Como identificar um ‘larápio’ ou um ‘aventureiro’? As lições do primeiro presidente da CVM.

Como identificar um ‘larápio’ ou um ‘aventureiro’? As lições do primeiro presidente da CVM.

by Editoria Bolsa e Mercado
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Lançamento do Livro “Aventureiros e Larápios”

Roberto Teixeira da Costa, economista que foi o primeiro presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), lançou recentemente o livro intitulado “Aventureiros e Larápios: histórias de quem abalou e quase quebrou os mercados”. Esta obra foi escrita em parceria com o jornalista Fábio Pahim Jr. A publicação surge em um contexto em que diversos escândalos afetaram o mercado financeiro e o mundo dos negócios no Brasil no último ano, deixando muitos investidores inseguros e sem saber como identificar problemas potenciais antes de aplicarem suas economias.

A Dificuldade em Classificar Personagens

Teixeira da Costa, com ampla experiência na análise desses casos, afirmou que a linha que separa um aventureiro de um larápio pode ser difícil de definir. Ele destacou que, em muitos casos, a avaliação das intenções e características das pessoas envolvidas é complexa e que “a coisa mais difícil do mundo é julgar”, como declarou em uma entrevista ao E-Investidor.

Durante a conversa, ele foi questionado sobre sua classificação de várias figuras do mundo financeiro. No caso de Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, a resposta foi direta: “Larápio”. Por outro lado, ao comentar sobre Eike Batista, a resposta foi mais cautelosa, afirmando que “talvez precise de um psicólogo para avaliar”, o que demonstra a complexidade do julgamento em determinadas situações.

Traços Comuns nos Casos de Fraude

Os relatos contidos no livro abrangem um longo período histórico, que se estende até os dias atuais. Apesar das diferenças temporais, é possível identificar traços comuns nos casos abordados, como a ganância, a arrogância, a falta de fiscalização e, principalmente, a falta de ética.

Teixeira da Costa comentou que existem casos onde a fraude é evidente, como o notório esquema perpetrado por Bernard Madoff, amplamente reconhecido como o maior esquema de pirâmide da história, resultando em perdas de dezenas de bilhões de dólares. Por outro lado, também existem figuras cuja classificação é muito mais complicada, especialmente quando essas pessoas unem habilidades empresariais, carisma, ambição e uma disposição para assumir riscos.

Exemplos Ilustrativos

O autor usa Madoff como um exemplo clássico de alguém que “deliberadamente construiu uma estrutura fraudulenta”. Madoff mantinha um estilo de vida social ativo e prestigiado, atendendo a eventos na elite nova-iorquina. Contudo, por trás dessa fachada, tinha partes de sua casa que eram inacessíveis, até mesmo para seus familiares, onde realizava suas operações fraudulentas.

Por outro lado, Artur Virgílio Alves Reis, que falsificou um diploma de engenharia, é descrito como um caso típico de um larápio. No ano de 1925, Reis orquestrou um golpe em larga escala que envolveu a emissão fraudulenta de papel-moeda, afetando significativamente o PIB de Portugal. Sua justificativa para a fraude era curiosa: se o Estado podia emitir papel-moeda, por que ele não poderia fazer o mesmo?

O Caso do Barão de Mauá

Teixeira da Costa destaca o Barão de Mauá, um empresário brasileiro do século XIX que, à medida que seus negócios se expandiam, começou a incomodar interesses estabelecidos. O seu colapso se deu em função da dificuldade de sustentar uma estrutura que cresceu rapidamente demais. O autor classifica Mauá como um aventureiro, em um sentido positivo, afirmando que “ele estava realizando as coisas”.

Um cenário semelhante pode ser observado com Eike Batista, que comandou o grupo EBX, que ascendeu e caiu de forma rápida e dramaticamente. Teixeira da Costa comenta que Eike estava cercado por especialistas que acreditavam na existência de reservas de petróleo suficientes para justificar a criação de grandes empreendimentos. No entanto, as descobertas apontaram que não havia petróleo suficiente, levando à falência de seus projetos. A reflexão levantada é se Eike foi enganado ou se ele mesmo induziu o engano.

A Classificação de Jogadores

Além das definições de larápio e aventureiro, Teixeira da Costa introduz uma nova classificação: a de “jogador”. Essa categoria não necessariamente se refere a um fraudador, mas sim a alguém disposto a explorar as fronteiras do mercado em busca de vantagens. O autor exemplifica essa figura através do empresário e investidor Naji Nahas, que acumulou ações com o objetivo de obter poder sobre a influência de seus preços. Nestes casos, é crucial determinar se suas ações estão dentro das normas ou não.

O Caso da Enron e Outros Exemplos

No que diz respeito ao caso da Enron, que quebrou em 2001 após escândalos de fraudes contábeis, manipulações de resultados e ocultação de dívidas, Teixeira da Costa enfatiza o perigo que os bônus em ações representam. Esses bônus incentivam executivos a valorizarem seus papéis de forma que podem levar a decisões voltadas apenas para a cotação das ações. Este caso expôs problemas sérios nas auditorias, que muitas vezes faziam “vista grossa” a irregularidades.

Outro exemplo discutido é o de Martha Stewart, uma empresária e personalidade americana que enfrentou problemas legais devido ao uso de informações privilegiadas antes que estas fossem divulgadas ao mercado. Martha obteve informações de um amigo relacionado a uma empresa de tecnologia que não enfrentava uma boa situação financeira, levando-a a vender suas ações antes que as más notícias se concretizassem, resultando em sua condenação.

Reflexões sobre Transparência

Conforme destacado por Teixeira da Costa, o cerne dos problemas em todos esses casos não reside apenas em cometer erros, mas na incapacidade de reconhecer e revelar quando algo está errado. Essa falta de transparência, segundo ele, se torna um fator que contribui para a destruição de muitas empresas.

Fonte: www.estadao.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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