Alternativas para IPOS durante a paralisação do governo nos EUA
Empresas que desejam evitar interrupções em suas ofertas públicas iniciais (IPOs) devido à paralisação do governo dos Estados Unidos podem se valer de uma cláusula que permite prosseguir com seus planos de listagem sem a necessidade de aprovações regulatórias prévias.
A startup de biotecnologia MapLight foi a primeira a protocolar um pedido de listagem com base nessa cláusula no início do mês de outubro. Entretanto, outras empresas estão adiando suas listagens, como a divisão de sorvetes Magnum da Unilever, que apontou o impacto da paralisação como justificativa para a decisão. Por sua vez, a agência reguladora do mercado norte-americano, a SEC, suspendeu a análise de IPOs devido a uma interrupção que perdurou por três semanas.
A SEC e sua atuação durante a paralisação
Conforme detalhado em seu plano de contingência, a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC) reduziu sua força de trabalho, mantendo cerca de 390 funcionários, que são responsáveis por questões críticas de fiscalização e monitoramento do mercado, enquanto mais de 90% de seu pessoal foi dispensado temporariamente.
Esse cenário levou a SEC, que tem a incumbência de supervisionar os mercados públicos, a interromper a análise de registros de IPOs, o que, segundo especialistas do setor, pode impactar negativamente o processo de recuperação de um mercado que vinha tentando se reerguer após anos com atividade reduzida.
Tradicionalmente, as empresas esperam a aprovação da SEC antes de lançar seus IPOs. Contudo, as regras em vigor oferecem um mecanismo que possibilita aos emissores declararem seus registros como “efetivos” por conta própria, sem a necessidade de um sinal verde da agência reguladora. Para que isso seja possível, os emissores devem estabelecer o preço do IPO com um intervalo de 20 dias antes da listagem, ao contrário do que acontece normalmente, onde o preço é definido na véspera.
Durante a paralisação do governo que ocorreu em 2018 e teve uma duração de 35 dias durante o primeiro mandato do presidente Donald Trump, diversas empresas utilizavam essa mesma estratégia, incluindo a biotecnológica Gossamer Bio e a empresa de energia New Fortress Energy. Além disso, essa alternativa era também bastante utilizada por SPACs, que são empresas de aquisição com um propósito específico.
Funcionamento das SPACs
As SPACs captam recursos por meio de um IPO para financiar futuras aquisições. Durante o momento da listagem, essas empresas são consideradas “cheque em branco”, pois não possuem operações ou ativos existentes. O seu valor é integralmente atrelado ao montante que foi arrecadado, o que lhes confere a possibilidade de estabelecer um preço antes do evento de listagem, sem afastar potenciais investidores.
Considerações sobre os riscos envolvidos
Embora a regra dos 20 dias represente uma alternativa para abrir capital em períodos de paralisação, a opção de ignorar a avaliação da SEC traz riscos tanto para as empresas quanto para os investidores. A ausência de fiscalização por parte da agência reguladora torna os documentos de registro mais suscetíveis a conter erros ou omissões, o que pode acarretar em ações legais ou reclamações por parte dos investidores após a realização da listagem.
Além disso, as empresas podem enfrentar um aumento no ceticismo dos investidores. Normalmente, esses investidores confiavam na revisão da SEC como uma medida de verificação da precisão e integridade das informações apresentadas. Para minimizar esses riscos, muitas empresas optam por contar com assessores jurídicos e financeiros que realizem revisões internas minuciosas.
Desconsiderar a análise regulatória pode, ainda, afastar investidores. A falta de uma verificação oficial costuma ser interpretada como um indicativo de risco elevado ou de falta de transparência. Segundo Troy Hooper, co-chefe de mercados de capitais de ações das Américas na Mergermarket, “ignorar a revisão regulatória aumenta a probabilidade de que haja omissões ou erros nos registros, o que torna tanto emissores quanto investidores mais suscetíveis a problemas legais e surpresas indesejadas após o lançamento”. Ele complementa que muitos investidores consideram a fiscalização da SEC fundamental para manter a confiança no mercado, e que, sem essa supervisão, os emissores podem acabar enfrentando maior ceticismo, além de avaliações mais baixas.
Expectativas para o futuro
De acordo com análises do setor, é provável que mais empresas considerem a utilização da regra dos 20 dias durante períodos de paralisação. Lukas Muehlbauer, analista de pesquisa da empresa IPOX, afirma que “empresas de biotecnologia são candidatas ideais para esse caminho pouco convencional, mas válido, de abertura de capital durante uma paralisação, uma vez que suas altas taxas de queima de caixa frequentemente geram uma necessidade urgente de financiamento.”
Por outro lado, também há empresas que podem optar por retirar seus registros de IPO temporariamente e buscar capital em mercados privados enquanto aguardam a normalização do processo de revisão por parte da SEC.
Fonte: www.moneytimes.com.br