Mercado de Crédito no Agronegócio em 2026
O mercado de crédito vinculado ao agronegócio enfrenta um cenário desafiador em 2026. O aumento nas recuperações judiciais e nos conflitos em torno de garantias levou os gestores a adotarem uma postura mais cautelosa ao conceder financiamentos a produtores e empresas desse setor. Um reflexo claro dessa mudança pode ser observado nas emissões de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), cujo volume médio mensal despencou 77% neste ano.
Dados da Anbima
Conforme informações da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), as emissões de CRAs no segundo semestre de 2025 apresentavam uma média mensal de R$ 5,3 bilhões. Entretanto, nos primeiros seis meses de 2026, esse número caiu para apenas R$ 1,2 bilhão. Em comparação com o primeiro semestre de 2025, quando o volume médio mensal foi de R$ 2,4 bilhões, a redução chega a 50%.
Causas da Retração
Não existe uma única razão para essa retração no mercado. Fatores como eventos climáticos adversos, a queda nos preços das commodities e a elevação das taxas de juros impactaram negativamente a saúde financeira de produtores e empresas da cadeia de insumos. Ademais, o crescimento das recuperações judiciais e extrajudiciais suscitou preocupações para os investidores a respeito da real disponibilidade das garantias oferecidas nas operações de crédito quando estas forem mais necessárias.
Impacto das Decisões Judiciais
Uma questão relevante surge com as decisões judiciais em estados estratégicos para o agronegócio, que têm reconhecido que bens entregues em alienação fiduciária podem ser essenciais para a continuidade da atividade produtiva do agricultor. Isso significa que, em determinadas circunstâncias, esses ativos podem permanecer protegidos durante processos de recuperação judicial.
Thiago Braga Junqueira, sócio do escritório Pinheiro Neto Advogados, realizou um levantamento que revelou essas decisões em estados como Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná. As discussões podem envolver ativos como sacas de grãos, máquinas agrícolas e propriedades rurais comprometidas como garantias nas operações.
Riscos para os Credores
Para os credores, essa situação apresenta riscos concretos. Quando a recuperação de um ativo fica condicionada a uma nova decisão judicial, o capital pode ser imobilizado enquanto o processo judicial avança. Nesse intervalo, as garantias podem sofrer deterioração, ser utilizadas ou até mesmo comercializadas, o que aumenta ainda mais a preocupação, especialmente quando o ativo em questão é um produto agrícola.
Porém, a interpretação jurídica dessa questão não é unânime. O Superior Tribunal de Justiça já se manifestou em algumas ocasiões afastando a classificação de soja e milho como bens de capital essenciais, mas esse entendimento não é uniformemente aplicado, uma vez que não foi estabelecido no âmbito dos recursos repetitivos, o que significa que não vincula automaticamente os tribunais estaduais.
Considerações do Conselho Nacional de Justiça
O Conselho Nacional de Justiça emitiu, em março de 2026, uma orientação a respeito do tema. Porém, conforme observa Rafaela Aiex Parra, diretora da Comissão de Direito Agrário e do Agronegócio da OAB-PR, tal ato possui natureza administrativa e correcional, não substituindo a análise jurisdicional realizada pelos magistrados.
Essa ausência de um entendimento legal claro gera incertezas para os financiadores. Sem saber como garantias específicas serão tratadas em casos de recuperação judicial, o cálculo do risco real de uma operação se torna mais complicado. Como consequência lógica, o crédito tende a ser mais caro ou, em alguns casos, pode simplesmente não ser concedido.
Efeitos nos Fundos de Investimento
Os efeitos dessas condições já são visíveis nos fundos de investimento. Os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais, conhecidos como Fiagros, diminuíram o ritmo de crescimento e têm analisado novas operações com maior rigor. Como esses fundos se tornaram compradores relevantes de CRAs, a queda na demanda resultou em uma pressão adicional nas emissões desses títulos.
Além disso, investidores pessoa física também estão se tornando mais conservadores. Recentes reestruturações financeiras em grandes empresas do agronegócio elevam a preocupação com a concentração em títulos de crédito privado. O impacto de uma empresa que enfrenta dificuldades e provoca perdas aos investidores não se limita a uma única operação; a percepção de risco pode afetar futuras emissões.
Fatores Adicionais para a Queda dos CRAs
Entretanto, atribuir toda a queda nas emissões de CRAs apenas à insegurança jurídica seria simplista. O ambiente atual é também influenciado por juros elevados, taxas de inadimplência no setor e incertezas políticas, além de uma antecipação de emissões em 2025 em referência à possível tributação de títulos incentivados.
Recuperações Judiciais e CPRs
Além do contexto das recuperações judiciais, o panorama das Cédulas de Produto Rural (CPRs) apresenta uma realidade distinta. A média de processos, que girava em torno de 100 mensais em 2022, superou 400 em junho de 2026, concentrando uma quantidade significativa de disputas no segmento de grãos.
É importante notar a diferença em relação à iniciativa nas ações. Enquanto a recuperação judicial é proposta pelo devedor, as ações relacionadas às CPRs são predominantemente movidas pelos credores. O levantamento abrange Estados como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Bahia, Paraná, Rio Grande do Sul, Tocantins, Maranhão e Minas Gerais.
Sinais para os Gestores
Esse fluxo crescente de ações pode ser um sinal de que os credores estão tentando agir antes que dificuldades financeiras transbordem para a recuperação judicial. Isso também abre espaço para renegociações fora deste contexto. Contudo, é fundamental destacar que um maior volume de ações não significa necessariamente que os credores estejam conseguindo efetivamente executar suas garantias.
Mudanças nas Estruturas de Operações
O aumento dos riscos jurídicos já tem impactado a estrutura de várias operações. A Riza Asset, que administra cerca de R$ 25 bilhões, passou a exigir uma margem maior de proteção nas garantias. Presentemente, o valor emprestado corresponde, em média, a 60% a 80% do ativo utilizado como garantia.
Essa abordagem é lógica: se a recuperação judicial pode manter o capital do credor imobilizado por dois anos ou mais, a operação precisa de uma proteção maior para se justificar. Quanto mais tempo o capital fica preso, maior o custo financeiro associado e, inversamente, maior deve ser a margem de segurança exigida.
Alternativas de Financiamento
A gestora também adotou estruturas de sale and leaseback, que consistem na compra da propriedade rural com o subsequente arrendamento ao produtor. Essa tática visa reduzir riscos para o financiador, embora, paradoxalmente, possa elevar o custo do capital para quem necessita de recursos.
Por outro lado, a Capitânia, gestora que administra aproximadamente R$ 22 bilhões, implementou uma estratégia alternativa. Em vez de ampliar os empréstimos diretamente aos produtores, a empresa passou a priorizar financiar empresas da cadeia de insumos, que possuem balanços auditados e estruturas de governança e compliance mais robustas.
Conclusão sobre o Cenário Atual
Em síntese, o financiamento privado ao agronegócio não desapareceu; o que mudou foram as condições. O capital ainda está disponível, mas os preços e os critérios para obtenção desse financiamento se tornaram mais rigorosos. Fatores como capacidade de pagamento, governança, transparência e a qualidade das garantias desempenham um papel ainda mais crucial nas decisões dos gestores.
Para produtores e empresas do agronegócio, isso resulta em um acesso ao crédito mais seletivo e potencialmente mais oneroso. Se um investidor percebe que a execução de uma garantia é menos previsível, a resposta natural será solicitar maior retorno, mais garantias ou estruturas contratuais que possam minimizar o risco.
O cenário atual também coloca os Fiagros em uma posição desafiadora. Esses instrumentos auxiliaram na aproximação de investidores pessoas físicas ao financiamento do agronegócio, mas as atuais dificuldades de inadimplência estão obrigando os gestores a reavaliar modelos de análise e mecanismos de proteção de suas carteiras.
O impacto sobre ativos relacionados ao crédito no agronegócio provavelmente se manifestará principalmente na percepção de risco e na exigência de retorno. Diante da menor demanda por CRAs, o custo das novas captações pode aumentar, enquanto Fiagros que se tornarem mais cautelosos podem reduzir a oferta de recursos para operações consideradas arriscadas. Isso, por sua vez, pressiona o custo financeiro para os produtores e empresas, enquanto os investidores passam a priorizar a análise de crédito e garantias com ainda mais afinco antes de realizar a alocação de seus recursos.
Fonte: br.-.com
