O debate em torno da proibição das apostas esportivas no Brasil trouxe à tona uma questão mais ampla: até que ponto as apostas são responsáveis pelo endividamento das famílias brasileiras? Para Carlos Akira Sato, especialista em Mercados Regulados, a resposta é clara: as apostas não são a causa principal do problema.
Sato argumenta que o endividamento da população brasileira é um fenômeno que precede o surgimento do setor de apostas esportivas. Segundo ele, atribuir exclusivamente às apostas a responsabilidade pela situação financeira das famílias é uma simplificação que ignora fatores históricos e estruturais.
Endividamento tem raízes na estabilização econômica
Para Sato, o problema começou a se manifestar a partir do momento em que houve a estabilização econômica no Brasil. Nessa fase, as classes C e D passaram a ter acesso ao consumo de bens que antes lhes eram inacessíveis, como eletrodomésticos.
“Foi uma introdução ao consumo sem uma educação financeira prévia”, afirmou o especialista. Essa combinação de acesso ao crédito e a ausência de preparo financeiro teria lançado as bases para o endividamento crônico que persiste até os dias atuais.
O especialista também destacou que outros setores baseados em tecnologia, como redes sociais, serviços de streaming e plataformas de e-commerce internacionais, contribuem para agravar essa problemática. “A gente tem uma série de componentes de consumo que ajudam a agravar a situação de endividamento. Então, não é um fenômeno exclusivamente de culpa das apostas”, pontuou Sato.
Bets pioram o quadro, mas não são a origem
Ainda que reconheça o impacto negativo das apostas, Sato ressaltou que novos setores baseados em tecnologia possuem “um potencial de piorar um pouco essa questão do endividamento”, sem, no entanto, serem a única causa do problema.
A avaliação foi compartilhada por outros participantes do programa, que reforçaram que o endividamento das famílias brasileiras envolve uma multiplicidade de fatores, incluindo a taxa de juros, a flutuação do câmbio e a ampla distribuição de cartões de crédito.
A âncora da CNN, Thais Herédia, destacou que as apostas “certamente se transformaram em um ralo de dinheiro do orçamento”, mencionando o fato de que muitas pessoas chegaram a utilizar cartão de crédito para honrar suas apostas, gerando uma bola de neve de inadimplência.
O uso do cartão de crédito foi citado como a maior categoria de inadimplência entre as famílias atualmente. Além disso, foi mencionado o risco de que a proibição das apostas possa levar parte dos apostadores para plataformas ilegais, sem que o endividamento estrutural seja efetivamente abordado e resolvido.
Fonte: www.cnnbrasil.com.br
