Entenda como funciona o El Niño
O fenômeno natural conhecido como El Niño resulta do aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico e, como consequência, pode alterar significativamente o padrão de chuvas e temperaturas em diversas regiões do globo.
Impactos do El Niño no mercado de seguros no Brasil
O Brasil já está sentindo os efeitos do fenômeno conhecido como El Niño, que se reflete em todas as regiões do país. Esta condição climática ressurge junto a um antigo receio no mercado financeiro, que acredita que o fenômeno causará uma redução nos lucros das seguradoras, ao mesmo tempo em que pressionará seus dividendos. A dúvida que permanece é se estamos realmente diante de um cenário de catástrofe ou se essa preocupação é meramente uma narrativa sem fundamento.
Visões divergentes sobre os impactos do El Niño
De acordo com alguns analistas consultados, incluindo Bruno Oliveira do Vida de Acionista, a ideia de que o El Niño afeta os lucros das seguradoras está equivocada. Oliveira ressalta um estudo retrospectivo sobre a BB Seguridade (BBSE3), destacando que essa companhia já passou por vários ciclos do fenômeno sem enfrentar quedas anuais sequenciais em seus lucros superiores a 10%. Ele adverte para a necessidade de desconsiderar eventos não recorrentes, como a venda de participação no IRB Brasil (IRBR3) e os impactos da pandemia. “A narrativa de que o El Niño impacta as seguradoras é amplamente exagerada, basta ter uma visão retrospectiva para desmistificá-la”, argumenta.
Por outro lado, outros analistas acreditam que o impacto do fenômeno e o desempenho das seguradoras estão interligados, embora discordem da magnitude desse efeito. Segundo informações do Bank of America (BofA), ciclos anteriores têm mostrado que a frequência de sinistros elevou-se entre 2% e 3%, sendo que cada aumento de um ponto percentual poderia consumir 1% do lucro. “Contudo, essa diluição não é resultado da ausência do fenômeno, mas sim das suas consequências”, salienta Gregório Nissel, sócio e gestor da Rubik Capital.
Nissel destaca duas falhas em sua análise. A primeira se refere ao atraso no registro dos sinistros. A safra agrícola, que é plantada entre setembro e dezembro, é colhida entre janeiro e abril, o que significa que os sinistros relacionados a esses eventos climáticos são contabilizados somente posteriormente, criando um intervalo de dois a três trimestres entre o fenômeno e sua repercussão contábil. A segunda falha, segundo ele, é que, na carteira rural da BB Seguridade, a fase de maior destruição foi ocasionada pelo fenômeno La Niña, e não por El Niño, tendo a sinistralidade rural da BrasilSeg superado a marca de 109% na safra 2021/2022 e recuado para 34% na safra seguinte, contra uma média histórica de 69%.
Jayme Simão, sócio-fundador do Hub do Investidor, corroborou essa análise ao mencionar as enchentes no Rio Grande do Sul de 2024, cuja estimativa de impacto líquido na BB Seguridade foi de R$ 163 milhões, representando cerca de 2% do lucro anual. Embora a sinistralidade geral tenha aumentado em 31% no trimestre do incidente, ele observa que o efeito se dilui ao longo do ano. “O fenômeno realmente gera um impacto significativo no trimestre, mas este efeito se dilui ao longo do ano”, afirma Simão.
No que diz respeito ao El Niño previsto para 2026/2027, Simão considera que há mais de 90% de chance de que este evento seja classificado como muito forte. Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, ainda ressalta que uma parte considerável de imóveis, veículos e áreas agrícolas no país está desprotegida por seguro, o que resulta em parte significativa das perdas recaindo sobre a população e o setor público.
A mais exposta e a mais resiliente
Os analistas consultados indicam que a BB Seguridade é a seguradora mais vulnerável ao El Niño, enquanto a Caixa Seguridade (CXSE3) apresenta maior resiliência. A BB Seguridade é a única com exposição agrícola direta e material por meio da BrasilSeg, considerada a maior seguradora rural do país. Nissel ressalta que há um impacto indireto, uma vez que o Banco do Brasil (BBAS3) atua como distribuidor das apólices, e a deterioração do crédito agrícola pode reduzir a emissão de apólices para a BBSE3.
A seguradora Porto (PSSA3) pode ser afetada de maneira distinta, especialmente em relação aos seguros de automóveis e patrimonial nas regiões Sul e Sudeste, onde, conforme as expectativas, o El Niño pode trazer um excesso de chuvas, o que implica que as apólices anuais podem ter seus preços reavaliados rapidamente. No caso da Caixa Seguridade, observamos que não há sequer linhas agrícolas em sua carteira; esta última é concentrada em produtos habitacionais, seguros prestamistas (que pagam ou quitam uma dívida em caso de eventos indesejados) e previdenciários, distribuídos de maneira pulverizada por todo o território nacional.
Adicionalmente, 35% do lucro da Caixa Seguridade provém de resultados financeiros, o que a torna mais sensível às variações da Selic, taxa básica de juros, do que aos efeitos climáticos.
Oliveira, do Vida de Acionista, tem uma visão diferente da de outros analistas, afirmando que o impacto do El Niño na BB Seguridade é próximo de zero, visto que a empresa possui mecanismos de resseguro e planejamento estratégico em resposta ao fenômeno. Em relação à Caixa Seguridade, ele acredita que os efeitos são pontuais e relacionados a tragédias locais que podem ocorrer em áreas metropolitanas. Por outro lado, Oliveira considera que a seguradora mais vulnerável atualmente é a Porto, impactada pela alta da Selic e pela desaceleração econômica, em vez de pelo clima.
Uma dúvida recorrente entre investidores é sobre a duração do impacto do El Niño nas demonstrações financeiras das seguradoras. Nissel, da Rubik, prevê um período de contaminação de três trimestres para a BB Seguridade, entre o quarto trimestre de 2026 e o terceiro trimestre de 2027. Para a Porto, ele estima um impacto de dois trimestres, enquanto para a Caixa ele acredita que o efeito será nulo. Simão, por sua vez, sugere que o El Niño afetará as seguradoras no quarto trimestre de 2026 e no primeiro trimestre de 2027.
Os dividendos podem ser impactados pelo El Niño?
Os analistas concordam que não há risco de alteração nas políticas de proventos das seguradoras, mas é possível que ocorra uma redução proporcional aos lucros, com o payout (percentual dos ganhos destinados a distribuição de dividendos) diminuindo. Atualmente, a BB Seguridade distribui entre 80% e 90% de seus lucros, enquanto a Caixa Seguridade distribui aproximadamente 90%, e a Porto mantém uma política de payout de 50%.
Nissel observa que, na ausência de uma reserva financeira de retenção, os proventos são um reflexo direto do semestre. Ele calcula que, para a BB Seguridade, os pagamentos no início de 2027 já estão garantidos, pois o período para reclamação ainda não terá se iniciado. No entanto, ele destaca que a parcela mais vulnerável dos proventos é a destinada a setembro, que poderá ser afetada.
No caso da Caixa Seguridade, acredita-se que uma pressão nos dividendos poderia ocorrer devido ao seguro prestamista e imobiliário, mas não de maneira direta relacionada ao El Niño. Enquanto isso, na Porto, a proteção aos dividendos é maior, pois a empresa retém metade de seus lucros.
Oliveira, do Vida de Acionista, é otimista em relação aos dividendos, considerando que não haverá oscilações significativas na Caixa, que realiza pagamentos trimestrais. Na interpretação dele, a BB Seguridade, que distribui semestralmente, teria tempo para compensar um trimestre com resultados mais fracos.
Vale investir para dividendos?
Os analistas afirmam que ainda existem boas oportunidades de investimento. Oliveira recomenda a BB Seguridade para aqueles que buscam uma fonte de renda passiva, pois a empresa possui um modelo que requer pouco reinvestimento e mantém um payout elevado sem comprometer suas operações.
Simão também considera a BB Seguridade a melhor opção em termos de pagamento de dividendos, enquanto a Caixa Seguridade tem uma perspectiva neutra. No entanto, ele vê a Porto como a melhor alternativa para ganhos de capital.
Lima, da Ouro Preto Investimentos, acredita que a Caixa Seguridade oferece a melhor combinação de crescimento, previsibilidade e distribuição de dividendos. Nissel opta pela Porto Seguro, não por seus dividendos, mas pela sua capacidade de crescimento independente do ritmo comercial de um banco terceiro.
Para Nissel, o maior risco enfrentado pela Porto não é resultado das condições climáticas. Ele observa que a sinistralidade do setor está no nível mais baixo da história, com apenas 37,8% no primeiro semestre de 2026, enquanto BB Seguridade e Caixa Seguridade apresentaram índices de sinistralidade elevados nos últimos 12 meses, com aumentos de 42% e 49%, respectivamente.
O gestor destaca que os principais pontos de atenção são a possibilidade de redução da Selic, que diminui a reserva financeira das seguradoras, além da deterioração de crédito por parte do Porto Bank e o risco de um corte nos subsídios do seguro rural para a BB Seguridade.
Veja as projeções para dividendos das seguradoras:
| Vida de Acionista | BBSE3 | 8,8% | R$ 46,52 |
| Vida de Acionista | CXSE3 | 6,7% | R$ 16,58 |
| Vida de Acionista | PSSA3 | —– | — |
| Rubik Capital | BBSE3 | 9,6% | R$ 37,50 |
| Rubik Capital | CXSE3 | 7,4% | R$ 18,50 |
| Rubik Capital | PSSA3 | 6,2% | R$ 58 |
| Hub do Investidor | BBSE3 | 9% a 10% | R$ 39 |
| Hub do Investidor | CXSE3 | 7,7% | R$ 17 |
| Hub do Investidor | PSSA3 | 6% | R$ 50 |
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Fonte: www.estadao.com.br
