Dólar em 2026: eleições, situação fiscal e taxas de juros influenciam as decisões dos investidores.

Dólar em 2026: eleições, situação fiscal e taxas de juros influenciam as decisões dos investidores.

by Editoria Bolsa e Mercado
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Quanto tempo leva para a alta do dólar impactar nosso bolso?

Recentemente, estive no Brasil e a temática das eleições foi muito discutida nas conversas em que participei. Essa presença nas rodas de diálogo é compreensível, já que estamos próximos de uma eleição significativa, que influenciará não só a composição de diversos cargos políticos em toda a estrutura legislativa, mas também a liderança do Executivo.

Como em outros períodos de incerteza, as eleições provocam expectativa e tensão, gerando uma mistura de ansiedade e dúvida sobre os caminhos que a política econômica de Brasília pode seguir. Entretanto, é fundamental ressaltar que seus investimentos, sua poupança e recursos pessoais não precisam ficar reféns dessas emoções. O futuro financeiro de um indivíduo não deve depender exclusivamente do cenário político. A diversificação na carteira de investimentos, alocando uma parte fora do risco associado ao país, pode minimizar esses efeitos.

Contudo, muitos investidores encontram-se paralisados em relação ao impacto das eleições na taxa de câmbio. Essa hesitação resulta do receio de que o dólar possa “disparar” ou “despencar” dependendo do resultado entre os candidatos.

Impacto das Eleições no Câmbio

Este artigo aborda três aspectos relevantes a essa discussão: (i) o efeito estatístico das eleições sobre a taxa de câmbio; (ii) o ciclo do dólar no contexto global; e (iii) a vulnerabilidade estrutural das contas públicas no Brasil.

Aspecto 1: Efeito Estatístico

Em relação ao primeiro aspecto, é importante notar que o Brasil é uma República relativamente jovem, assim como sua moeda. Isso implica que não temos um histórico suficientemente amplo de eleições e uma moeda com um passado longo o bastante para avaliar com profundidade o impacto das eleições na taxa de câmbio.

Entretanto, observamos que, nas últimas seis eleições presidenciais, o real apresentou uma depreciação média de 16,8% nos seis meses que antecederam o primeiro turno. Esse dado é alarmante, mas muda de forma significativa quando excluímos a eleição de 2002 dos cálculos. Considerando apenas os demais anos, a depreciação média cai para 8,2% no mesmo período. Essa exclusão não deve ser vista como manipulação estatística, mas sim como uma abordagem racional na interpretação do contexto econômico.

Em 2002, o Brasil vinha enfrentando reservas baixas, uma dívida externa elevada e uma moeda nova, com um histórico ainda recente de controle da inflação e um prêmio de risco que disparou. O cenário econômico na época era muito mais frágil. Usar 2002 como referência para 2026 parece, thus, não ser o melhor caminho. Em anos como 2006 e 2010, houve até mesmo valorização do real; já em 2018, na aproximação das eleições, a moeda se fortaleceu.

Portanto, embora exista um “efeito eleitoral”, não se trata de uma regra rígida. Hoje, não há dados estatísticos que garantam uma afirmação sólida sobre a performance do dólar.

Aspecto 2: O Ciclo do Dólar Global

Outro aspecto que os investidores frequentemente desconsideram é a realidade do dólar no cenário internacional. Durante diversos períodos eleitorais, o DXY — um índice que mede o valor do dólar em relação a uma cesta de moedas desenvolvidas — também se fortalecia. Essa dinâmica global é uma explicação significativa para a valorização do dólar em relação ao real, podendo ser até mais impactante do que os ciclos eleitorais.

Em alguns anos, como foi o caso mencionado, até metade do ano, o real figurava como a segunda moeda que mais se valorizava em relação ao dólar entre as principais divisas. Essa valorização se justifica por diversos fatores, entre eles, uma balança comercial positiva, diferenciais de juros elevados e um índice do dólar que não apresentava força significativa.

Além disso, o real se comporta, em muitas circunstâncias, como uma “commodity currency” — uma moeda cuja performance está intimamente conectada aos termos de troca da economia. Quando a balança comercial se mantém forte e há entrada de dólares no comércio, isso proporciona um amortecedor para a moeda. Os termos de troca do Brasil, especialmente em relação ao petróleo e a commodities agrícolas, têm se mostrado favoráveis.

Outra fonte de suporte para o real é o diferencial entre taxas de juros. Durante parte do último ano, a Selic estava em 14% enquanto o juro norte-americano rondava 3,50%, criando um gap nominal considerável que favorece a atratividade do investimento estrangeiro.

Por fim, em 2025, o cenário global registrou um dólar mais fraco, refletindo uma das piores performances dessa moeda em várias décadas. Contudo, em 2026, essa situação parece ter se modificado, com indícios de uma inversão dessa tendência. Com o dólar recuando 11% em 2025 e apenas 5% em relação ao real neste ano, observou-se uma mudança nos fluxos financeiros com o dólar voltando a se fortalecer — o índice de valorização aumentou cerca de 3% no ano.

Podemos concluir que, embora as eleições tenham um efeito sobre a taxa de câmbio, os fundamentos econômicos e a dinâmica do dólar global devem ser avaliados por sua relevância igualmente importante.

Aspecto 3: Vulnerabilidade das Contas Públicas

Um fator de preocupação que tem relevância direta no preço do dólar é o cenário fiscal interno. A dívida bruta do governo geral aumentou de 74,4% do PIB no final de 2023 para 82% em julho de 2026, com projeções que apontam para uma possibilidade de alcançar 100% do PIB em 2035.

Nesse contexto, o Brasil já se encontra mais endividado do que a média dos países emergentes, e o Fundo Monetário Internacional (FMI) apontou que a dívida brasileira deve crescer a um ritmo mais acelerado do que a de seus pares nos próximos anos.

É verdade que outros países convivem com dívidas semelhantes, mas o cenário brasileiro é alarmante por não se tratar apenas do volume da dívida, mas também dos custos de financiamento e da trajetória dessa dívida.

O juro real de 10 anos, uma métrica crucial para o consumo e para o financiamento das atividades econômicas, se mantém elevado, ultrapassando 7%. Isso significa que a rolagem de uma dívida tão elevada gera custos significativos. Além disso, o crescimento do PIB brasileiro está abaixo do esperado, com projeções de cerca de 2%.

Para estabilizar essa dívida, seria necessário alcançar um superávit primário considerável, algo em torno de 4% do PIB. Estamos, então, em um cenário em que, para conter o crescimento da dívida e reverter a situação fiscal preocupante, seria essencial reduzir tanto o tamanho da máquina pública quanto os gastos.

Os números atuais não são encorajadores, uma vez que os resultados primários têm sido déficits constantes, mesmo com tentativas sucessivas de aumentar a arrecadação. Apenas como referência, o resultado nominal chegou a 10% do PIB em julho, pressão originada pelos gastos com juros. No entanto, o governo atual lançou um pacote de medidas que soma aproximadamente R$ 200 bilhões, incluindo crédito, programas sociais, isenções e renegociações.

Independentemente do mérito político de cada uma dessas iniciativas, a mensagem que é transmitida ao mercado é que a restrição orçamentária não é uma prioridade na campanha eleitoral. O tema fiscal parece estar longe dos debates e das propagandas dos candidatos.

A composição das despesas reforça esta preocupação. Grande parte das obrigações financeiras do governo se destina a benefícios previdenciários, pessoal e encargos sociais, deixando uma redução significativa nas despesas discricionárias. Aumento da carga tributária, que já é elevada, sem a reforma nas despesas somente poderá resultar em ganhos de credibilidade limitados.

A situação fiscal ajuda a entender a taxa de juros elevada, a expectativa de inflação desancorada e a curva de juros que não considera cortes relevantes no futuro. Portanto, a taxa de juros que dá sustentação ao real no curto prazo é, em parte, o custo da desconfiança fiscal.

Diversos caminhos podem ser seguidos, seja através de ajustes na receita, ajustes graduais nos gastos, ajustes rápidos nas despesas ou simplesmente mais gastos; cada ação terá impactos distintos no crescimento, na inflação e, principalmente, na taxa de câmbio.

A eleição passa, a conta fiscal fica.

De fato, a moeda brasileira é estruturalmente vulnerável a choques, tanto externos quanto internos. Quando se juntam a vulnerabilidade fiscal, institucional e a falta de credibilidade interna, com um cenário internacional complexo, isso pode provocar repercussões severas: a situação deixa de ser cíclica e passa a ser uma crise. A eleição de 2026 é apenas um dos próximos eventos que podem evidenciar essa vulnerabilidade.

O que ocorreu em 2014 serve como um alerta, pois a depreciação significativa da taxa de câmbio aconteceu meses após a eleição, em decorrência de uma política econômica inconsistente. Esse exemplo demonstra que, mais do que o próprio pleito, o que realmente impacta a taxa de câmbio é a forma como o novo governo eleito reagirá à restrição fiscal.

Aqueles que consideram aguardar pela cotação “ideal” do dólar para realizar transferências internacionais devem refletir sobre três questões práticas.

Primeiramente, não é aconselhável transformar pesquisas de opinião ou resultados eleitorais em estratégias de câmbio. Enquanto placares e governos podem mudar, as restrições orçamentárias e as deficiências fiscais permanecem constantes.

Em segundo lugar, um real fortalecido em um ano eleitoral deve ser encarado como uma oportunidade para diversificação e para aproveitamento das condições do mercado global. O alto carry e o fluxo positivo podem descrever a situação presente, mas não garantem que o risco Brasil foi eliminado, nem que os problemas estruturais foram superados.

Por fim, recomenda-se a disciplina nos aportes feitos de forma recorrente, considerando que prever cenários futuros é uma tarefa complicada. O estudo “Ir para o exterior é fundamental” da FGVcef indica que, em todas as 80 janelas de dez anos desde 2010, a estratégia de aportes mensais constantes superou a tentativa de escolher o melhor momento para o investimento, oferecendo uma diferença mediana de 10,1 pontos percentuais em relação a investimentos em ações nos EUA e 2,8 pontos em crédito privado.

Esses dados evidenciam que os investimentos internacionais não são diretamente determinados por resultados eleitorais, mas sim pela disciplina necessária para proteger o patrimônio contra a combinação crônica de choques externos e fragilidades internas. A eleição de outubro resolverá um placar, enquanto o comportamento do dólar responderá a uma questão diferente: o próximo governo tratará a dívida como uma restrição ou como um detalhe? Essa resposta, historicamente, tem se mostrado mais relevante para as oscilações da taxa de câmbio do que o resultado das eleições.

Fonte: www.estadao.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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