Debêntures Incentivadas e a Possibilidade de Perdas Futuras
Quem adquiriu debêntures incentivadas preocupado com a possível perda da isenção de Imposto de Renda pode vir a enfrentar perdas a partir de 2027 no mercado secundário.
Volume de Dívidas Corporativas a Vencer
Um levantamento realizado pela plataforma de análise de crédito privado Credit Guide revela que o volume total de dívidas corporativas que vencem nos próximos três anos soma R$ 752 bilhões. Dentre essas dívidas, R$ 195 bilhões vencerão em 2027, R$ 247 bilhões em 2028, com um pico notável de R$ 310 bilhões previsto para 2029. Esses valores incluem Certificados de Recebíveis Imobiliários e do Agronegócio (CRIs e CRAs).
Dívidas que Requerem Substituição
Essas cifras representam dívidas que as empresas precisam substituir por meio de novas emissões para manter seu financiamento contínuo.
A Influência do Aumento nas Emissões
Com o aumento da emissão de novos papéis, espera-se que esses títulos ofereçam prêmios mais altos para atrair novos investidores. Essa é a lógica do mercado: em um cenário de maior oferta, o preço dos títulos tende a cair, resultando em um maior rendimento (juros) para aqueles que adquirirem os papéis a preços mais baixos.
O volume de dívidas que vence, incluindo debêntures, CRIs e CRAs, soma R$ 195 bilhões em 2027, R$ 247 bilhões em 2028 e sobe para R$ 310 bilhões em 2029, que representa o maior valor observado na série.
Abertura de Prêmio e Perdas Reais na Carteira
Devido a essas dinâmicas, aqueles que atualmente estão investidos nesses títulos podem sofrer perdas, visto que adquiriram os papéis a preços mais elevados. Sergio Omati, sócio da Credit Guide, aponta: “Quando você está posicionado em uma debênture que tem o spread aberto, você experimenta uma perda na marcação a mercado.”
Movimento de Abertura do Spread
O movimento atual de abertura do spread é oposto ao que vinha sendo observado até o início deste ano.
Em um contexto de juros altos, a demanda por crédito privado se intensificou, especialmente em papéis isentos de IR, como as debêntures incentivadas, CRIs e CRAs. Esse excesso de demanda contribuiu para a redução do spread desses ativos, ou seja, o prêmio adicional que os investidores exigem para assumir o risco de crédito comparado à compra de um título público, o qual é considerado livre de riscos.
A Corrida por Debêntures Incentivadas
No que se refere aos títulos incentivados, a corrida de investidores foi impulsionada pela Medida Provisória (MP) 1.303, que ameaçava revogar a isenção de Imposto de Renda para esses ativos, tema que dominou parte das discussões no ano passado.
Expectativa de Perda de Benefícios e Decisões de Investimento
Ainda que a medida não tenha sido votada ou aprovada pelo Congresso, a mera expectativa de perder esse benefício levou os investidores a adquirir debêntures incentivadas em grande escala, culminando na situação em que esses papéis apresentaram rendimentos inferiores aos títulos privados, formando um spread negativo.
A Surpresa do Mercado Financeiro
Esse fenômeno surpreendeu os agentes do mercado financeiro, visto que é ilógico investir em ativos de maior risco com uma remuneração inferior àquela oferecida por títulos públicos.
Marcação Afecta Apenas Quem Não Mantém Até o Vencimento
O cenário atual se alterou, conforme confirma Gabriel Nakaya, analista da Nord Investimentos. Além da expectativa relacionada a novas emissões, a demanda por esses ativos também tende a diminuir.
A manutenção da taxa Selic em 13,75% reduz o interesse dos investidores em títulos privados, o que, por sua vez, pressiona a marcação a mercado daqueles que já possuem esses papéis em suas carteiras de investimentos. “No entanto, esse efeito afeta somente aqueles que não permanecem com o título até o seu vencimento”, ressalta Nakaya.
Casos emblemáticos de recuperação judicial de empresas conhecidas, como Habib’s, Casas Bahia e Braskem, ampliam a percepção de risco no mercado. “É possível que essa dinâmica persista e que os spreads continuem a aumentar”, afirma Nakaya.
Desinteresse por Títulos Privados
Nakaya analisa o desinteresse dos investidores por títulos privados ao avaliar a dinâmica dos fundos de crédito. Esses fundos começaram o ano com captações significativas, mas o ritmo desacelerou e, em meses como abril, maio e julho, ocorreram mais resgates do que entradas de recursos. “O início dessas saídas coincidiu com os episódios de recuperação judicial de Raízen e GPA”, observa o analista da Nord.
Fatores que Definem o Spread no Mercado de Crédito
Segundo a gestora independente de recursos Sparta, o elevado volume de vencimentos de dívidas, em combinação com a menor demanda dos investidores por crédito privado, não implica, necessariamente, em spreads maiores ou um aumento no risco de crédito.
A gestora argumenta que vencimentos de dívidas não equivalem automaticamente ao mesmo montante de capital novo que precisará ser captado em uma rolagem. Um cenário com mais dívidas buscando refinanciamento pode pressionar os spreads, mas ao mesmo tempo o mercado se torna mais seletivo, conforme destaca a Sparta em carta enviada aos seus clientes em agosto. Num ambiente de juros elevados e riscos presentes, a questão primordial é qual a capacidade das empresas de conseguir refinanciar suas dívidas.
Capacidade de Compra dos Fundos
Em relação à demanda, a gestora acrescenta que a capacidade de compra dos fundos não depende apenas de novas captações. Os papéis já em carteira realizam o pagamento de juros, amortizações e vencimentos, retornando caixa constantemente. Desde que não haja resgates, esses recursos devem ser reinvestidos.
Resultados Positivos e Migração para Liquidez
Atualmente, os resultados das captações de fundos de renda fixa são positivos. Por esse motivo, Ricardo Leite, diretor de Alocação da Barsi Investimentos, não vê a perspectiva de uma crise de crédito no presente momento. “É possível que estejamos adentrando uma fase em que, após anos de forte compressão, o mercado volte a remunerar o risco de crédito de maneira mais adequada”, opina.
Não obstante o movimento de saídas, Leite considera que essa migração ocorre em direção a ativos de menor risco e maior liquidez. “A tese de que os spreads estão se ampliando está muito mais relacionada a uma mudança marginal na relação entre oferta e demanda do que a uma ausência de procura por crédito”, avalia.
Os fundos de renda fixa foram responsáveis por 99,1% da captação líquida da indústria no ano, concentrando praticamente todo o resultado positivo alcançado no período. Até agosto, esse grupo financeira registrou entradas líquidas de R$ 154,5 bilhões, com destaque especial para os fundos de baixa duração e crédito livre, que captaram R$ 74,5 bilhões, conforme dados disponíveis da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Ambima).
Vantagens do Pós-Fixado em Cenário Atual
Para os gestores, o contexto atual favorece manter dinheiro em caixa rendendo em pós-fixado. “Com a taxa básica ainda em 13,75% ao ano, o custo de oportunidade de manter uma parte da carteira em instrumentos altamente líquidos é relativamente baixo. O próprio caixa está sendo bem remunerado”, afirma o gestor da Barsi Investimentos.
Manter liquidez neste momento pode ser vantajoso à medida que a Selic diminui e o mercado de ações oferece uma melhor relação entre risco e retorno. O mesmo fenômeno que provoca perdas na marcação das carteiras de crédito existentes gera oportunidades para novos investimentos.
Segundo a Sparta, em um cenário em que o crédito privado ainda oferece prêmios de risco reduzidos, com spreads comprimidos, os emissores enfrentam custos de dívidas mais altos. “Portanto, seguimos priorizando liquidez e seletividade, especialmente em ativos não incentivados, onde percebemos pouco espaço para melhorias significativas na relação entre retorno e risco com os preços atuais”, conclui a gestora em sua carta.
Fonte: www.estadao.com.br
