Com conflito à vista, mercado ajusta expectativas para juros antes do Copom.

O Comitê de Política Monetária (Copom) deve dar início, na quarta-feira (18), a um novo ciclo de flexibilização da taxa básica de juros, conhecida como Selic. Às vésperas deste encontro com a alta cúpula do Banco Central (BC), o mercado financeiro mostra uma insegurança crescente, especialmente em relação ao conflito no Oriente Médio, além da própria inflação, que superou as expectativas em fevereiro.

Nos últimos dias, as principais apostas se concentravam em um corte de 0,5 ponto percentual, reduzindo a Selic para 14,5% ao ano. No entanto, o cenário recente mudou, especialmente devido ao aumento dos preços do petróleo decorrente da guerra. O receio de impactos prolongados na região do Estreito de Ormuz, um ponto crucial para o abastecimento global de petróleo e gás, levou a uma moderação nas expectativas e ao surgimento de divisões sobre a magnitude do possível reajuste.

“A inflação no Brasil surpreendeu positivamente, registrando 0,7% em fevereiro em comparação com o mês anterior […]. Enquanto isso, o conflito no Oriente Médio continua a gerar volatilidade e incerteza no mercado”, afirma um relatório do Citi, que revisou sua projeção de corte de 0,5 ponto percentual para 0,25.

Durante a reunião anterior de política monetária, que ocorreu em janeiro, os agentes econômicos foram surpreendidos pela clareza das declarações dos diretores da autoridade monetária, que indicaram a possibilidade de um corte de juros em seu comunicado.

“O Comitê antecipa que, caso o cenário esperado se concretize, iniciará a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião, mas reforça que manterá uma restrição adequada para garantir que a inflação se converta à meta”, informou a autoridade, após definir a Selic em 15% ao ano pela sexta vez consecutiva.

Há 23 semanas, o mercado projetava que o Copom realizaria um corte de 0,5 ponto percentual, conforme indicado pelo boletim Focus, que coleta as expectativas do mercado pelo BC.

O “cenário esperado” estava se consolidando, não fosse a guerra que envolve a maior economia e a principal região produtora de petróleo do mundo.

Reflexos no mercado financeiro do conflito no Oriente Médio

A alta nas cotações do petróleo foi um dos choques imediatos assim que os mercados futuros reabriram após os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã no dia 28 de fevereiro.

Na primeira semana de conflito, o contrato mais liquido do Brent — referência internacional negociada na ICE (International Commodities Exchange) — subiu 27%, atingindo a marca de US$ 92,69.

Inicialmente, o mercado optou por “esperar para ver” como o conflito se desenvolveria antes de fazer ajustes em suas previsões. Porém, os analistas já apontavam que a alta dos preços do petróleo e a volatilidade nos negócios dependeriam do tempo em que o Estreito de Ormuz permaneceria fechado, sendo essa a rota por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo.

Um dos primeiros a recalcular suas expectativas foi o Goldman Sachs. Em um relatório divulgado na quinta-feira (12), intitulado “A dura realidade da febre do barril”, os analistas do banco aumentaram suas previsões para a inflação em 0,3 ponto percentual, para 4,4%, e indicaram que o ciclo de redução dos juros deveria começar com um corte mais cauteloso, de 0,25 ponto percentual.

Dúvida sobre juros

Às vésperas da reunião de política monetária, a aceleração da curva de juros na sexta-feira (13) demonstrou que o mercado retirou de sua precificação as apostas de um corte de 0,50 ponto na Selic, refletindo uma ligeira chance, ainda que minoritária, de que o Banco Central mantenha a taxa em 15% na próxima semana.

Outros indicadores que representam as expectativas do mercado financeiro brasileiro, as opções de Copom da B3, que permitem a negociação de contratos sobre a variação da Selic, mostram que os investidores passaram a favorecer uma aposta majoritária pela redução de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros.

“A mudança no preço do petróleo provavelmente terá um impacto significativo nas previsões de inflação do Comitê de Política Monetária, mesmo considerando hipóteses de mitigação, como o uso da curva futura do petróleo”, destaca um relatório do BNP Paribas, que passou a adotar expectativas para cortes mais cautelosos.

Elaborado pela ex-diretora do BC e economista-chefe para a América Latina, Fernanda Guardado, junto a Mario Castro Martinez, estrategista sênior de Câmbio e Juros para a América Latina do BNP Paribas, a análise ressalta que o BC tomou uma decisão semelhante em 2022, após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, e posteriormente incorporou essa experiência como referência.

Impacto nos modelos

As métricas e fórmulas que o Banco Central utiliza para calcular suas estimativas e tomar decisões são públicas e acessíveis a quem se aprofunda nos relatórios da autoridade monetária.

Ao analisar os chamados “modelos macroeconômicos”, o mercado observa que o impacto do conflito deve ser refletido nas projeções que são analisadas pelo BC.

“Mesmo no cenário mais otimista (com a previsão de petróleo a US$ 74/barril até o final do ano), a previsão do Banco Central para o horizonte relevante sobe 20 pontos-base, desviando da meta e mais do que compensando a valorização de 2,8% do real desde a reunião de política monetária de janeiro”, informa o relatório do BNP.

“É importante ressaltar que o modelo do Banco Central também incorpora suposições mais otimistas sobre o hiato do produto e as taxas neutras em comparação com as que nós e a maioria dos analistas utilizam.”

Na última reunião, o preço do petróleo estava ligeiramente acima de US$ 60. Na sexta-feira, o valor voltou a tocar os US$ 100.

“O preço do petróleo também é considerado nos modelos. Esse aumento é substancial e certamente terá um impacto”, apontou Marcela Kawauti, economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos.

Pressão inflacionária

Apesar de os juros estarem em um “patamar elevado há bastante tempo”, a inflação acumulada em 12 meses ter se ajustado ao teto da meta do Banco Central e a moeda apresentando uma tendência de controle, Kawauti observa que, mesmo sem o agravamento da guerra, já existiam argumentos favoráveis a um corte mais moderado, como a inflação de serviços e a dinâmica do mercado de trabalho e renda aquecidos.

“Com a adição da guerra, que tem um impacto significativo, mais um argumento se junta a favor de um corte de 0,25 ponto, pois ela gera pressão inflacionária”, destaca. Ela ainda menciona que a repercussão da guerra sobre combustíveis e fertilizantes — commodities que o Irã exporta ao Brasil — pode impactar os preços agrícolas e industriais.

Perspectiva

Dependendo da magnitude e da duração do impacto da guerra sobre a inflação, Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter, acredita que o ciclo de afrouxamento da política monetária pode se encerrar antes do que o previsto.

Embora também mantenha a expectativa de um corte de 0,5 ponto, a Warren Rena levanta um ponto que corrobora esse cenário.

“Com base no hiato e na inflação previstos pelo Banco Central e na Pesquisa Focus, o Copom começará o ajuste com um corte de 50 pontos-base na reunião de março, seguido de cortes da mesma magnitude nas reuniões subsequentes, finalizando o ano com a taxa em 12%. Porém, utilizando os números de inflação da Warren Rena, que indicam inflação de 4,30% a 4,50% até 2026, a projeção da Selic no final do ano sobe para 13%. Isso é consistente com um quadro em que o Banco Central teria que interromper os cortes mais cedo”, diz Luis Felipe Vital, chefe de Estratégia Macro e Dívida Pública da instituição.

Vital destaca que o Copom possui “margem de manobra” para realizar ajustes na taxa de juros, uma vez que, se o cenário mudar de forma a exigir a interrupção do ciclo, a Selic seguirá em um patamar elevado e restritivo.

Por fim, Kawauti enfatiza que a expectativa também residirá em como o Copom irá comunicar sua decisão ao mercado, ressaltando que será fundamental apresentar o diagnóstico que a autoridade monetária realiza, não só em relação à guerra, mas também acerca das preocupações necessárias para calibrar os juros, em um cenário ainda incerto.

Fonte: www.cnnbrasil.com.br

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