Capex e depreciação se igualam nas empresas brasileiras

Capex e depreciação se igualam nas empresas brasileiras

by Editoria Bolsa e Mercado
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Relação entre Capex e Depreciação das Empresas Brasileiras

Uma empresa pode continuar a investir bilhões de reais e, mesmo assim, apresentar sinais de que o ritmo de renovação e ampliação de seus ativos está perdendo força. Para identificar essa mudança, não é suficiente observar apenas o valor gasto em um determinado ano; é fundamental compará-lo a uma referência que ajude a compreender a magnitude dos investimentos dentro da própria empresa.

A comparação com o início do levantamento ilustra bem essa mudança. Em 2010, a mediana brasileira era de 217,4%. Isso significa que o Capex da empresa posicionada no meio da amostra equivalia a mais do que o dobro de sua depreciação e amortização. Em junho de 2026, as duas grandezas estavam quase empatadas.

O resultado obtido não indica que o investimento em valores absolutos tenha diminuído pela metade. A diminuição refere-se à relação entre o Capex e a depreciação e amortização, e essa distinção é crucial para interpretar corretamente o estudo apresentado.

O que o Indicador Revela

O termo Capex refere-se ao dinheiro aplicado em ativos que servirão à empresa por vários anos. Esses investimentos podem financiar a construção de uma nova unidade, a aquisição de máquinas, a modernização de equipamentos ou a implementação de sistemas específicos. Por outro lado, depreciação e amortização são despesas contabilísticas que reconhecem gradualmente o consumo ou a utilização de ativos tangíveis e intangíveis.

Por exemplo, considere uma companhia que registra R$ 100 milhões em depreciação e amortização ao longo de um período de 12 meses. Se seu Capex no mesmo intervalo foi de R$ 150 milhões, a relação resultante será de 150%. Caso o Capex tenha sido de R$ 90 milhões, a relação será de 90%.

Este cálculo proporciona uma maneira simples de monitorar o ritmo relativo de reinvestimento. Contudo, por si só, não informa se a empresa está crescendo, se investiu o suficiente ou se optou por projetos adequados. Um equipamento adquirido hoje pode ter um custo superior ao daquele adquirido anos atrás, sobre o qual a depreciação ainda se aplica. Além disso, o Capex não abrange todas as formas pelas quais uma empresa pode investir em seu futuro.

Assim, 100% deve ser visto como uma referência de leitura, e não como um veredito conclusivo. O foco do levantamento reside principalmente na trajetória: o indicador se mantém elevado durante muitos anos? Cai apenas durante uma crise? Volta a aumentar? Esse mesmo comportamento se observa em empresas de diferentes segmentos da Bolsa?

Da Distância Expressiva à Quase Convergência

No início da série, as medianas brasileira e americana estavam bastante distantes. Em 2010, a relação entre Capex, depreciação e amortização era de 217,4% no Brasil e 137,8% nos Estados Unidos. No ano seguinte, em 2011, a mediana brasileira subiu para 239,4%, atingindo o maior valor registrado na série.

Nos anos posteriores, observou-se um recuo no indicador brasileiro. Em 2016, ele estava próximo de 100%. Embora tenham ocorrido oscilações e algumas recuperações em momentos específicos, não houve um retorno aos níveis elevados do início da década. Em 2020, a mediana atingiu 94,0%; no ano subsequente, subiu para 165,3%.

Esse aumento pós-2020 também foi observado nos Estados Unidos, onde a relação do indicador passou de 85,3% para 129,4% entre 2020 e 2021. Essa coincidência sugere que fatores como a pandemia e a subsequente recuperação das atividades são contextos relevantes que demandam investigação. No entanto, os gráficos não permitem discriminar o quanto das mudanças foi resultado de projetos adiados, novos investimentos, alterações nas depreciações e amortizações, ou mudanças nas empresas que compõem as amostras.

Após a recuperação observada em 2021, as trajetórias novamente perderam força. Em junho de 2026, a mediana estava em 101,2% no Brasil e 95,3% nos Estados Unidos. A distância, que era de 79,6 pontos percentuais em 2010, havia reduzido para 5,9 pontos.

Essa aproximação é uma das descobertas principais do estudo, porém não indica que os dois países estejam investindo volumes equivalentes ou tenham a mesma capacidade de expansão. Ela demonstra que, em relação à depreciação e amortização contabilizadas por suas empresas, as medianas dos dois mercados terminaram o período em níveis bastante próximos.

Outro ponto relevante é que a mediana americana permaneceu abaixo de 100% nos últimos anos retratados, enquanto a brasileira esteve ligeiramente acima desse patamar em 2025 e junho de 2026. A comparação internacional deve considerar que Brasil e Estados Unidos possuem composições setoriais distintas. Empresas de tecnologia, indústria, energia e serviços têm diferentes dependências de ativos e registram depreciação e amortização de formas diversas.

O Que Acontece Dentro da Bolsa Brasileira

A série trimestral disponibilizada pela Elos Ayta revela informações que vão além da comparação entre países. Para cada fechamento de trimestre, o estudo coleta o Capex acumulado nos 12 meses anteriores, divindo-o pela depreciação e amortização dos mesmos 12 meses. A partir disso, calcula a mediana das empresas que cumprem os critérios em três universos: B3, Ibovespa e índice Small Cap.

Essa janela móvel facilita a análise, evitando que a interpretação dependa exclusivamente de um trimestre em que uma empresa tenha realizado um desembolso excepcional. Além disso, permite o acompanhamento de alterações entre os fechamentos anuais.

As curvas do estudo mostram que não houve uma trajetória uniforme. Após os níveis mais baixos verificados em 2020, os três grupos demonstraram forte recuperação entre 2021 e 2022. A mediana do Ibovespa, por exemplo, alcançou 187,9% em setembro de 2022. A partir desse ponto, observou-se uma desaceleração nos indicadores, embora em ritmos diversos.

O contraste mais recente se revela entre o Ibovespa e as Small Caps. Em junho de 2025, a mediana era de 119,6% nas empresas do Ibovespa, enquanto que nas Small Caps apresentava-se em 84,8%. Um ano depois, os resultados foram de 117,86% e 97,77%, respectivamente. A diferença diminuiu, mas a companhia típica do Ibovespa ainda mostrava um Capex mais elevado em relação à sua depreciação e amortização.

No conjunto das empresas que compõem a B3, a mediana de junho de 2026 foi de 101,22%. Este resultado posiciona a Bolsa como um todo próxima da igualdade entre as duas grandezas. Além disso, explica por que a análise baseando-se apenas na média geral pode ocultar diferenças importantes: naquele mesmo momento, o Ibovespa superava a mediana da B3, enquanto as Small Caps se situavam abaixo dessa média.

Essa divisão suscita uma pergunta para a análise financeira: as empresas de menor capitalização têm acompanhado as companhias do Ibovespa quando o ritmo relativo de reinvestimento altera-se? A análise gráfica sugere respostas variáveis conforme o período considerado. Em algumas fases da série, as Small Caps estavam acima; entretanto, nos dados mais recentes, o Ibovespa apresenta um avanço. Portanto, não seria apropriado interpretar a diferença de junho de 2026 como uma característica permanente dos dois grupos.

Adicionalmente, um cuidado metodológico deve ser observado. O levantamento considera os membros de cada índice na data correspondente, e não exclusivamente as empresas que fazem parte das carteiras atualmente. Essa escolha reflete melhor a situação que um observador teria encontrado em cada momento histórico. Como as composições das carteiras mudam, uma parte da variação nas medianas pode originar-se das entradas e saídas de empresas, sem separar esse efeito da mudança no indicador nas que se mantiveram nos índices.

Juros e Governos Ajudam a Formular Perguntas, Não Respostas Automáticas

A série brasileira abrange diferentes governos, com ciclos de alta e queda da Selic, bem como momentos economicamente distintos. Esse período proporciona uma oportunidade para investigar se os períodos de juros mais elevados coincidem com um Capex relativamente mais contido, especialmente entre empresas de menor porte.

Essa hipótese se torna válida como uma pergunta de pesquisa: o custo de financiamento pode influenciar as decisões de investimento, e seu efeito pode variar entre as companhias. No entanto, os gráficos que foram apresentados até o momento não evidenciam que a Selic tem causado as mudanças observadas. Vale lembrar que projetos podem levar anos entre a decisão e o desembolso. Fatores como geração de caixa, demanda, preços de commodities, inflação e características específicas de cada setor também são relevantes.

O mesmo rigor deve ser aplicado ao considerar os mandatos presidenciais. Indicar as transições no gráfico auxilia o leitor a situar-se temporalmente. Contudo, atribuir a um governo determinado resultado de uma mediana exigiria uma investigação aprofundada que considerasse outros fatores que podem ter mudado durante o período em questão.

Na comparação com os Estados Unidos, é importante distinguir a taxa básica de juros, definida pelo Federal Reserve, dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano de longo prazo. Ambas oferecem um contexto, mas representam aspectos diferentes das condições financeiras enfrentadas pelas empresas.

O Sinal que Fica

O levantamento realizado pela Elos Ayta não oferece um diagnóstico definitivo acerca da qualidade dos investimentos realizados pelas companhias. O que ele revela é algo anterior e pertinente: o Capex da empresa típica brasileira, que no início da série ultrapassava amplamente a sua depreciação e amortização, hoje pouco a ultrapassa. Ao mesmo tempo, a mediana do Ibovespa se mantém superior à das Small Caps nos dados mais recentes, e a distância entre Brasil e Estados Unidos diminuiu de maneira significativa.

Esses resultados indicam um ritmo relativo de reinvestimento mais contido e ajudam a localizar onde a mudança se apresenta com maior intensidade. Para determinar se essa mudança reflete um apetite reduzido por novos projetos, investimentos realizados por outras vias, ou uma transformação na composição das empresas, será necessário avançar para uma fase seguinte: cruzar o indicador com Capex em valores reais, receita, ativos, geração de caixa, endividamento e juros.

O valor da série histórica reside em sua precisão ao dirigir a pergunta. Em vez de simplesmente presumir que as empresas estão investindo mais ou menos, ela esclarece como o investimento registrado se comporta em relação à depreciação e amortização, ao longo do tempo e entre os diferentes grupos da Bolsa.

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Fonte: www.estadao.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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