Expectativas de Corte da Selic pelo Banco Central
Os indícios de que o Banco Central (BC) pode iniciar um processo de afrouxamento monetário estão se tornando cada vez mais evidentes. De acordo com David Beker, que é chefe de economia no Brasil e responsável pela estratégia para a América Latina no Bank of America (BofA), o cenário atual favorece uma diminuição da taxa Selic já neste ano.
Durante uma conversa com jornalistas na última quarta-feira, dia 3, Beker afirmou: “Os astros estão se alinhando para o Banco Central começar um processo de corte de juros.” Segundo ele, as condições que justificam essa mudança estão atualmente presentes: a atividade econômica indica uma desaceleração, a inflação de curto prazo continua baixa, as expectativas de inflação para o período de 2025 a 2027 estão em declínio, e o mercado de trabalho apresenta sinais de leve enfraquecimento, embora ainda permaneça aquecido.
Além desses fatores, Beker observou que o Federal Reserve (Fed) dos Estados Unidos também deu indicações de que pode iniciar cortes nas taxas de juros em breve.
Espaço para Corte já em 2023
O economista afirmou: “Existe, sim, espaço para o BC começar o corte este ano.” Ele esclareceu que anteriormente a inflação de curto prazo estava em uma posição mais favorável, mas as expectativas não estavam em queda, ou as expectativas estavam caindo, mas a atividade econômica não mostrava sinais de desaceleração. Contudo, atualmente, todos esses fatores estão se movendo na mesma direção.
As projeções do Bank of America indicam que o primeiro corte da Selic deve ocorrer na reunião de dezembro, com uma redução de 0,50 ponto percentual. Entretanto, o mercado está dividido entre a possibilidade de um primeiro ajuste ainda neste ano ou no primeiro trimestre de 2026. Para justificar um atraso no início dos cortes, Beker menciona a necessidade de reforçar a queda nas expectativas de inflação, embora isso traga o risco de perder o timing correto para a realização do corte.
Ele ainda observou que a probabilidade de um primeiro corte já em novembro é mais alta do que a de ocorrer apenas em março do próximo ano, embora essa última opção não seja sua projeção principal. As previsões do banco estimam uma Selic de 14,5% para o ano de 2025 e de 11,25% para 2026, com cortes ocorrendo no primeiro semestre, uma pausa durante o período eleitoral e uma nova retomada no final do ano. Para 2027, a expectativa é de que os juros caiam para 10,5%.
Autonomia do Banco Central e Propostas em Andamento
Além dos fundamentos econômicos que sustentam essa análise, o mercado permanece atento à autonomia do BC, especialmente em relação a um projeto que discute a possibilidade de o Congresso ter poder para demitir membros da diretoria da autarquia. Beker enfatizou que ainda não há clareza sobre o andamento dessa proposta, afirmando que “é preciso esperar para ver”.
Cenário Justificando Cortes na Selic, Segundo o BofA
O Produto Interno Bruto (PIB) apresentou crescimento de 0,4% no segundo trimestre de 2025, um ritmo inferior à alta de 1,4% registrada nos primeiros três meses do ano. Esse dado confirma a percepção de uma desaceleração da atividade econômica, alinhada aos efeitos da política monetária restritiva adotada pelo Banco Central.
Em termos de inflação, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) apresentou uma alta de 0,26% em julho. No entanto, a prévia de agosto, medida pelo IPCA-15, surpreendeu ao registrar uma deflação de 0,14%, sendo essa a primeira deflação desde julho de 2023. As projeções do mercado para a inflação também indicam uma trajetória de queda. De acordo com o Boletim Focus mais recente, a expectativa para 2025 recuou pela 14ª semana consecutiva, passando de 4,86% para 4,85%. Para os anos seguintes, as estimativas também foram revistas para baixo: 4,31% em 2026 e 3,94% em 2027.
Mercado de Trabalho e Cenário Externo
O mercado de trabalho continua aquecido. Em julho, foram geradas 129.775 novas vagas formais, um número inferior ao observado no mesmo mês de 2024, quando o saldo foi de 191.373 postos. No contexto internacional, as atenções estão voltadas para os Estados Unidos, onde o discurso do presidente do Fed, Jerome Powell, durante o evento em Jackson Hole foi interpretado como mais “dovish”. Essa fala alimentou a percepção de que o ciclo de cortes de juros pode estar próximo de se iniciar.