Conflitos no Oriente Médio e Tensão Sino-Americana
A oposição da China à guerra conduzida pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã está elevando as tensões entre Pequim e Washington, a apenas algumas semanas de uma reunião de alta importância entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping.
A ofensiva no Oriente Médio, que resultou na morte do aiatolá Ali Khamenei, considerado favorável à China, além de vários outros oficiais iranianos, demonstra a disposição dos Estados Unidos em abrir mão da diplomacia e realizar operações militares de alto risco para alcançar seus objetivos globais. Este conflito teve início menos de dois meses após os EUA terem atacado a Venezuela para capturar seu presidente, Nicolás Maduro, e sua esposa, que atualmente se encontram sob custódia na cidade de Nova Iorque.
Essas ações destacam que, mesmo que a turbulenta guerra comercial entre os EUA e a China tenha se estabelecido em uma relação de detente instável, a administração Trump está disposta a desestabilizar países onde Pequim exerce uma influência significativa.
A Diplomacia em Risco
As agressões não devem interromper ou comprometer a diplomacia entre as duas potências, mas podem alterar o contexto do encontro que se aproxima entre Trump e Xi na China, conforme afirmado por Tim Keeler, sócio e co-chefe da área de comércio internacional na Mayer Brown.
A velocidade e a força demonstradas no ataque na Venezuela foram descritas como “nada menos que impressionantes” e serviram para relembrar a China sobre as capacidades militares dos EUA, segundo Keeler em uma entrevista por telefone.
Se a incursão no Irã se moldar de maneira semelhante à da Venezuela, “isso pode acabar resultando em uma mudança significativa na atmosfera do encontro”, ressaltou.
Essa mudança pode influenciar tanto as discussões quanto os possíveis acordos resultantes delas, afirmam os especialistas. Embora alguns achem que os ataques dos EUA podem conceder a Trump uma leve vantagem com Xi, também reconhecem que essa vantagem pode mudar a favor da China, dependendo de como a guerra recente se desenrolar.
Trump deve viajar para a China entre os dias 31 de março e 2 de abril. Antes disso, os principais oficiais de comércio dos EUA e da China, incluindo o secretário do Tesouro, Scott Bessent, e o vice-primeiro-ministro chinês, He Lifeng, se encontrarão em Paris para discutir tarifas e possíveis acordos relacionados à soja dos EUA e aeronaves Boeing, conforme reportado esta semana pela Bloomberg.
A Reação da China à Guerra no Irã
Os Estados Unidos e Israel iniciaram uma ofensiva contra o Irã com ataques aéreos no último sábado, com Trump identificando inicialmente a mudança de regime em Teerã como um dos objetivos principais da operação.
Com o passar dos dias, as explicações do governo sobre tanto a cronologia quanto o propósito mais amplo dos ataques mudaram. As autoridades acabaram se unindo em uma justificativa em quatro pontos para a guerra: destruir o programa de mísseis do Irã, incapacitar sua marinha, impedir que o país obtenha armas nucleares e garantir que não possa mais apoiar combatentes fora de suas fronteiras.
Os mercados têm sido impactados pelas hostilidades, que interromperam significativamente as remessas através do Estreito de Ormuz, um corredor energético essencial.
A China, a maior compradora de petróleo iraniano, manifestou sua oposição à guerra e pediu um cessar-fogo imediato.
A Importância do Estreito de Ormuz
“O Estreito de Ormuz e suas águas adjacentes são uma importante rota de comércio internacional para bens e energia. A manutenção da segurança e da estabilidade na região serve aos interesses comuns da comunidade internacional”, afirmou Liu Pengyu, porta-voz da embaixada da China em Washington, em uma declaração à CNBC.
“A China insta as partes relevantes a cessar imediatamente as operações militares, evitar a escalada da tensão e prevenir que a turbulência regional cause danos maiores ao crescimento econômico global”, disse Liu.
Os preços internacionais do petróleo, que estavam em queda em relação aos seus picos recentes, dispararam novamente devido às interrupções no fornecimento, gerando repercussões visíveis na economia global, incluindo um aumento repentino nos preços de gasolina nos EUA.
No entanto, a China e outras economias asiáticas, que dependem em grande parte do petróleo transportado pelo Estreito de Ormuz, são as que podem enfrentar maior exposição.
Bessent sugeriu na quarta-feira à CNBC que os eventos na Venezuela e no Irã são susceptíveis de prejudicar mais Pequim.
“A China é muito vulnerável na questão energética”, afirmou, observando que a economia asiática estava “pagando um grande desconto.”
“Isso, obviamente, está em suspensão por ora, e veremos como isso se desenrola”, completou Bessent.
A Dinâmica de Poder entre EUA e China
Alguns analistas acreditam que a guerra pode fortalecer a posição de Trump — ao menos por enquanto —, uma vez que o interesse da China em manter o diálogo com os EUA supera suas crescentes preocupações em relação à agressão americana.
“No curto prazo, a aparência parece favorecer Trump”, disse Jack Lee, analista do China Macro Group, em um e-mail para a CNBC.
“Uma administração norte-americana disposta a agir, mesmo diante das repercussões, pode parecer que nasceu ‘de uma posição de força’, o que pode injectar um certo grau de cautela em Pequim”, explicou Lee.
Ele observou que o tom da China ao responder aos ataques dos EUA tem sido “incomumente” suave, especialmente quando comparado à condenação mais contundente que fizeram sobre o ataque na Venezuela.
Yue Su, economista-chefe na Economist Intelligence Unit, concordou que, apesar dos crescentes riscos e incertezas, a guerra provavelmente não vai prejudicar o encontro entre Trump e Xi.
Pelo contrário, isso pode fazer parte das negociações, uma vez que “isso é muito mais importante para a China em comparação ao caso da Venezuela. A China está atualmente expandindo seus investimentos no Oriente Médio, e precisa considerar os potenciais efeitos colaterais.”
David Meale, que lidera a prática da China na consultoria de risco político Eurasia Group, afirmou que os EUA não necessariamente conseguiram ganhar vantagem em relação ao Irã, pois não existe um “resultado evidente com a China que possam alcançar com base nesses outros desenvolvimentos.”
Entretanto, a guerra pode moldar a resposta da China, acrescentou Meale, ao aumentar o incentivo de Pequim para “engajar-se de maneiras que estabelecerão expectativas para a manutenção da estabilidade nas relações bilaterais.”
Os especialistas enfatizaram que a guerra no Irã ainda está no seu início, e que as dinâmicas podem mudar drasticamente entre agora e a data da viagem de Trump ao exterior.
“Três semanas é um longo período”, disse Keeler.
Fonte: www.cnbc.com