O que deu errado com o bitcoin? Cripto perde metade do valor após máxima histórica
Principal moeda digital do mundo enfrenta dúvidas sobre seu papel como reserva de valor, mas analistas ainda enxergam recuperação.
O Brasil ocupa a primeira posição global em adoção de criptomoedas, conforme o relatório “Geography of Cryptocurrency Report 2026”, publicado pela Chainalysis, uma plataforma de dados de blockchain, na quarta-feira (23). Entre 1º de julho de 2025 e 30 de junho de 2026, a economia cripto brasileira movimentou expressivos US$ 252,5 bilhões.
Classificação global
Na classificação geral, o país superou os Estados Unidos e a Nigéria, que ocupam a segunda e terceira colocação, respectivamente. Para medir os mercados de criptoativos, o estudo considerou quatro fatores: fluxos totais de serviços, economia peer-to-peer, fluxos transfronteiriços e saldos. Os fluxos totais de serviços referem-se aos valores recebidos por corretoras centralizadas e outros serviços relacionados a criptomoedas. A economia peer-to-peer diz respeito aos valores movimentados diretamente entre carteiras pessoais dentro do mesmo país. Fluxos transfronteiriços representam os valores que atravessam fronteiras nacionais, enquanto saldos referem-se aos ativos mantidos no período, combinando carteiras pessoais geolocalizáveis com os saldos mantidos em plataformas.
Para cada uma das quatro medidas, a Chainalysis classifica os países em uma escala comum de 0 a 1, atribuindo 0 ao país com a menor classificação e 1 ao país com a maior. O Brasil se destacou entre os quatro países com a maior nota em todos os fatores acompanhados pelo índice: obteve o segundo lugar em fluxos transfronteiriços, o terceiro em fluxos totais de serviços, o terceiro na economia doméstica peer-to-peer e o quarto em saldos.
Participação no mercado latino-americano
Na América Latina, o mercado cripto brasileiro cresceu significativamente. Em 2022, o Brasil respondia por 31,6% do valor movimentado em criptomoedas na região, participação que aumentou para 43,7% no cenário atual, representando quase metade do total. A liderança se manteve mesmo com uma retração de 1,6% na economia cripto brasileira em relação ao ano anterior. Entretanto, a perspectiva a longo prazo revela que o mercado local cresceu 179,4% entre os períodos reportados de 2024 a 2026.
O setor tem se tornado mais concentrado em plataformas domésticas, com um aumento na participação dessas empresas nos fluxos destinados a corretoras no Brasil, saltando de 1,5% para 12,5%. Esse movimento se contrapõe ao que foi observado no restante da América Latina, onde plataformas locais perderam espaço para concorrentes internacionais.
Avanço regulatório
O relatório atribui essa nova dinâmica ao avanço regulatório do mercado cripto no Brasil. O Banco Central introduziu exigências para os Prestadores de Serviços de Ativos Virtuais (PSAVs), abordando aspectos de governança, gestão de risco e definições de capital mínimo. As empresas do setor têm até 30 de outubro deste ano para cumprir as novas regras e protocolar pedidos de autorização para operar como PSAVs.
Essas barreiras regulatórias podem dificultar a atuação de empresas menores. Fabrício Tota, vice-presidente de negócios cripto do Mercado Bitcoin, destaca: “Muitos provedores de pagamentos estão enfrentando dificuldades por causa disso. Nos próximos 12 meses, acredito que veremos muito menos players nativos de cripto aqui no Brasil”.
Por outro lado, Julia Rosin, presidente da Associação Brasileira de Criptoeconomia e LATAM Policy da Coinbase, afirma que as exigências podem aumentar a confiança dos consumidores nas empresas que permanecerem no mercado. “Quando as regras chegam, a confiança vem junto”, afirma.
Crescimento das stablecoins
Outro ponto relevante no Brasil foi o crescimento das stablecoins, que são criptomoedas atreladas a ativos estáveis. O valor da economia brasileira desse tipo de ativo cresceu 495%, superando o aumento de 89,4% verificado no restante da América Latina. Em termos locais, o uso dessas criptomoedas é associado ao mercado corporativo, já que as empresas utilizam stablecoins para melhorar a liquidez e facilitar transferências internacionais. A ampla utilização do Pix, o sistema de pagamento instantâneo brasileiro, faz com que as stablecoins tenham uma menção inferior nos pagamentos diários dos consumidores.
Adicionalmente, o crescimento pode ser observado na forma como esses ativos são mantidos. Desde julho de 2024, o número de carteiras brasileiras com pelo menos US$ 10 mil em stablecoins cresceu 347%, superando o crescimento observado em outros países da região, como o México (91%), Argentina (82%) e Chile (47%).
Economia cripto global recua com queda do bitcoin
Globalmente, a economia cripto movimentou US$ 9,4 trilhões entre 1º de julho de 2025 e 30 de junho de 2026, apresentando uma queda de 1,6% em comparação ao período anterior. O estudo revelou que o período analisado foi marcado por volatilidade, destacando que o bitcoin atingiu uma máxima histórica em outubro de 2025, mas perdeu US$ 67 mil entre o pico e a mínima do intervalo.
Durante os meses analisados, os fluxos de pequeno valor cresceram. As transferências inferiores a US$ 100 aumentaram 78,4%, enquanto as transferências entre US$ 100 e US$ 1.000 subiram 58,6%. Essa participação do varejo representa apenas uma pequena fração da atividade econômica de 2026, somando US$ 273 bilhões de quase US$ 10 trilhões em atividade. Contudo, o relatório indica que os usuários de varejo mantiveram suas atividades mesmo durante o mercado em baixa.
As transferências de valor institucional também se mostraram relativamente resilientes em meio à queda nos preços do bitcoin, com uma queda de apenas 7,2% registrada nas transferências de US$ 1 milhão ou mais em comparação ao período anterior.
Mercado cripto da América Latina cresce quase 10%
A América Latina se posicionou como a sexta maior economia cripto do mundo, com US$ 593,8 bilhões em atividade e crescimento de 9,8% em um ano. O estudo aponta que fatores como inflação persistente e volatilidade cambial na região têm levado tanto famílias quanto empresas a buscar alternativas às moedas locais, recorrendo, assim, às criptomoedas.
Carlos Peralta, especialista sênior em políticas públicas da Bitso, enfatiza: “Aqui na América Latina, toda essa adoção é motivada pela necessidade. Não é simplesmente uma adoção por adoção”.
Apesar de o Brasil ser o líder mundial na adoção de criptomoedas e ter uma participação dominante na atividade econômica regional, o país não foi o responsável principal pelo crescimento do mercado cripto da América Latina no período de 2026. As economias cripto do México, Argentina e Colômbia se destacaram por seus crescimentos anuais, com aumentos de 25,5%, 15,3% e 13,8%, respectivamente.
Destaca-se também a situação da Venezuela, cuja economia cripto movimentou US$ 39,1 bilhões no período analisado, apresentando um aumento de 107,2%. Este avanço foi impulsionado, segundo o estudo, por eventos como a prisão de Nicolás Maduro, em janeiro, que resultou em um aumento da busca por criptoativos atrelados ao dólar, como alternativa ao bolívar.
Fonte: www.estadao.com.br
