Retiradas de recursos dos fundos de ações
O investidor brasileiro tem mantido uma tendência de retirada de recursos dos fundos de ações. De acordo com dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), esses produtos acumulam, até agosto, oito meses consecutivos de resgates, totalizando uma perda de R$ 8,1 bilhões no ano.
Perdas significativas em gestoras renomadas
Diversas gestoras que construíram sua reputação na gestão de ações foram afetadas. A Constellation, liderada por Florian Bartunek, viu seu patrimônio diminuir de R$ 8,3 bilhões para R$ 1,3 bilhão no período mencionado. A Dahlia Capital também registrou uma redução significativa, passando de R$ 12,20 bilhões para R$ 2,8 bilhões.
A gestora Absoluto apresentou uma queda de 73,3%, com seu patrimônio caindo de R$ 14,4 bilhões para R$ 3,8 bilhões. Por sua vez, a IP Gestão de Recursos teve uma redução de 53,1%, passando de R$ 5,1 bilhões para R$ 2,4 bilhões.
O cenário de encolhimento também é evidente na Moat Capital, que viu seu patrimônio reduzir de R$ 7,5 bilhões para R$ 575 milhões durante o mesmo intervalo. Para enfrentar essa realidade, a gestora optou por uma estrutura menor e mais especializada, reduzindo sua equipe de 24 para nove pessoas. Ao mesmo tempo, a Moat ampliou sua atuação em investimentos internacionais e integrou inteligência artificial e ciência de dados aos processos de gestão.
A estratégia adotada pela Moat é focar em buscar eficiência com uma estrutura mais enxuta, sem tentar competir em diversas classes de ativos. Luiz Paulo Aranha, da Moat Capital, afirmou que a indústria provavelmente não retornará ao tamanho que tinha anteriormente, mesmo com a queda nas taxas de juros, e que a competição será maior entre diferentes classes de ativos.
Motivos para a retirada de recursos dos fundos de ações
Mudança na relação entre risco e retorno
Um dos principais fatores que levaram os investidores a se afastarem dos fundos de ações foi a mudança na relação entre risco e retorno. Com a taxa básica de juros em níveis elevados, os investidores começaram a encontrar alternativas na renda fixa que ofereciam retornos atrativos sem a mesma volatilidade associada aos fundos de ações.
Além dos tradicionais títulos públicos e Certificados de Depósitos Bancários (CDBs), outros instrumentos financeiros ganharam destaque. Debêntures incentivadas, Letras de Crédito Imobiliária (LCIs), Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) se tornaram opções populares, em parte devido à isenção de Imposto de Renda para pessoas físicas.
Alternativas de investimento
Em paralelo, os investidores passaram a contar com mais opções para acessar o mercado de ações sem a necessidade de uma gestão ativa. Os fundos de índice (ETFs), por exemplo, ganharam popularidade, pois oferecem exposição diversificada a índices e costumam ter custos menores em comparação com os fundos tradicionais.
Adicionalmente, ficou mais fácil para os investidores aplicar diretamente no exterior. Dessa forma, uma parte do patrimônio que antes era alocada em gestores brasileiros começou a ser direcionada para ações, ETFs e outros ativos internacionais.
William Eid, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), destacou que as gestoras de médio porte estão sob pressão, enfrentando uma competição acirrada entre grandes bancos e plataformas de investimentos de um lado, e gestoras menores e especializadas do outro.
Fonte: www.estadao.com.br
