Situação Financeira da Braskem
Enquanto o mercado observa a troca pública de cartas entre a Braskem e o comitê de detentores de títulos da empresa, foram divulgados, hoje, os chamados Cleansing Materials do Projeto Catalyst, que foram elaborados para as conversas de reestruturação. Esses materiais indicam que a companhia enfrenta um desafio significativo com vencimentos nos próximos meses e que, em um cenário sem reestruturação, o caixa livre da Braskem pode entrar em um terreno profundamente negativo antes mesmo do vencimento do bond de 2028.
Vencimentos e Caixa Livre
A situação financeira é alarmante. Em abril de 2026, a Braskem possuía um saldo de caixa disponível de US$ 911 milhões. No entanto, entre julho de 2026 e dezembro de 2027, a dívida prevista que precisa ser atendida soma US$ 3,686 bilhões. O aperto financeiro mais agudo está previsto para janeiro de 2028, quando a projeção sugere que o caixa livre ficará negativo em US$ 3,248 bilhões, considerando a manutenção das condições atuais da dívida.
Proposta de Reestruturação
Esse déficit significativo ajuda a entender a urgência da Braskem em buscar uma solução judicial, além de tentar adiar os prazos de vencimento. A proposta apresentada aos credores sugere a implementação de uma recuperação extrajudicial, com o objetivo de estender os vencimentos por cinco anos, adicionar a possibilidade de pagamento de juros em PIK entre julho de 2026 e dezembro de 2028 e reduzir em 200 pontos-base as taxas aplicáveis aos instrumentos financeiros. No plano apresentado pela empresa, não estão previstos cortes de principal ou conversão de dívida em ações.
O Projeto Transforma Rio
Um aspecto menos evidente do material, no entanto, está além da engenharia financeira. A perspectiva operacional projetada pela Braskem dependerá de um investimento industrial: o projeto Transforma Rio. De acordo com os documentos fornecidos, a capacidade instalada atual no Brasil, Estados Unidos e Europa será mantida até 2029. Esse é o ano em que o projeto deverá entrar em funcionamento, acrescentando 220 mil toneladas por ano de capacidade incremental de etileno.
Investimentos e Projeções
O plano também contempla cerca de US$ 900 milhões em capex estratégico entre 2026 e 2030, com a maior parte desse valor relacionada ao Transforma Rio. Na prática, a reestruturação busca comprar tempo para que a companhia consiga atravessar momentos difíceis de liquidez, até que os investimentos na área industrial comecem a se refletir positivamente nos resultados financeiros. As projeções indicam que a receita líquida deverá passar de US$ 14,4 bilhões em 2028 para US$ 20,7 bilhões em 2035. O Ebitda, no mesmo período, deverá aumentar de US$ 1,5 bilhão para US$ 3 bilhões.
Riscos Envolvidos
Os riscos dessa estratégia são evidentes: se o projeto sofrer atrasos, a recuperação financeira da Braskem poderá ficar comprometida. A empresa não está apenas buscando um alívio temporário dos credores, mas está apostando que o ciclo de investimentos será capaz de restaurar volumes, margens e geração de caixa a partir de 2029.
Estrutura da Dívida
Além disso, há um detalhe importante na estrutura da dívida que não deve ser ignorado. Embora o foco do mercado esteja nos bonds globais, uma parte relevante do risco de curto prazo está associada a linhas de capital de giro ligadas à Braskem Trading & Shipping B.V., uma subsidiária localizada na Holanda. Os documentos citam US$ 402 milhões em aberto na Committed Facility IV e US$ 392 milhões na Committed Facility V, ambas com garantia integral da Braskem S.A.
Esse ponto também ajuda a explicar por que a crise da Braskem não se limita apenas aos títulos negociados no mercado. O problema também abrange linhas bancárias vinculadas ao comércio exterior e cartas de crédito, que têm o potencial de pressionar a liquidez da empresa e afetar outras obrigações financeiras.
Negociações com Credores
Do lado dos credores, os documentos indicam uma tentativa de impor restrições severas à empresa durante as negociações. A contraproposta apresentada pelo comitê sugeria restrições a transações fora do curso normal dos negócios, o que incluiria novas dívidas, garantias, transferências de ativos, dividendos e operações com partes relacionadas sem a autorização dos credores.
Na prática, essas restrições funcionariam como um cinto de segurança — ou como um tipo de controle financeiro — sobre a Braskem. O intuito é evitar que o alívio concedido pelos investidores seja utilizado para qualquer outra finalidade que não seja a preservação do caixa e a negociação da dívida.
Resposta da Braskem
A Braskem, por sua vez, rejeitou essa contraproposta, considerou-a inaceitável e afirmou que ela vai contra os interesses da companhia e de todos os seus stakeholders. De acordo com os materiais da empresa, a Braskem está comprometida em buscar uma solução consensual, estruturada e ordenada para sua estrutura de capital.
O Impasse Atual
O impasse existente vai além da mera disputa entre a empresa e os detentores de títulos. Os documentos revelam uma Braskem pressionada por vencimentos de curto prazo, que depende de uma janela judicial para proteção e que está ancorada em uma aposta industrial cuja entrega de resultados ocorrerá apenas no final da década. Diante desse cenário, persiste uma pergunta crítica que ainda não encontrou resposta no mercado: o projeto Transforma Rio será capaz de cumprir seus prazos para salvar a viabilidade financeira da empresa?
Fonte: veja.abril.com.br
