A Concentração em Tecnologia e Inteligência Artificial nas Carteiras de Investimento
Para muitos investidores, um passo inicial na diversificação internacional é a aquisição de um ETF que replica o S&P 500. Esse índice é composto pelas 500 maiores empresas dos Estados Unidos, dando a impressão de que a diversificação global está garantida. No entanto, muitos investidores não percebem que podem acabar concentrando os investimentos em um ou dois setores, especialmente em tecnologia e inteligência artificial, áreas que têm ganhado destaque nas carteiras de investimentos recentes.
Análise da Concentração em Tecnologia
Um relatório da BlackRock aponta para a crescente concentração de investimentos em tecnologia. Desde o lançamento do ChatGPT, em 2022, a participação desse setor nos índices MSCI dos Estados Unidos e dos mercados emergentes duplicou. A gestora sugere que as carteiras globais estão se concentrando mais em inteligência artificial do que no mercado dos Estados Unidos como um todo. A veracidade dessa afirmação é confirmada por especialistas.
Beny Fard, analista econômico e sócio da Segundo Minuto, afirma que ao adquirir um ETF amplo dos Estados Unidos, o investidor acredita estar diluindo riscos, quando na realidade está realizando uma “aposta disfarçada” em sete ou oito empresas de tecnologia. Para Fard, isso significa que quando essas empresas crescem significativamente, o índice como um todo se torna dependente delas.
Bruno Corano, economista da Corano Capital, acrescenta que, embora um ETF amplo apresente diversidade em número de empresas, ele não necessariamente abrange uma variedade de fatores de risco. Ele observa que um investidor que possui um ETF do S&P 500, do Nasdaq-100, e que ainda adiciona ações da Nvidia, Microsoft, Alphabet, Amazon ou Meta em sua carteira, pode acreditar estar diversificando, mas, na verdade, está reafirmando a mesma tese gasto. A correlação histórica entre os dois índices foi, em março, de 0,98, um patamar recorde.
O Crescimento da Inteligência Artificial
O aumento da presença da inteligência artificial nas carteiras também pode ser atribuído a fatores de consumo e comportamento dos investidores recentes. Lucas Magalhães, diretor comercial da GTN no Brasil, observa que a demanda por inteligência artificial cresceu consideravelmente nos últimos meses, refletindo em diversas áreas do mercado.
Ele reforça que essa indústria demanda altos investimentos em capital e infraestrutura, alavancando outros setores globalmente.
Indícios de Concentração em Índices
A concentração em tecnologia não se limita apenas ao S&P 500. Segundo Filipe Ferreira, professor da USP e do Insper, que também atua como sócio-consultor da CTW, os índices ponderados pelo valor de mercado são a raiz do problema, com destaque para o S&P. As chamadas “Sete Magníficas” (MAG7) representam aproximadamente um terço do valor de mercado desse índice, superando os altos níveis alcançados durante a bolha das pontocom em 2000. O Nasdaq 100 é ainda mais acentuado nesse aspecto, sendo criado precisamente para reunir empresas de tecnologia, enquanto ETFs setoriais potencializam essa concentração.
Corano acrescenta que índices mais especializados, como o S&P 500 Information Technology e índices voltados para semicondutores e inteligência artificial, tendem a eliminar ou reduzir a presença de setores defensivos, intensificando a dependência em algumas poucas empresas de tecnologia.
Henry Laurindo, especialista em investimentos internacionais da Barsi Investimentos, alerta que a cadeia de valor da inteligência artificial é vastamente ampla e inclui semicondutores, infraestrutura, data centers, energia e redes. Ele também ressalta que a concentração não se dá apenas por meio de ETFs, mas também por outros ativos, como BDRs das grandes empresas de tecnologia, fundos temáticos de IA e fundos de investimento imobiliário (REITs) focados em data centers. A forma de investimento não é o único fator a considerar; é vital examinar o ativo subjacente.
O Impacto da Concentração no Investidor
Os especialistas entrevistados identificam que a concentração não é necessariamente problemática, mas se torna um risco quando ocorre de maneira não intencional. Laurindo observa que desejar uma porção significativa da carteira voltada para inteligência artificial é distinto de descobrir, após reunir diversos ETFs, ações e BDRs, que uma parte substancial do patrimônio depende da mesma tese.
Fard discorre sobre os riscos associados à concentração, indicando que um choque no setor tecnológico pode impactar a carteira de investimentos como um todo. Além disso, o grande volume de investimentos que as empresas do setor de tecnologia estão fazendo em inteligência artificial, estimados em cerca de US$ 650 bilhões, levanta preocupações sobre o retorno desses investimentos. Se os resultados não forem satisfatórios, a correção dos índices pode ser generalizada, e não restrita a uma única ação.
Corano aponta outros riscos: o risco de monetização, quando o investimento em chips e data centers não gera receita no esperado; o retorno sobre o capital, onde os gastos em investimentos crescem mais rapidamente que os lucros; e o risco de valuation, quando a empresa apresenta bons resultados, mas abaixo das expectativas já precificadas.
Tendências de Concentração no Mercado
Ferreira comenta sobre uma dinâmica que tende a aumentar a concentração nos investimentos, argumentando que mais da metade dos valores investidos nos Estados Unidos provém de estratégias passivas, nas quais os investidores alocam recursos baseados no aumento do valor de mercado das empresas, que tendem a crescer no índice. Entretanto, caso esses ativos diminuam em valor, a desaceleração também será rápida.
Porém, especialistas alertam que essas tendências não são permanentes. Corano recorda que o setor de energia chegou a representar quase 28% do S&P 500 em 1980, mas sofreu um recuo significativo. A tecnologia, que atingiu 33% do S&P 500 durante a bolha pontocom, também viu uma diminuição em sua representatividade após a crise daquele período.
Fard já observa indícios de uma reversão na concentração, citando que no primeiro semestre deste ano, as grandes empresas de tecnologia se estabilizaram, enquanto pequenas empresas, assim como setores financeiros e de saúde, começaram a ganhar relevância.
Diminuição da Exposição à Inteligência Artificial
Laurindo recomenda que os investidores analisem a quantidade de exposição direta ou indireta que possuem em relação à inteligência artificial e à tecnologia. Uma boa prática inclui medir a sobreposição, uma vez que muitas vezes uma mesma ação pode estar investida em BDRs, ETFs e fundos.
Ferreira sugere que os investidores adotem índices de “equal weight”, onde cada empresa tem um peso semelhante, facilitando assim a desconcentração. Além disso, é aconselhável diversificar em setores que não estejam diretamente correlacionados com a tecnologia, assim como misturar ativos de diferentes países, incluindo tanto economias desenvolvidas quanto emergentes. Incorporar outras classes de ativos, como renda fixa internacional, ouro ou commodities, também pode ajudar a balancear a carteira e reduzir a exposição ao setor de tecnologia.
Fonte: borainvestir.b3.com.br
