As mulheres brasileiras enfrentam um paradoxo financeiro. Embora tenham aumentando sua presença no mercado de trabalho e demonstrem um interesse crescente por investimentos, elas também constituem a maioria entre os inadimplentes do país. De acordo com o Mapa da Inadimplência da Serasa, a participação feminina entre os endividados atingiu 50,51% em 2026, o que representa 40,4 milhões de mulheres com restrições em seus nomes. Em 2016, a participação feminina era de 49,76% do total de inadimplentes.
Por outro lado, a presença de mulheres no mercado de investimentos ainda é inferior à dos homens. Segundo a 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, realizado pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), 31% das mulheres no Brasil já são investidoras, em contraste com 41% dos homens.
### O cenário financeiro feminino
Maria Helena Válio, CEO e fundadora da Women Invest, uma iniciativa criada em 2019 com o objetivo de aproximar mulheres do universo dos investimentos, argumenta que é necessário abordar cada vez mais o tema financeiro com o público feminino. Segundo ela, as mulheres estão buscando entender mais sobre finanças pessoais, mas enfrentam um mar de ofertas de consumo. “Eu vejo muito em conversas, até com as meninas mais jovens. Como é que eu lido com isso, entre investir, cuidar do meu dinheiro e comprar e consumir?”, explica.
### O gasto invisível do cuidado
A análise da inadimplência entre as mulheres vai além das escolhas de consumo individuais. O estudo intitulado “Elas pagam a conta”, elaborado pelo Think Olga, destaca o acúmulo de responsabilidades que recaem sobre as mulheres, que equilibram empregos formais com a economia do cuidado e frequentemente assumem a responsabilidade principal ou única pelo orçamento familiar.
De acordo com Dirlene Silva, economista e educadora financeira, existe um “gasto invisível” relacionado à administração do lar. “Mesmo quando o casal divide as despesas, muitas vezes é a mulher quem, no cotidiano, paga pelo material escolar extra, o dinheiro para festas na escola, o presente do aniversário do coleguinha do filho, ou pelo gás que acabou. São despesas pequenas, recorrentes e necessárias, mas que geralmente não aparecem quando discutimos a divisão das contas”, observa Dirlene.
Essa realidade revela, segundo a especialista, que a dívida de uma mulher não necessariamente surge de decisões de consumo impulsivas, mas sim da necessidade de manter o lar funcionando, cuidar dos filhos ou lidar com emergências. “É um equívoco olhar para uma mulher inadimplente e perguntar apenas: ‘Onde ela errou?’. A pergunta deve ser: ‘O que ocorreu na vida financeira dessa mulher?’”, sugere.
Os dados da Anbima corroboram a fragilidade financeira entre as mulheres. Entre as investidoras, 27% afirmam que gastam mais do que ganham mensalmente e 47% se encontram em uma situação de equilíbrio, com despesas equivalentes aos ganhos. Apenas 36% delas têm reservas financeiras suficientes para cobrir despesas durante seis meses ou mais.
### Uma questão geracional
Segundo especialistas, parte do problema se origina na infância. Dirlene Silva aponta que as meninas, muitas vezes, são ensinadas a serem cautelosas em relação aos gastos e a cuidarem do lar, enquanto os meninos são incentivados a buscar conquistas, correr riscos e aumentar a renda. O estudo do Think Olga afirma que até as recomendações sobre educação financeira podem apresentar expectativas diferentes para homens e mulheres; enquanto para elas é sugerido cortar despesas, a orientação para eles é aumentar ganhos e assumir riscos.
Maria Helena Válio, da Women Invest, concorda que a abordagem é problemática, mas observa que muitas meninas nem chegam a ser apresentadas à necessidade de ganhar, poupar e administrar seu próprio dinheiro, devido à presença constante de um provedor. “O dinheiro não cai do céu. O momento da verdade chega quando você quer comprar algo e percebe que não tem dinheiro para isso”, afirma. Ela identifica a origem do problema como cultural e geracional.
Essa herança cultural também se reflete na autopercepção. “A primeira barreira é interna, onde a pessoa pensa: ‘Eu não entendo disso, eu não sei fazer’. É necessário promover a conscientização de que é possível aprender”, diz Maria Helena. Ela observa que ainda persiste o estigma de que finanças são um assunto muito complexo, do qual as mulheres não precisam se preocupar.
### Aprenda antes da dor
Um dos alertas de Maria Helena é que muitas mulheres só se interessam por finanças em momentos de crise, como divórcios ou a necessidade de resolver questões financeiras após o falecimento de um marido. Independentemente de serem provedoras ou não, ela defende que todas as pessoas precisam cuidar do dinheiro. “Ou você aprende a se preocupar com isso, ou aprende da maneira difícil, quando perde a pessoa que estava cuidando disso para você”, destaca.
Além disso, a falta de engajamento financeiro pode abrir as portas para a violência patrimonial, na qual a mulher descobre dívidas inesperadas ou fraudes cometidas pelo próprio companheiro. Dirlene Silva ressalta que, embora os dados da Serasa não comprovem que esse tipo de violência explique o aumento da inadimplência entre as mulheres, essa questão se torna relevante ao se discutir a autonomia econômica.
Para Maria Helena, o caminho para um futuro financeiro mais saudável passa pela educação financeira e pela capacidade de exigir participação nas decisões financeiras. “O poder só vem com o controle do dinheiro. Sem controle financeiro, o poder não se sustenta”, enfatiza.
### As investidoras amadureceram
Apesar dos desafios a serem enfrentados, existem sinais de avanço na relação das mulheres com o dinheiro. Segundo Maria Helena, as perguntas feitas pelas participantes da Women Invest evoluíram significativamente ao longo dos anos. “Quando começamos em 2019, elas questionavam quanto precisavam ter em uma reserva de emergência, ou como iniciar os investimentos. Agora, as conversas são mais profundas, como sobre investimentos no exterior”, relata.
A diversificação dos investimentos das mulheres também se torna evidente nos dados. Embora a poupança ainda seja utilizada por 69% das investidoras, essa porcentagem caiu 14 pontos percentuais desde 2021. Nesse mesmo período, o uso de títulos privados cresceu para 16% e de fundos de investimento para 10%. Por outro lado, moedas digitais, ações e títulos do Tesouro Direto compõem 7%, 3% e 4% do portfólio delas, respectivamente.
Entretanto, ainda existem obstáculos. Segundo a Anbima, 40% das investidoras priorizam ganhos imediatos e total liquidez, mesmo que isso implique rentabilidade inferior. Somente 8% mencionaram a reserva para a aposentadoria, em comparação a 13% dos homens.
Maria Helena Válio vê no perfil financeiro feminino uma vantagem para o longo prazo. “As mulheres não precisam assumir riscos desnecessários e não têm a necessidade de mostrar aos outros que ganharam dinheiro com isso ou com aquilo. E, ao não agitar tanto a carteira, acumulam mais patrimônio a longo prazo”, conclui.
### Geração Z também busca investir
A aposta de Maria Helena em relação às mulheres mais jovens está centrada na educação. Durante o congresso mais recente da Women Invest, mais de 200 jovens da geração Z se inscreveram, com ingressos gratuitos. “Quanto mais você se educa sobre um tema, melhores decisões você consegue tomar”, afirma. Ela ressalta a importância do papel das famílias e de outras mulheres na promoção dessa conscientização.
Mesmo com a transição entre gerações, o interesse em gerir as finanças tem se mantido elevado. De acordo com a Anbima, 37% das mulheres entrevistadas planejam investir em 2026, grupo que inclui 12% de mulheres que ainda não investem, mas pretendem começar. Para Maria Helena, o cenário atual é mais acessível do que nunca. “As instituições estão, de fato, ajudando a aprender sobre investimentos. Não é mais uma tarefa complicada”, afirma.
Fonte: borainvestir.b3.com.br
