Brasil em dívida: Descubra em 6 gráficos como governo, empresas e famílias atingem índices recordes de endividamento.

Brasil em dívida: Descubra em 6 gráficos como governo, empresas e famílias atingem índices recordes de endividamento.

by Editoria Bolsa e Mercado
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Habib’s, Casas Bahia, Tok&Stok: Motivos da Recuperação Judicial

BRASÍLIA – O crescimento acelerado das dívidas não é uma realidade que aflige apenas o governo federal. Nas últimas semanas, diversos indicadores têm evidenciado recordes no endividamento e na inadimplência de famílias e empresas, abrangendo os mais variados tamanhos e setores da economia brasileira.

Desconfiança em Relação à Dívida Pública

A desconfiança em relação à dívida pública – que em junho atingiu 81,93% do PIB – levou o Tesouro Nacional a alterar o Plano Anual de Financiamento (PAF). O objetivo dessa mudança é ampliar a proporção de títulos atrelados à Selic dentro da dívida pública, dado que os investidores estão evitando comprar papéis prefixados e indexados à inflação, mesmo com a promessa de ganhos reais na ordem de 8% ao ano.

Inadimplência e Recuperação Judicial no Setor Privado

Imagem do Ministério da Fazenda
Ministério da Fazenda destaca ações para mitigar o endividamento das famílias, que apresentam efeitos tanto imediatos quanto de longo prazo por meio de programas de negociação de dívidas e isenção do IR. Foto: Wilton Junior/Estadão

Recentemente, uma onda de pedidos de recuperação judicial afetou grandes grupos empresariais, como Braskem, Casas Bahia, Habib’s, Marabraz e Alliança Saúde, entre outros que já haviam adotado este mecanismo para se defender da cobrança de credores. Na esfera das pessoas físicas, o Banco Central, na última sexta-feira, 28, informou que a inadimplência do crédito livre, que não conta com subsídios do governo, alcançou 7,8%, marcando o maior nível da série histórica que teve início em março de 2011. No crédito consignado privado, que foi alvo de uma revisão por parte do governo Lula, a taxa atingiu dois dígitos, alcançando 10%, também a primeira vez em toda a série.

Os dados sobre o aumento das dívidas e das contas em atraso também são corroborados por informações da Serasa Experian, da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e da Elos Ayta, que monitoram o desempenho das empresas de capital aberto listadas na Bolsa.

Condições Macroeconômicas e Estruturais

De acordo com Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian, o pano de fundo que propicia essa deterioração do cenário econômico afeta tanto empresas quanto famílias é o ambiente macroeconômico atual.

Ela explica que “hoje, o Brasil enfrenta juros muito elevados, com um prêmio de risco alto. Esse prêmio está associado, entre outros fatores, a incertezas em relação à trajetória fiscal e ao crescimento da dívida pública. Enquanto esse cenário continuar, restará pouco espaço para uma redução significativa do custo do crédito”.

Procurado para comentar, o Ministério da Fazenda informou que a situação é resultado de causas estruturais. A dificuldade de acesso ao crédito com altos custos, em decorrência da proliferação das fintechs, aliada à redução da renda nas famílias, especialmente devido a apostas online, têm contribuído para esse quadro. Em termos de empresas, o ministério ressalta que esse cenário já está em curso desde a pandemia, com um aumento da alavancagem financeira para compensar a perda de fluxo de caixa.

“Para tratar do endividamento das famílias, o governo federal está implementando iniciativas que visam efeitos tanto imediatos quanto de longo prazo, tais como programas de negociação de dívidas e a isenção do Imposto de Renda”, observa a pasta (leia a íntegra abaixo).

Estatísticas de Inadimplência

Conforme um levantamento realizado pela Serasa Experian, em junho, 9,1 milhões de empresas no Brasil estavam inadimplentes, com dívidas em atraso que totalizaram R$ 232,9 bilhões. Em média, cada empresa inadimplente acumulou 7,3 contas em atraso, resultando em uma dívida média de R$ 25.508,96 por CNPJ e um tíquete médio de R$ 3.515,77.

Camila explica que existe uma ligação direta entre a situação de endividamento das pessoas físicas e das jurídicas: “Quando as famílias perdem capacidade de consumo, a receita das empresas desacelera. E quando as empresas enfrentam dificuldades financeiras, isso impacta no emprego, renda e no consumo geral”.

Camila faz um alerta: os números retratam uma deterioração, mesmo em um contexto onde o mercado de trabalho está aquecido e as taxas de desemprego estão em níveis reduzidos. Na última quinta-feira, 27, o IBGE anunciou que a taxa de desocupação caiu para 5,3% no trimestre encerrado em julho.

“Se já estamos identificando inadimplência recorde em um quadro de mercado de trabalho aquecido, a piora da economia poderá provocar danos ainda maiores a essas estatísticas, impactando as condições financeiras das famílias brasileiras”, ressalta.

Cenário Vicioso e Expectativas Futuras

Nicolas Tingas, economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), observa um ciclo vicioso que envolve tanto empresas quanto famílias. Segundo ele, as empresas enfrentam perda de faturamento devido ao endividamento das famílias, a inflação alta, o aumento de impostos e a elevação dos custos da mão de obra. Isso leva a um incremento da necessidade de endividamento, especialmente para capital de giro, enquanto as empresas enfrentam um crédito mais escasso, tornando a situação ainda mais complicada.

Ele acredita que esse ciclo só poderá ser interrompido após as eleições, se o governo eleito sinalizar um ajuste fiscal que traga previsibilidade para a dívida pública, permitindo ao Banco Central reduzir as taxas de juros de forma mais acelerada. “Se o Banco Central puder acelerar a diminuição da Selic, isso ajudará bastante, mas as condições atuais não permitem. A melhor expectativa é continuar com cortes de 0,25 ponto percentual. Ademais, o resultado das eleições americanas também pode ser crucial, tendo impactos no dólar. No Brasil, tudo depende do que for sinalizado em termos fiscais”, diz.

Os dados da CNC mostram que o porcentual de famílias endividadas atingiu 82% em julho, estabelecendo também um novo recorde, já que esta série teve início em janeiro de 2010. “Nos últimos seis meses, a nossa pesquisa indicou cinco recordes no nível de endividamento”, declarou o economista-chefe da CNC, Fábio Bentes, ao comentar os resultados da pesquisa.

Endividamento no Mercado de Capitais

No setor de capitais, o panorama é semelhante, conforme levantamento realizado por Einar Rivero, sócio fundador da Elos Ayta. As 286 empresas não financeiras listadas na Bolsa brasileira observaram um aumento em seu endividamento líquido (após descontar recursos disponíveis em caixa), que saltou de R$ 719 bilhões, em 2020, para R$ 1,359 trilhão em julho de 2026, representando uma alta de 88%. Esses números não incluem os dados da Petrobras, cuja magnitude pode distorcer a análise da amostra.

Rafael Dadoorian, sócio da Convexa Investimentos, que analisou esses dados, considerou o crescimento da dívida “perigoso”, despertando a atenção dos investidores. “O endividamento das companhias abertas brasileiras tomou um novo patamar nos últimos anos, passando a ser um foco central de atenção para investidores, credores e para a economia real”, afirmou.

Ele também destacou o aumento das dívidas de curto prazo, que evidenciam a deterioração do mercado de crédito e o aperto monetário imposto pelo Banco Central. “Outro ponto relevante é o crescimento acelerado das dívidas de curto prazo que já alcançaram seu nível mais alto da série, passando de R$ 289 bilhões em 2025 para R$ 339 bilhões em junho de 2026. Essa alta de R$ 50 bilhões aconteceu em apenas seis meses. Desde 2020, o estoque dobraram, passando de R$ 179 bilhões para o nível atual.

O que diz o Ministério da Fazenda

A elevada taxa de endividamento das famílias brasileiras não pode ser analisada sem considerar fatores estruturais, como a ampla facilidade de acesso a crédito com produtos de elevado custo, resultante do crescimento não regulado de fintechs, especialmente entre as famílias de baixa renda. Além disso, as apostas online também têm um impacto que não pode ser subestimado na análise do cenário atual.

Além das causas estruturais, as novas dinâmicas tecnológicas proporcionam aos indivíduos um acesso a crédito em uma velocidade antes impensável. Para tratar do problema do endividamento familiar, o governo federal está tomando medidas que terão impactos tanto imediatos quanto de longo prazo, como programas de negociação de dívidas e a isenção do Imposto de Renda.

No que diz respeito às empresas, este cenário vem se arrastando desde o período pós-pandemia, quando muitas organizações se alavancaram excessivamente, enfrentando dificuldades financeiras para manter um fluxo de caixa saudável. Esses fenômenos fazem parte dos ciclos econômicos e dos ciclos de restrições na política monetária.

Referente ao endividamento do governo, é importante ressaltar que o país convive com uma década de déficits primários, que foram substancialmente reduzidos nos últimos anos, resultado em alguns dos melhores desempenhos dessa década.

Cabe notar, no entanto, que a elevação das taxas de juros em nível global impacta o mercado interno. Este, somado a choques de preços relacionados a guerras e crises climáticas, pressiona as taxas de juros internas e aumenta o custo de financiamento da dívida. A partir de 2027, com a recuperação dos superávits primários e a queda das taxas de juros curtas e longas, a dinâmica de crescimento da dívida deverá começar a perder força.

Fonte: www.estadao.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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