Reajuste Eleitoreiro no Bolsa Família
O governo federal anunciou, na quinta-feira (17), um reajuste de 15% no Bolsa Família, coincidentemente a poucos dias do primeiro turno das eleições, agendado para o dia 4 de outubro. De acordo com analistas consultados pelo E-Investidor, essa decisão pode trazer um impacto indireto nas ações da B3, beneficiando algumas delas enquanto prejudica outras.
Aumento dos Benefícios
Com o aumento nos benefícios do programa, o valor mínimo dos pagamentos do Bolsa Família passa de R$ 600 para R$ 691, e a média dos pagamentos sobe de R$ 691 para R$ 777. O governo projetou que o impacto financeiro dessa medida será de R$ 5,8 bilhões em 2026 e de R$ 22 bilhões em 2027. Bruno Moretti, ministro do Planejamento e Orçamento, justificou a alta com base na previsão legal que garante reajuste inflacionário aos beneficiários do programa.
Impactos nas Ações da B3
Segundo Felipe Passero, sócio da Jaguaretê Investimentos, a medida isolada não deve causar um impacto significativo na bolsa, mas levanta questionamentos acerca da politica fiscal. Ele observa que esse tipo de política pode criar condições que favorecem juros mais altos.
Empresas Beneficiadas
No que concerne às empresas que podem ser beneficiadas pelo reajuste, Passero menciona especialmente os varejistas de consumo não discricionário (relacionados a bens essenciais), como o Grupo Mateus (GMAT3) e o Assaí (ASAI3). Entre as companhias farmacêuticas, ele destaca a Pague Menos (PGMN3), que possui uma presença considerável nas regiões Norte e Nordeste, áreas que tradicionalmente têm uma alta penetração do Bolsa Família.
Lucas Xavier, especialista em renda variável e sócio da AW Capital, explica que o reajuste do programa, ao beneficiar a população de baixa renda, promove um aumento no consumo, essencial para a sobrevivência dessas famílias. Ele menciona que os gastos resultantes desse aumento são esperados para focar em itens básicos, como alimentos e produtos do dia a dia, o que tende a proporcionar um fluxo financeiro maior para as empresas que atuam no segmento de consumo básico.
Expectativas de Mercado
Na avaliação de Xavier, dentre as empresas da B3 mais alinhadas com essa característica de consumo, destacam-se Assaí, M. Dias Branco (MDIA3) e Camil (CAML3).
Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil, apresenta uma perspectiva mais cautelosa em relação a empresas como Casas Bahia (BHIA3) e Magazine Luiza (MGLU3). Embora essas redes possam lucrar com a melhora do consumo popular, principalmente na comercialização de móveis, eletrodomésticos e eletrônicos voltados à população de baixa renda, são também empresas sensíveis ao crédito e às variações de taxas de juros.
Desafios da Política Fiscal
Praça ressalta que, se o reajuste elevar a percepção de risco fiscal e gerar um aumento na curva de juros, o encarecimento do crédito poderá afetar as vendas financiadas e pressionar as despesas financeiras das empresas. Apesar de não observar uma perda direta para as companhias devido ao aumento do Bolsa Família, ele alerta para os potenciais prejuízos provenientes de fatores macroeconômicos. Se o mercado perceber que a nova despesa não possui um financiamento estrutural devidamente definido, é possível que as projeções de juros futuros e do dólar aumentem.
Nesse contexto, as empresas que estão endividadas ou que dependem de crédito, além daquelas cujos custos relevantes estão atrelados a moeda estrangeira, tornam-se mais suscetíveis. Entre as ações que podem sofrer na eventualidade de um aumento nas taxas de juros, os analistas mencionam MRV (MRVE3), Tenda (TEND3), Direcional (DIRR3) e Cury (CURY3).
Praça conclui que a repercussão não se deve ao fato de que o Bolsa Família diminui a demanda por imóveis, mas sim ao impacto que taxas de juros mais elevadas têm sobre os financiamentos imobiliários. Essas taxas mais altas tendem a encarecer os juros, que compõem a taxa de desconto utilizada na avaliação das empresas, além de possivelmente reduzir a velocidade das vendas.
Fonte: www.estadao.com.br
