Falecimento do Banqueiro Carlos Eduardo Quartim Barbosa
O banqueiro Carlos Eduardo Quartim Barbosa, conhecido como Charlô, faleceu aos 98 anos no último dia do ano de 2025. Ele foi um destacado administrador do Banco do Comércio e Indústria de São Paulo (Comind), um dos maiores bancos privados do Brasil até a década de 1980.
Aposentadoria e Papel Central na Disputa pelo Controle
Após a morte de seu pai, Teodoro Quartim Barbosa, que havia sido presidente e um dos principais acionistas do Comind, Charlô teve um papel central na disputa pelo controle acionário da instituição. O sepultamento de Charlô ocorreu no cemitério da Consolação, na cidade de São Paulo.
Além de sua atuação no setor bancário, Charlô se destacou como pecuarista e foi um dos responsáveis pela introdução e consolidação da raça bovina Brahman no Brasil.
Gestão do Comind e Conflitos Internos
Com o falecimento de Teodoro em 1968, a gestão do Comind foi assumida por um consórcio, a Stab (Serviços Técnicos de Administração de Bens Ltda.), da qual Charlô detinha cerca de 20% das ações, a maior parcela. Porém, ele enfrentou concorrência de outros acionistas na administração do banco. Entre os adversários estavam figuras proeminentes como Paulo Egydio Martins, que viria a governar São Paulo entre 1975 e 1979, Gastão Vidigal, proprietário do Banco Mercantil, e a família Ermírio de Moraes, dona da Votorantim.
Intervenção Federal e Liquidação Extrajudicial
A disputa acionária levou o Comind à intervenção federal e, posteriormente, à liquidação extrajudicial pelo Banco Central (BC) em 1985. Críticos apontaram a má gestão de Charlô como uma das causas para a quebra do banco, enquanto o administrador creditava o desfecho a projetos de vingança pessoal de seus concorrentes.
O Banco Central, na época, informou que a instituição apresentava “problemas em sua estrutura de ativo/passivo”, relacionados à concessão de “empréstimos de difícil recuperação”, o que comprometeu seu patrimônio líquido e ocasionou “graves violações às normas vigentes”.
Consequências e Reunião do Conselho Monetário Nacional
A crise no Comind resultou em um rombo estimado em 6,8 trilhões de cruzeiros, levando a uma reunião de emergência do Conselho Monetário Nacional em 19 de novembro de 1985, cujo objetivo era referendar a liquidação do banco. Na mesma reunião, o órgão decidiu extinguir também os grupos Auxiliar e Maisonnave.
Os indicadores mostraram que as instituições financeiras desses grupos continuavam a enfrentar dificuldades de solvência insuperáveis a curto prazo, devido a um elevado nível de operações de crédito inadimplentes. Além disso, foram descobertas práticas de irregularidades graves, conforme declarado pelo BC.
Estrutura dos Problemas e Intervenção Governamental
Os problemas nos três grupos empresariais eram considerados estruturais, “inerentes ao quadro de insolvência subjacente”, conforme afirmou o Banco Central. Para os administradores, as propostas para solucionar as dificuldades exigiam sempre “participação substancial de dinheiro público, em condições subsidiadas”.
A medida de liquidação foi o capítulo final de um processo de instabilidade financeira que durou mais de três anos, durante o qual o governo, tanto o atual quanto o anterior, injetou Cr$ 3,3 trilhões nesses grupos em forma de socorro, segundo reportagens da época.
Depoimento e Polêmicas Relacionadas ao Caso
Anos depois, em depoimento à 3ª Vara da Justiça Federal de São Paulo, Charlô externou sua contrariedade em relação à liquidação do banco. A primeira grande polêmica em torno da disputa acionária surgiu em novembro de 1977. Na ocasião, Gastão Vidigal, presidente do Banco Mercantil, tentou adquirir 14% das ações do Comind pertencentes a José da Silva Gordo e Edgar Queiros Ferreira. A compra das 39,3 milhões de ações, ao preço unitário de Cr$ 4,04, foi suspensa de última hora pelo Conselho de Administração da Bolsa de Valores, após solicitação do Banco Central.
Acusações e Manutenção das Disputas até a Quebra
No final de 1980, o Comind, sob a presidência de Charlô, foi processado pelo Grupo Votorantim, que possuía 7% do capital votante do banco e 23% da Stab. O grupo alegou “atitude abusiva, com indisfarçáveis segundas intenções e que culmina uma série de atos irreguladores praticados pela administração”. A disputa persistiu até a eventual quebra da instituição.
Fonte: www.moneytimes.com.br