Erros na Relação com a China
O ex-presidente Jair Bolsonaro cometeu um erro ao confrontar a China com a intenção de agradar os Estados Unidos, o que acabou comprometendo a posição pragmática que o Brasil deveria manter frente à disputa entre as duas potências. Essa análise foi feita por Blairo Maggi, que é acionista do Grupo Amaggi e ex-ministro da Agricultura, reconhecido como o “Rei da Soja”.
Maggi afirmou: “O Bolsonaro errou, e a nossa chancelaria errou, ao fazer aquele enfrentamento com a China para agradar os Estados Unidos. Foi o primeiro passo em que erramos ao não ficar totalmente isentos.” A declaração foi feita durante o painel “O agro brasileiro visto de fora: como os mercados globais enxergam o Brasil nos próximos 10 anos”, no Agro Summit do Bradesco BBI, que ocorreu no Hotel Rosewood, em São Paulo.
Para Maggi, o Brasil deveria ter adotado uma postura mais pragmática diante do crescente conflito entre chineses e norte-americanos, evitando um alinhamento automático com qualquer um dos lados. Ele enfatizou: “Vocês brigam lá, brigam aqui e deixam a gente vender no meio. O Brasil não tem nada a ver com essa história, não tem nada a ver com essas confusões.”
Ele expressou ainda seu desejo de que o Brasil não precise fazer essa escolha de se alinhar com um bloco ou outro, ressaltando que, se essa situação se concretizar, o país enfrentará grandes problemas internos em sua produção agrícola.
O Grande Perigo para o Agronegócio
A preocupação que Maggi levantou está ligada à dependência comercial do agronegócio brasileiro em relação à China e ao esforço que Pequim realiza para aumentar sua segurança alimentar e diminuir sua exposição a fornecedores externos. Durante seu mandato como ministro da Agricultura, entre 2016 e 2018, Maggi destacou que realizou oito viagens à China com o objetivo de negociar aspectos específicos das exportações brasileiras. Ele apontou que as autoridades chinesas já manifestavam há quase uma década preocupação com a postura que o Brasil adotaria diante da polarização entre as potências.
“Todas as vezes que fui lá, a imprensa vinha perguntar qual era a posição do Brasil em determinados assuntos. Estamos falando de quase dez anos atrás. Já se olhava que teríamos uma bipolaridade nesse assunto,” recordou ele. Segundo a percepção do empresário, a China está em busca de parceiros que consigam garantir o fornecimento contínuo de alimentos, o que é considerado estratégico para a estabilidade social do país. Um sinal de vulnerabilidade política por parte do Brasil pode, portanto, acelerar a busca chinesa por alternativas de fornecimento.
“A China sempre quer contar com alguém confiável. Quer contar com alguém que amanhã esteja na mesma posição que está hoje, fornecendo alimentos para que a paz social permaneça. Onde não tem comida, tem briga,” afirmou Maggi. Ele destacou que, se a China perceber que o Brasil fica vulnerável ao escolher um lado, será necessário que tome decisões em relação a seus parceiros comerciais.
Maggi sinalizou que essa dinâmica levanta um “sinal amarelo” para o agronegócio brasileiro devido ao esforço da China em buscar maior autossuficiência alimentar e a redução das compras de produtos nos quais o Brasil conquistou uma participação expressiva. O empresário acredita que a China tem potencial para se tornar autossuficiente na produção de aves e suínos, sendo que as importações representam uma fração relativamente pequena de seu consumo. A limitação se dá pela oferta de proteína vegetal necessária para a alimentação dos animais.
“Para fazer a proteína animal, eles vão precisar da proteína vegetal. E é aí que está onde o Brasil está pendurado nesse negócio,” disse Maggi.
Soja Ainda Limita Autonomia Chinesa
Ainda que Pequim busque reduzir sua dependência de fornecedores externos, Maggi vê como difícil a possibilidade de a China alcançar a autossuficiência em soja. Para isso, o país precisaria destinar terras usadas por outras culturas para cultivar um grão que está disponível no mercado internacional a preços relativamente competitivos. “Hoje eles têm condições de fazer isso? Não, não têm. Teriam que substituir terras que estão produzindo alguma coisa para voltar a produzir soja, que é uma mercadoria encontrada no mundo de forma relativamente barata,” explicou.
Na avaliação do “Rei da Soja”, os chineses tentarão aumentar sua produção interna, mas enfrentarão restrições, tanto de natureza física quanto econômica. Essas limitações preservam uma oportunidade para o Brasil, desde que o país mantenha relações comerciais confiáveis e busque abrir novos destinos para suas exportações.
“Não duvido que o chinês vá fazer, mas tem coisas que ele não pode fazer. O tempo não dará a ele essa oportunidade. E é aí que mora a oportunidade do Brasil,” ressaltou Maggi. Apesar desse cenário favorável, ele defendeu que o agronegócio brasileiro não deve depender excessivamente de um único comprador. A abertura de novos mercados é um processo que deve ser contínuo, exigindo o cumprimento de normas sanitárias, ambientais e comerciais cada vez mais rigorosas.
Barreiras e Protecionismo
O ex-ministro também trouxe à tona o fato de que alguns países utilizam exigências sanitárias e ambientais como barreiras comerciais disfarçadas, buscando proteger seus próprios produtores. Maggi citou as restrições que a Europa impõe à carne de frango brasileira, além das dificuldades que o Brasil enfrenta para habilitar seus produtos em mercados como o Japão e a Coreia do Sul.
“As coisas são impostas a nós, às vezes travestidas. Dizem que temos que atender a determinada exigência porque sabem que será difícil cumprir. Portanto, cria-se uma barreira de entrada,” afirmou. Na perspectiva do empresário, enfrentar essas barreiras demanda uma atuação colaborativa entre empresas, associações, federações, o Ministério das Relações Exteriores e os adidos agrícolas.
“O que nos garantiu chegar até aqui não é o que vai nos levar para a frente, ou poderá não ser. Nós vamos estar no jogo no futuro se atendermos às regras e exigências do futuro, sejam elas sanitárias, ambientais ou comerciais,” complementou Maggi.
Quando questionado pelo jornalista William Waack, que atuou como moderador do painel, sobre sua opinião a respeito do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Maggi descreveu o líder norte-americano como “doidão”, expressando que o considera uma pessoa bastante previsível.
Quem é o “Rei da Soja”?
Engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal do Paraná, Blairo Maggi teve um papel significativo na expansão dos negócios familiares que deram origem à empresa Amaggi. A empresa atua na produção agrícola, comercialização e processamento de commodities, além de logística e energia. O crescimento da família Maggi na cultura da soja, especialmente durante as décadas de 1990 e 2000, fez com que Blairo fosse reconhecido como o “Rei da Soja”.
Seu percurso político começou como suplente no Senado, e em 2002 foi eleito governador do estado de Mato Grosso, cargo que ocupou novamente após reeleição em 2006. Ele deixou o governo em março de 2010 para concorrer ao Senado, onde foi eleito. Maggi se licenciou de seu mandato em maio de 2016 para assumir o Ministério da Agricultura no governo Michel Temer, permanecendo à frente da pasta até o fim do mandato em 2018.
No cargo de ministro, Maggi concentrou suas ações na abertura e ampliação de mercados para os produtos agropecuários brasileiros, realizando várias missões internacionais. Ao final de seu mandato, afastou-se da vida pública e retornou sua atuação ao setor privado.
Fonte: www.moneytimes.com.br
