Brasil se destaca como garantidor alimentar, mas a dependência de insumos coloca em risco as margens.

Brasil se destaca como garantidor alimentar, mas a dependência de insumos coloca em risco as margens.

by Editoria Bolsa e Mercado
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Mercado Global de Alimentos

O mercado global de alimentos passou a incluir um prêmio de risco significativo em suas cotações, em função da combinação de eventos climáticos extremos, tensões geopolíticas e interrupções logísticas.

Dados divulgados pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) revelaram que o Índice de Preços de Alimentos atingiu 133,3 pontos em agosto, registrando um aumento de 1,9% em relação a julho. Essa movimentação ocorre paralelamente a alertas do Centro de Previsão Climática (CPC) da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA), que indicam uma probabilidade superior a 90% de que um El Niño de forte intensidade se consolide nos últimos meses do ano.

Mesmo em um cenário de volatilidade, o Brasil se destaca por sua capacidade produtiva. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que a safra brasileira de grãos chegará a 361,7 milhões de toneladas.

Em um contexto semelhante, informações do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que as exportações do agronegócio brasileiro somaram US$ 57,85 bilhões entre janeiro e agosto, o que representa um crescimento de 9,45% em comparação ao mesmo período de 2025.

Para o setor agrícola, o grande desafio consiste em transformar essa posição de liderança produtiva em uma vantagem estratégica duradoura, considerando que a dependência de cerca de 85% de fertilizantes importados ainda se apresenta como um limitador a longo prazo.

Dimensão do Agronegócio Brasileiro

A importância do agronegócio brasileiro no contexto internacional transcende as flutuações temporárias do clima em países concorrentes. O Brasil se destaca como líder mundial na produção e exportação de soja, açúcar, café, suco de laranja e carne bovina.

Em entrevista ao Broadcast Agro, um sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, a Consultoria Agro do Itaú BBA analisou que essa posição de destaque é resultado de um processo estrutural, caracterizado por ganhos contínuos de produtividade, a consolidação da segunda safra, adaptações genéticas ao clima tropical e a integração entre a lavoura e a pecuária.

De acordo com a análise, “um evento climático em outros lugares do mundo pode, eventualmente, influenciar os preços e antecipar embarques em um dado momento, mas isso não explica extentes como os que presenciamos. Nessas ocasiões, torna-se evidente um fato já existente: quando há escassez de oferta em alguma parte do planeta, é em direção ao Brasil que a demanda se volta. O país já atua como uma espécie de fiador da segurança alimentar global”.

Jogo Geopolítico

Apesar do domínio brasileiro na oferta de oleaginosas, relatórios do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) indicam que a China manteve compras significativas de soja dos Estados Unidos durante as últimas semanas de agosto, enquanto simultaneamente avançavam os embarques dos portos brasileiros.

Esse movimento levanta discussões sobre a intenção de Pequim em diversificar seus fornecedores, optando por pagar um prêmio para evitar a concentração de compras em uma única fonte.

Segundo a análise do Itaú BBA, o comportamento das tradings estatais chinesas evidencia uma busca por segurança estratégica em períodos de entressafra na América do Sul, em vez de indicar alguma perda de competitividade da produção nacional.

O Itaú BBA aponta: “A China aprendeu ao longo dos últimos anos que depender de um único fornecedor pode ser oneroso, e esse custo se torna evidente em momentos de restrição no mercado. Assim, o país tem mantido suas opções abertas: compra do Brasil quando a safra nacional está fluindo e retorna aos EUA durante a entressafra sul-americana, que é exatamente a fase em que nos encontramos agora”.

A consultoria constata que a maior parte das aquisições nos EUA tem sido realizada por empresas estatais, dentro do contexto de acordos comerciais, e não por esmagadoras privadas, que continuam sendo afetadas por uma tarifa adicional de 10% sobre produtos norte-americanos. “Isso demonstra que, em situações onde a decisão é puramente econômica, a China ainda preferiria a origem de menor custo”.

O analista de commodities da Agrinvest Commodities, Samuel Mertens, complementa que os volumes adicionais destinados ao mercado norte-americano têm um caráter institucionalizado e estratégico. “Este acordo parece ter uma natureza muito mais geopolítica e comercial, ao invés de fundamentalmente estratégica para a soja, considerando que, ao longo da última década, a China tem se esforçado para reduzir sua dependência em relação à soja americana”.

Exposição aos Custos

Embora o lado das exportações mostre robustez, a estrutura de custos no campo permanece suscetível a variações de insumos importados. O Brasil é responsável por cerca de 8% da produção mundial de fertilizantes e importa aproximadamente 85% dessa demanda, o que implica uma transferência para as lavouras de soja e milho dos efeitos das flutuações das cotações internacionais e das oscilações das moedas estrangeiras.

Conforme explicado pelo Itaú BBA, essa dependência provoca uma dupla exposição direta à rentabilidade dos produtores rurais.

A instituição especifica que “a exposição é significativa, por meio de dois canais simultâneos: o preço internacional do insumo e a variação cambial. Quando o dólar se valoriza, o custo do adubo aumenta em reais, mesmo que as cotações internacionais permaneçam estáveis. Essa dupla exposição é algo que o produtor não consegue neutralizar apenas por meio de manejos. Um bom indicativo dessa situação é a relação de troca. Em 2026, essa relação se deteriorou amplamente: para a soja, a tonelada de MAP (Fosfato Monoamônico) passou de cerca de 25 a 30 sacas em 2025 para 30 a 35 sacas; para o milho, o mesmo volume passou de 40 a 50 para 50 a 60 sacas. Isso significa uma diminuição direta no poder de compra do produtor”, afirmam os analistas do Itaú BBA.

O mercado de insumos apresenta ainda especificidades sazonais que variam entre diferentes culturas. O analista de inteligência de mercado da StoneX, Tomás Pernias, observa que a janela de compras para a safra principal de soja está praticamente encerrada, direcionando a atenção para a adubação do milho da segunda safra.

Pernias acrescenta: “À medida que a data de plantio da soja se aproxima, a janela de importação para os fertilizantes utilizados nesse cultivo está quase se fechando. Quanto ao milho, ainda estamos no período de alta no consumo de reposição e reabastecimento dos estoques de fertilizantes nitrogenados no Brasil. Considerando que a safrinha ocorrerá no próximo ano, é no segundo semestre que as importações de nitrogenados normalmente tendem a aumentar. Contudo, um agravamento de conflitos no Oriente Médio, o aumento no petróleo e custos maiores com gás natural podem impactar, de forma adversa, o custo dos insumos para a safrinha”, pondera.

Agroexportação e Abastecimento Interno

Paralelamente ao crescimento do faturamento com commodities de exportação, as lavouras focadas principalmente no consumo interno, como arroz e feijão, apresentam uma redução na área cultivada em regiões tradicionais.

O analista Mertens sugere que esse movimento não deve ser interpretado como um conflito direto entre as cadeias agrícolas, mas sim como uma resposta econômica a respeito da rentabilidade do capital.

Ele afirma: “Não encaro esse movimento como uma disputa entre um Brasil voltado para a agroexportação e outro focado no mercado interno. Trata-se, essencialmente, da alocação racional de terra e capital: o produtor direciona investimentos para as culturas que oferecem maior retorno ajustado ao risco. Para manter a oferta de arroz e feijão, a solução não é forçar o produtor a cultuá-las, mas sim garantir que essas culturas sejam economicamente competitivas”.

A consolidação do Brasil como um pilar da segurança alimentar global reflete os ganhos tecnológicos e de escala que foram acumulados ao longo de diversas décadas. No entanto, a continuidade do crescimento das safras e a manutenção das margens financeiras dos produtores rurais permanecem condicionadas à capacidade do país de gerir os custos de produção em meio à volatilidade dos insumos internacionais, equilibrando a expansão das vendas externas com o abastecimento interno.

Fonte: www.moneytimes.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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