Quebra do Banco no Irã e Repercussões
A falência de um banco no Irã, que apresenta semelhanças com o caso do Banco Master no Brasil, trouxe o país de volta ao foco das atenções internacionais nas últimas semanas. Essa crise vem acompanhada de uma onda de protestos que se espalhou pelas principais cidades iranianas.
Apesar da escassez de informações sobre a real magnitude da crise — devido a um severo controle de acesso à internet pelo governo — analistas apontam a deterioração econômica como um dos principais fatores de insatisfação popular. A frustração é intensificada por medidas autoritárias, como o bloqueio da rede. Após cerca de 20 dias sem acesso, a internet começou a ser restabelecida no país, porém de maneira gradual e com restrições.
Conforme reportagens da imprensa internacional, há uma forte insatisfação relacionada à inflação crescente, ao alto custo de vida e à desvalorização acentuada da moeda local, o rial iraniano. Nos últimos meses, a divisa perdeu quase 97% de seu valor em relação ao dólar, agravando ainda mais a crise. Esses dados são provenientes do Trading View.
Este problema não é recente. Desde a Revolução Islâmica de 1979, o Irã enfrenta sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos, que se tornaram mais rigorosas ao longo dos anos, afetando setores-chave da economia, como o petróleo, os bancos e o comércio exterior.
Esse isolamento resultou em uma diminuição significativa dos investimentos, restringiu o acesso ao sistema financeiro internacional e aumentou a pressão sobre a moeda e a inflação. Como consequência, o país se encontra em um ciclo prolongado de fragilidade econômica. Um fator que exacerbou essa situação foi a falência do Ayandeh Bank, o “Banco Master do Irã”, ocorrida no final do ano passado.
O Banco Master do Irã
De acordo com uma reportagem do Wall Street Journal, o Ayandeh Bank era controlado por indivíduos próximos ao aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã. Nos últimos anos, essa instituição financeira acumulou uma série de empréstimos malsucedidos, resultando em prejuízos aproximados de US$ 5 bilhões, o que equivale a mais de 5 quadrilhões de riais. Esses fatos levaram o banco à insolvência, reconhecida pelo Banco Central do Irã no final do último ano.
Além disso, o Ayandeh apresentou exposições no cheque especial que somavam 3,13 quadrilhões de riais (cerca de US$ 2,9 bilhões). A taxa de adequação de capital se mostrava negativa em 600%. Este índice revela quanto de capital próprio um banco possui para absorver perdas, em relação aos riscos que ele assume ao conceder crédito e executar outras operações financeiras.
Fundado em 2013 a partir da fusão de várias instituições financeiras menores, o Ayandeh Bank rapidamente impactou o setor bancário do Irã, oferecendo taxas de juros cerca de quatro pontos percentuais superiores às permitidas pelo Conselho de Dinheiro e Crédito, principal órgão regulador da política monetária do país. Essas informações foram divulgadas pelo Iran International, uma publicação britânica dedicada à cobertura do Irã.
Esse modelo atraiu milhões de depositantes e rapidamente expandiu sua participação no mercado. Em 2017, o Ayandeh detinha 7,6% de todos os depósitos no sistema bancário iraniano. No entanto, seu crescimento foi impulsionado por uma rede de empréstimos de alto risco e promessas inflacionadas.
Com o passar do tempo, o cenário mudou drasticamente e, a partir de 2020, começaram a surgir pedidos formais para a liquidação do banco. Naquele momento, as economias de aproximadamente sete milhões de depositantes estavam comprometidas, imobilizadas em uma carteira de empréstimos problemáticos e em projetos de natureza especulativa. A situação se assemelha a um esquema de pirâmide, onde o Ayandeh dependia do incessante aporte de novos depósitos para honrar compromissos anteriores, enquanto direcionava volumes significativos para ativos ilíquidos, especialmente no setor imobiliário.
Esse modelo de negócios minou a capacidade de liquidez do banco. A situação exibe paralelos com o caso do Banco Master no Brasil, que também cresceu ao oferecer Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com retornos substancialmente superiores à média do mercado, utilizando esses recursos para investimentos em ativos questionáveis e com pouca liquidez.
É importante destacar que o sistema bancário iraniano é um dos setores que mais sofreram com as décadas de sanções impostas pelos Estados Unidos e pela comunidade internacional.
Respostas do Governo à Crise Bancária
Para lidar com a crise provocada pela falência do Ayandeh Bank, o governo iraniano adotou medidas, como a impressão de dinheiro, na tentativa de cobrir os rombos deixados pela instituição, no entanto, essa estratégia não obteve sucesso.
Consequentemente, a falência do banco se tornou um símbolo de um colapso econômico em curso, que, em última instância, ajudou a desencadear os protestos. Além disso, outros oito bancos estão em situação crítica, conforme comunicado do Banco Central do Irã.
A situação abala a credibilidade do governo, levando a população a questionar o motivo pelo qual a administração estava disposta a agir rapidamente para ajudar um banco, mas não demonstrava o mesmo comprometimento para resolver a grave crise econômica do país.
O quadro se torna ainda mais alarmante em um contexto onde o governo já vinha recorrendo suas próprias reservas para manter a atividade econômica há anos, em meio aos embargos impostos pelos Estados Unidos e outras potências mundiais.
Com escassez de novas fontes de financiamento e os preços do petróleo em níveis baixíssimos globalmente, Teerã enfrenta uma crescente dificuldade em responder à deterioração econômica e às demandas da população.
A piora da crise já havia motivado centenas de comerciantes, um grupo que tradicionalmente mantém-se à margem dos protestos de rua no país, a mobilizarem-se em Teerã em busca de medidas de apoio.
A credibilidade do governo iraniano já estava comprometida após um recente confronto com Israel, que expôs as limitações do regime em proteger sua população contra ataques externos.
Ademais, a relutância das autoridades em avançar nas negociações do programa nuclear manteve fora do alcance qualquer perspectiva de alívio das sanções. No mês de novembro, Israel e Estados Unidos ameaçaram novas ofensivas caso o Irã tentasse expandir seu arsenal de mísseis balísticos ou retomasse iniciativas nucleares sensíveis.
Nesse cenário, a desvalorização da moeda iraniana, o rial, entrou em um ciclo crescente, enquanto a disponibilidade de instrumentos para conter esse movimento é escassa.
Ameaça de Intervenção Norte-Americana
A relação entre Estados Unidos e Irã tem sido marcada por tensões ao longo de diversas décadas, mas a situação se deteriorou ainda mais com os recentes protestos. O ex-presidente Donald Trump inseriu-se na questão, afirmando que Washington poderia intervir e adotar “medidas muito enérgicas” caso o regime executasse manifestantes.
Essas declarações iniciaram uma sequência de advertências e movimentos de pressão militar, que se estenderam nos meses subsequentes.
Na última segunda-feira (26), a Marinha dos Estados Unidos deslocou uma força naval para o Oriente Médio. Esta força é liderada pelo porta-aviões USS Abraham Lincoln, um dos maiores navios de guerra do mundo, equipado com sistemas de mísseis e armamentos de longo alcance.
Esse porta-aviões, que havia sido empregado na guerra do Afeganistão no início dos anos 2000 e estava participando de exercícios no Mar do Sul da China, foi redirecionado para uma área próxima ao Irã, acompanhado por caças e outros sistemas de defesa aérea e inserido dentro de um movimento interpretado como um claro sinal de dissuasão militar.
Segundo Trump, a frota deslocada para o Oriente Médio é maior do que a enviada para a Venezuela e, assim como no caso da Venezuela, está pronta, disposta e apta a cumprir sua missão de forma rápida e contundente, se necessário.
Fonte: www.moneytimes.com.br