Fabiano Campos Zettel e suas atribuições na organização criminosa
Preso após se entregar espontaneamente à Superintendência da Polícia Federal em São Paulo por volta das 9h30 desta quarta-feira (4), Fabiano Campos Zettel é identificado pelos investigadores como o operador financeiro da organização criminosa associada ao Banco Master.
Zettel é pastor da Igreja Lagoinha, empresário e casado com Natália Vorcaro, irmã do banqueiro Daniel Vorcaro. De acordo com a decisão do ministro do STF André Mendonça, Zettel era o responsável por garantir que o dinheiro chegasse a cada membro do esquema – desde a milícia privada que ameaçava jornalistas até os servidores corruptos no Banco Central.
No momento em que se entregou à polícia, a defesa do acusado afirmou que, “apesar de não ter tido acesso ao objeto das investigações, Fabiano está à inteira disposição das autoridades.” As mensagens de WhatsApp mencionadas na decisão de Mendonça revelam um cenário diferente.
A atuação de Zettel no esquema
Vorcaro dava as ordens. Mourão executava as ações. Zettel era o responsável pelos pagamentos. Ele mantinha a estrutura financeira do grupo funcionando, disponibilizando mensalmente cerca de R$ 1 milhão que era transferido das empresas do grupo para a conta da King Empreendimentos Imobiliários, empresa controlada por Luiz Phillipi Mourão, designado pelo apelido de “Sicário”. Caso o pagamento se atrasasse, Mourão cobrava diretamente de Vorcaro.
Uma das mensagens trocadas ilustra essa situação:
“Bom dia. O Fabiano não mandou este mês e a turma está perguntando. Dá uma olhada com ele por favor.”
Com esses recursos financeiros, Mourão assegurava os pagamentos aos integrantes de “A Turma”, oferecendo R$ 75 mil mensais a cada um dos “meninos”, além de sua própria remuneração e bônus eventuais autorizados por Vorcaro. Os fundos eram utilizados para espionar jornalistas, acessar ilegalmente sistemas da PF, do MPF, da Interpol e do FBI, e também para intimidar qualquer pessoa que cruzasse o caminho do banqueiro.
A funcionária Ana Claudia Queiroz de Paiva era encarregada de confirmar cada pagamento antes de efetuar as transferências. A comunicação seguia um padrão específico:
Ana Claudia: “Vai ser 1 mm como normalmente?”
Vorcaro: “Sim.”
Após a confirmação, Ana Claudia realizava a transferência e anexava o comprovante de R$ 1 milhão na conta indicada por Mourão.
A propina destinada aos servidores do Banco Central
Zettel tinha também a função de remunerar Paulo Sérgio Neves de Souza e Bellini Santana, dois servidores do Banco Central que atuavam de forma informal como consultores de Vorcaro dentro da própria autarquia, que deveria fiscalizar.
Para tal, a organização desenvolveu um contrato fictício entre a empresa Varajo Consultoria Empresarial e Bellini Santana, que supostamente deveria participar de um estudo técnico sobre inserção de jovens no mercado financeiro. Contudo, esse estudo nunca ocorreu, conforme afirma o despacho de Mendonça.
As mensagens trocadas entre os envolvidos documentam o esquema de maneira clara:
Zettel: “Hoje tem que pagar a primeira do Belline, ok?”
Vorcaro: “OK.”
Após essa comunicação, Vorcaro se preocupa com o rastreamento dos processos e diz:
Vorcaro: “Mas veja se Leo pode pagar. E reembolsamos dia seguinte. Bem importante isso.”
Zettel: “Na verdade ia pagar Léo e Léo pagar ele. Mas peço ele pra pagar primeiro.”
Esse planejamento visava introduzir uma terceira pessoa entre o pagamento e os servidores, adicionando uma camada de complexidade para dificultar o rastreamento da propina.
Zettel: “Belline cobrando. Paga?”
Vorcaro: “Claro.”
Os crimes imputados a Zettel e suas consequências
Os delitos atribuídos a Zettel por Mendonça incluem corrupção ativa, conforme o artigo 333 do Código Penal, com pena de 2 a 12 anos, participação em organização criminosa, segundo a Lei 12.850/2013, com pena de 3 a 8 anos, e lavagem de dinheiro conforme a Lei 9.613/1998, com pena de 3 a 10 anos.
Somando as penas, o total pode ultrapassar três décadas em caso de condenação por múltiplos crimes.
Mendonça decretou a prisão preventiva de Zettel com base em três razões principais: a importância de Zettel na estrutura financeira da organização, a continuidade do esquema mesmo após a primeira prisão de Vorcaro em novembro de 2025, quando Zettel continuou operando, e o risco de fuga, evidenciado pela ausência de Zettel em casa no momento da execução do mandado judicial.
Fonte: timesbrasil.com.br