Reunião de Autoridades
No mês passado, as autoridades dos Estados Unidos, da Dinamarca e da Groenlândia se reuniram na capital da ilha ártica. De acordo com pessoas que participaram das conversas e que falaram à Reuters, essa sessão transcorreu de maneira tranquila e normal, sem nenhuma discussão sobre a possibilidade de uma aquisição militar ou financeira do território dinamarquês pelos EUA.
Desdobramentos Inesperados
A situação mudou drasticamente menos de duas semanas depois, quando o presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou a nomeação de um enviado especial para a Groenlândia, Jeff Landry. Este, por sua vez, utilizou as redes sociais para afirmar que ajudaria a “tornar a Groenlândia parte dos EUA.”
A nomeação e a mensagem geraram surpresa em Copenhague, além de pegar de surpresa altos funcionários do governo dos EUA que atuam em questões europeias e relacionadas à aliança militar ocidental Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), segundo as fontes consultadas.
O fato de ter excluído seus próprios diplomatas demonstra um padrão na elaboração da política externa de Trump, que tem se distanciado consideravelmente de diversas questões. Muitas vezes, essa política tem sido formulada sem a contribuição das autoridades de segurança nacional, que, em administrações anteriores, ajudaram a moldar as diretrizes.
Decisões Centralizadas
As ações do governo Trump, incluindo uma ameaça implícita de tomar a Groenlândia, um plano para impor novas tarifas sobre aliados dos EUA e esforços para obter concessões da Dinamarca, que administra a Groenlândia, parecem ter sido dirigidas exclusivamente por Trump e um seleto grupo de assessores próximos.
De acordo com informações divulgadas pela Reuters nesta semana, esses assessores incluem o secretário de Comércio, Howard Lutnick, que propôs a ideia das tarifas, e o vice-presidente JD Vance, além do secretário de Estado, Marco Rubio, e outros que tentaram persuadir Trump a não considerar a possibilidade do uso da força militar.
Essa abordagem, que centraliza a tomada de decisões, parece funcionar para Trump, dado seu ceticismo em relação à burocracia de Washington e seu desejo de implementar decisões de forma rápida. No entanto, os anúncios repentinos e as reviravoltas decorrentes desse estilo podem causar danos duradouros às relações com os principais aliados dos EUA.
Comentários da Casa Branca
Quando questionada sobre diversos exemplos de ações da Casa Branca que surpreenderam diplomatas envolvidos em situações como a da Groenlândia, Ucrânia e Síria, a porta-voz da Casa Branca, Anna Kelly, afirmou que aqueles que “vazam para a Reuters” não estão cientes das discussões delicadas e que as realizações da equipe de segurança nacional de Trump falam por si mesmas.
O presidente foi eleito para implementar a política externa America First (América em primeiro lugar), e ele o fez de forma mais eficaz por meio de sua abordagem de cima para baixo”, declarou Kelly.Ação Militar
A possibilidade dessa abordagem centralizadora e personalista se tornar problemática tornou-se evidente nas últimas semanas.
A indignação transatlântica em relação à Groenlândia cresceu após uma entrevista à CNN, no dia 5 de janeiro, do vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller. Quando questionado se a Casa Branca descartaria a possibilidade de uma ação militar para adquirir a Groenlândia, Miller não respondeu diretamente à indagação.
Trump e os membros de seu governo oscilaram entre reforçar a possibilidade de os EUA usarem a força na Groenlândia em entrevistas e nas mídias sociais, gerando confusão e preocupação em Washington e entre os aliados dos EUA.
Preocupações no Capitólio
No Capitólio, tanto democratas quanto republicanos expressaram preocupação, uma vez que o governo parecia, novamente, avançar com uma grande operação militar sem consultar o Congresso previamente, afirmaram fontes familiarizadas com o assunto.
Os parlamentares entraram em contato com Rubio e com altos funcionários da Casa Branca para expressar suas preocupações, aconselhando o governo a não prosseguir com tais ações. Alguns membros do Partido Republicano também expressaram a medo de uma possível investigação de impeachment caso ocorresse uma invasão militar à Groenlândia.
Na semana seguinte, Trump suavizou a tensão ao retirar a ameaça de impor tarifas aos aliados que apoiassem a Groenlândia, afirmando que havia chegado a um entendimento com a Otan sobre o futuro da ilha.
Trump alegou que ele e o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, “formaram a estrutura de um acordo futuro com relação à Groenlândia e, de fato, a toda a Região Ártica” durante discussões em Davos, na Suíça.
Considerações sobre a Ação Militar
No entanto, a possibilidade de ação militar nunca foi considerada seriamente, segundo duas fontes próximas ao governo.
Kori Schake, ex-funcionária do Pentágono e da Casa Branca, atualmente no American Enterprise Institute, disse que, com a ameaça de Trump de tomar a Groenlândia à força, o dano já foi causado.
“Trump é tão errático em suas ameaças que não há como estabelecer que ele não voltará atrás e fará isso novamente. Ele tornou os Estados Unidos indignos de confiança para nossos amigos mais próximos”, afirmou Schake.
Comentários Finais da Casa Branca
Solicitada a fazer observações, incluindo sobre as declarações de Miller, a porta-voz da Casa Branca, Kelly, disse: “Se esse acordo for concretizado… os Estados Unidos estarão atingindo todos os seus objetivos estratégicos com relação à Groenlândia, a um custo muito baixo, para sempre.”
O gabinete de Landry não respondeu imediatamente a um pedido de comentário. Já um porta-voz da embaixada dinamarquesa não fez declarações sobre a matéria.
Trump e seus apoiadores têm argumentado que os EUA precisam da Groenlândia para se proteger das ameaças russas e chinesas no Ártico, alegando que a Dinamarca não consegue garantir a segurança da ilha. Entretanto, os Estados Unidos já possuem uma base na ilha e têm a capacidade, conforme um tratado de 1951 com a Dinamarca, de expandir sua presença ali.
Fonte: www.moneytimes.com.br