaração que merece destaque: ambas se comprometeram a estabelecer uma relação de “estabilidade estratégica construtiva”, fundamentada no respeito, na equidade e na reciprocidade.
A Nova Abordagem nas Negociações
Um ponto crucial que emergiu dessa visita é a transformação no estilo de negociação. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tradicionalmente adotou uma postura de impôr tarifas e restrições, encontrou uma China que não apenas é capaz de competir, mas que já se destaca em áreas como inteligência artificial, poder militar e comércio internacional.
Embora isso não signifique que as vantagens dos Estados Unidos tenham sido desconsideradas, a situação impede que Washington defina unilateralmente as normas. Em vez disso, ambos os governos iniciam um processo colaborativo para estabelecer limites em uma competição que provavelmente continuará intensa entre os dois países.
O Que Trump Desejava e O Que Conseguiu
A agenda conhecida como “América Primeiro” tinha como objetivos principais a redução do déficit comercial, a revitalização da produção industrial, a obtenção de liderança em tecnologias estratégicas e a cooperação da China em questões internacionais. Trump conseguiu alguns resultados que ele pode apresentar aos cidadãos americanos.
Um dos principais resultados foi um acordo para um tratamento tarifário mais vantajoso envolvendo US$ 30 bilhões em bens de ambos os lados, além da criação de canais permanentes para discutir comércio e investimentos.
Adicionalmente, os dois governos também firmaram colaborações na luta contra drogas sintéticas e seus precursores. Essas medidas têm valor político e econômico, mas não se configuram como uma regra tarifária unilateral: as vantagens tarifárias são recíprocas e sua implementação dependerá de negociações e do acompanhamento contínuo entre as duas nações.
Entretanto, a pressão dos Estados Unidos sobre a China tem gerado custos elevados para os próprios americanos. Por exemplo, uma tarifa pode proteger uma fábrica, mas, ao mesmo tempo, encarece os componentes que outras empresas precisam. Um subsídio pode atrair uma nova empresa, mas não imediatamente recria sua cadeia de fornecedores. Além disso, restringir a venda de chips pode atrasar o progresso da China, mas, em contrapartida, pode acelerar o desenvolvimento de alternativas tecnológicas chinesas.
Para as empresas, essas políticas tornam preços, contratos e investimentos menos previsíveis. Trump foi forçado a reconhecer que a China possui uma resposta significativa a essas ações e que um acordo pode ser menos oneroso para ambos os lados do que uma disputa que se limitaria a regras impostas apenas pelos Estados Unidos.
A Busca da China por Estabilidade
A China, por sua vez, busca previsibilidade durante a transição de sua economia e na formulação de sua estratégia de circulação tanto interna quanto externa, com foco na alta tecnologia e na economia verde. A estabilidade em relação aos Estados Unidos facilita o planejamento de investimentos, comércio e desenvolvimento tecnológico. Isso, porém, não implica em abandonar interesses centrais.
A questão de Taiwan não esteve entre os oito resultados divulgados, embora tenha sido abordada por ambos os líderes; as divergências de segurança ainda permanecem como um entrave. O ganho para a China reside na inclusão de sua demanda por respeito e reciprocidade no escopo da relação, sem aceitar que todas as diretrizes sejam determinadas apenas por Washington.
Os interesses convergem em áreas práticas. No que diz respeito ao Irã, ambos os governos concordaram em princípios relacionados à não proliferação nuclear e à proteção das rotas marítimas internacionais, que são vitais para o comércio e para o fornecimento de energia. O diálogo sobre inteligência artificial contempla a troca de avaliações sobre riscos e benefícios, além de um canal destinado a incidentes inesperados.
Os setores militares dos dois países concordaram em avançar na elaboração de um memorando de comunicação e prevenção de crises. Até a menção à aliança estabelecida durante a Segunda Guerra Mundial e o empréstimo de pandas têm uma função diplomática, criando um espaço de confiança em meio a um contexto de desconfiança mútua.
Uma Oportunidade Para o Brasil
Dessa forma, o resultado da visita não significa o encerramento das disputas entre as nações. Os Estados Unidos conseguiram compromissos funcionais, enquanto a China recebeu reconhecimento como um parceiro que pode dividir a liderança global com os Estados Unidos. Ambos alcançaram canais que podem evitar que a competição nas áreas tecnológica, comercial ou militar resulte em um rompimento completo. A confiança entre os dois países poderá ser reconstruída conforme os compromissos pactuados forem honrados.
Para o Brasil, uma relação menos conflituosa entre os dois maiores parceiros comerciais do mundo tem potencial para tornar as exportações, os investimentos e o financiamento mais previsíveis. O impacto real pode ser positivo, desde que o Brasil saiba aproveitar essa abertura no cenário internacional.
Tanto a China quanto os Estados Unidos afirmaram que irão cooperar na realização da Apec, que será sediada pela China, e do G20, que será organizado pelos Estados Unidos, além de informar que os líderes pretendem participar das respectivas reuniões um do outro. Essas duas cúpulas apresentam uma agenda que aborda temas relevantes para o Sul Global, como acesso a mercados, infraestrutura, energia limpa e financiamento produtivo.
Assim, cabe ao Brasil chegar à mesa de negociações com propostas próprias, como a de agregar valor à produção agroindustrial e mineral, atrair investimentos e tecnologia para o setor energético, fortalecer a integração do Mercosul e oferecer mecanismos de pagamento e financiamento em moedas locais, quando isso representar uma redução real de custos. Além disso, uma parceria triangular em projetos específicos poderia se mostrar mais produtiva do que tratar cada decisão como uma escolha entre Pequim e Washington.
Fonte: www.moneytimes.com.br
