Bancos iniciam expansão do crédito consignado privado, mas aguardam melhorias operacionais.

Bancos iniciam expansão do crédito consignado privado, mas aguardam melhorias operacionais.

by Ricardo Almeida
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A Disputa pelo Crédito Consignado Privado

Os principais bancos brasileiros intensificaram a concorrência no crédito consignado privado no início deste ano, após apresentarem uma postura mais cautelosa nos meses iniciais do programa de Crédito do Trabalhador. O mercado aguarda a resolução de pendências operacionais no sistema da DataPrev, responsável pelo processamento dos empréstimos, mas já começou a acelerar as concessões na modalidade, em um movimento estratégico para proteger os balanços financeiros diante da crescente pressão do endividamento e da inadimplência no país.

Crescimento da Carteira de Crédito Consignado

Em março, a carteira total do crédito consignado destinada a funcionários do setor privado ultrapassou a marca de R$ 100 bilhões, marcando um crescimento de 142% se comparado ao mesmo mês do ano passado, conforme dados atualizados do Banco Central. Este volume ainda representa um pouco mais de 25% do total de R$ 384 bilhões que correspondem ao consignado para servidores públicos, o que indica um potencial para expansão, já que o Brasil possui aproximadamente três vezes mais trabalhadores contratados sob a CLT do que empregados no setor público.

O Consignado como Instrumento Seguro

O crédito consignado é considerado um instrumento mais seguro para a oferta de crédito pessoal, uma vez que as parcelas são descontadas diretamente da folha de pagamento. Além disso, o modelo permite o uso de uma parte do saldo do FGTS para amortizar a dívida em caso de demissão sem justa causa. Este arranjo ajuda a reduzir o risco de inadimplência e limita os juros cobrados nas operações.

Segundo Maria Estela Ferraz de Campos, head de crédito da Integral Group, "a Selic alta alterou a abordagem dos bancos, que estão diminuindo a exposição ao crédito pessoal sem garantias, como o cartão de crédito, e estão priorizando linhas nas quais o consumidor pode oferecer um ativo como garantia ou, então, optar pelo consignado."

Oportunidades e Desafios para as Instituições Financeiras

Esse cenário cria várias oportunidades para as instituições financeiras, mas também aumenta a competição no setor. De acordo com Marcos Brasiliano Rosa, vice-presidente de Finanças e Controladoria da Caixa Econômica Federal, "a briga será principalmente pela conquista de empresas com um quadro de empregados mais robusto, e não necessariamente pela relação direta com o cliente pessoa física". Ele complementa que bancos que possuem uma carteira de clientes pessoas jurídicas maior estão ampliando suas operações nesse segmento, conforme comentou em entrevista ao Broadcast, um sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado.

Implementação do Programa pela Caixa Econômica Federal

A Caixa, que esteve envolvida na elaboração do programa, ainda está nos primeiros estágios de implementação da nova linha de crédito. A carteira de crédito consignado CLT da instituição alcançou cerca de R$ 9 bilhões, conforme Brasiliano. Embora esse número represente uma fração do total de R$ 114,2 bilhões da carteira de consignados, o maior banco do país planeja aumentar a concessão nos próximos meses.

Entre os bancos privados, o Itaú se destaca com uma carteira que cresceu de cerca de R$ 12 bilhões antes do programa do governo para R$ 19,5 bilhões no primeiro trimestre. O banco lidera o segmento, detendo pouco mais de 20% do mercado. Milton Maluhy Filho, presidente do Itaú, pontuou que "estamos crescendo com qualidade, atingindo os clientes certos e mantendo uma visão de rentabilidade adequada", ao se dirigir a analistas durante uma teleconferência.

Desafios Relacionados ao DataPrev

Para intensificar a exposição na modalidade de crédito consignado, o setor bancário ainda aguarda melhorias no sistema do DataPrev, especialmente para assegurar a portabilidade entre bancos e a migração automática do contrato quando o trabalhador troca de emprego. No modelo atual, uma mudança de empresa exige a formalização de um novo contrato. O governo está trabalhando para automatizar esse processo, o que se revela complexo, uma vez que demanda ajustes nos sistemas das instituições financeiras.

De acordo com Brasiliano, da Caixa, as melhorias começaram a ser implementadas em maio e devem estar totalmente operacionais até setembro. Ele esclareceu que "algumas atualizações significativas estão sendo feitas agora em maio e poderão já apresentar efeitos no mês seguinte".

Divergências Entre Bancos Públicos e Privados

Bancos privados e públicos têm divergido quanto ao modelo de acesso às garantias vinculadas ao FGTS, questão fundamental para a consolidação do crédito consignado privado. O governo defende a centralização desse mecanismo pela Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) digital, enquanto a indústria bancária busca disponibilizar garantias em seus próprios canais. Para encontrar um meio-termo, o ministério do Trabalho deve permitir que os bancos ofereçam garantias em seus aplicativos, mas sob um conjunto específico de restrições, segundo Brasiliano. Se o empréstimo for concedido por meio da CTPS, as condições poderão ser mais flexíveis.

O Broadcast tentou entrar em contato com o ministério para esclarecer detalhes sobre o processo, mas não obteve retorno até a publicação deste artigo.

Medidas Contra Taxas Abusivas

No mês anterior, o governo publicou uma portaria que visa combater o que as autoridades classificam como "taxas abusivas". A resolução prevê punições para instituições financeiras que cobrem juros que excedam uma taxa de referência estabelecida pelo Ministério do Trabalho. Além disso, determina que o custo efetivo total (CET) das operações contratadas através de plataformas digitais fique restrito a um ponto percentual acima da taxa de juros mensal da operação. Em março, a taxa média do crédito consignado CLT era de 56,8% ao ano, ou aproximadamente 3,8% ao mês, conforme as informações do Banco Central.

Analistas da Fitch alertam que as incertezas regulatórias e operacionais têm trazido uma série de dificuldades para a expansão do crédito consignado privado, apesar do potencial do produto para os modelos de negócios dos bancos. "Se esses desafios persistirem, eles continuarão a impactar os custos dos juros, levando a um conservadorismo maior por parte dos originadores e diminuindo a eficiência do mercado", advertiu a agência.

Fonte: www.moneytimes.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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