A estratégia de investimento da Kinea para o período eleitoral
Visão geral da abordagem da Kinea
A Kinea Investimentos acredita que esperar o resultado das eleições antes de decidir onde investir é uma estratégia errada. Para o período eleitoral, a gestora elaborou uma seleção de ações que busca combinar empresas com resiliência a taxas de juros elevadas e aquelas que podem se valorizar caso o próximo governo avance com ajustes nas contas públicas.
Expectativas e planejamento
Em um relatório divulgado na quinta-feira, dia 17, a Kinea defende que os preços dos ativos começam a refletir as expectativas relacionadas à eleição muito antes da divulgação dos resultados. Assim, ao invés de gerar apostas em um desenlace político, a recomendação é buscar empresas que façam sentido tanto em um cenário de recuperação fiscal quanto de manutenção da pressão sobre as contas do governo.
De acordo com a Kinea, a expectativa para o cenário futuro leva em consideração o fato de que a tentação natural dos investidores é aguardar por definições antes de montar suas carteiras de investimento. “Essa é a única alternativa que sabemos estar errada”, comenta a gestora.
Posicionamento antes da decisão eleitoral
Posicionar-se antes do resultado das eleições não implica necessariamente em escolher um lado, mas sim em criar uma carteira que faça sentido em ambos os resultados possíveis. No caso do próximo governo implementar uma agenda sustentável de controle de gastos, a Kinea prevê que o mercado volte a acreditar na trajetória da dívida, com uma possível acomodação da taxa de juro real de longo prazo. Isso poderia, por sua vez, resultar em uma redução na taxa de desconto das empresas na Bolsa, estimulando o crescimento dos lucros e destravando o crédito, favorecendo o consumo.
Por outro lado, na hipótese de não haver um ajuste fiscal, a elevação dos gastos sem controle levaria o mercado a continuar duvidando da trajetória da dívida. Nesse cenário, a taxa do Tesouro IPCA+ de longo prazo poderia ultrapassar 9% ao ano, resultando na compressão dos múltiplos das empresas, corroendo o resultado das companhias endividadas e mantendo o crédito em situação restrita.
Seleção de ações para diferentes cenários
Ao escolher as ações para sua carteira que se adapta a esses dois cenários, a Kinea opta por companhias que apresentam geração de caixa robusta e um crescimento previsível dos lucros. A gestora também pretende capturar a assimetria nos setores que foram mais penalizados devido ao prolongado ciclo de juros altos, acreditando que essas ações, com preços pressionados, têm um grande potencial de valorização caso o Brasil avance em direção a uma agenda de ajuste fiscal.
A avaliação da Kinea sobre a Bolsa brasileira
A Bolsa em termos de valuation
A Kinea faz referência ao famoso livro “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, de Douglas Adams, ao analisar a situação da Bolsa brasileira. Em seu relatório, a gestora observa que apesar de a Bolsa parecer barata em quase todas as métricas conhecidas, essa percepção simples pode ser enganadora, assim como o viajante que não compreende as regras da galáxia.
O Ibovespa, índice de referência da Bolsa, está sendo negociado próximo a 8 vezes os lucros projetados, enquanto a média histórica se aproxima de 10 vezes. No entanto, a Kinea alerta que essa aparente barateza da Bolsa se estende por um tempo suficiente para que essa resposta tenha perdido o sentido.
Prêmio de risco e crescimento dos lucros
Ao analisar o prêmio de risco – que indica quanto o investidor pode ganhar ao optar pela incerteza de uma empresa em vez da segurança de um título público – a gestora observa que essa métrica, atualmente em 3,6 pontos, está inferior à média histórica de 4,9 pontos.
Além disso, ao considerar os resultados de longo prazo, desde 2010, o crescimento médio anual do lucro do Ibovespa em dólares é de apenas 2,6%. Segundo a Kinea, quem investiu no Brasil buscando um retorno baseado no lucro não obteve resultados satisfatórios em termos de crescimento composto, mas sim a partir de estratégias que acertaram os momentos de compra e venda, colocando o Brasil como um ativo de timing.
Ações para defesa e potencial de recuperação
Setores selecionados pela Kinea
Para a formação da carteira destinada ao período anterior ao resultado das eleições, a Kinea selecionou um primeiro bloco que inclui o setor de utilities, especificamente empresas atuantes em energia e saneamento, como a Sabesp (SBSP3) e a Eneva (ENEV3). A escolha dessas empresas se deve ao fato de que seus negócios são considerados defensivos, sustentados por concessões de longa duração, monopólios naturais e receitas indexadas.
O segundo grupo da carteira é composto por empresas do setor de construção voltadas para a baixa renda, que crescem sustentadas pelo programa Minha Casa, Minha Vida. Esse programa possui taxas de juros fixadas conforme a faixa de renda, e os subsídios do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) ajudam a reduzir a exposição da demanda em relação às oscilações das taxas de juros no mercado.
Além disso, a Kinea identifica o setor bancário como um segmento de “oportunidades comprimidas”, que poderia se beneficiar de eventuais quedas nas taxas de juros, caso ocorra um ajuste fiscal. Esse mesmo grupo inclui também os setores industrial e de varejo, que estão sendo considerados em sua análise de potenciais investimentos.
Fonte: www.estadao.com.br
