FIDCs ultrapassam R$ 1 trilhão enquanto aumento da inadimplência requer mais cuidado com os riscos

FIDCs ultrapassam R$ 1 trilhão enquanto aumento da inadimplência requer mais cuidado com os riscos

by Editoria Bolsa e Mercado
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Crescimento dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios

Os fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) superaram, pela primeira vez, a marca de R$ 1 trilhão em patrimônio líquido. De acordo com um levantamento realizado pelo Valor Data, que se baseou nas informações da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a indústria alcançou um total de R$ 1,015 trilhão em julho de 2023, representando um crescimento de 16,3% nos últimos 12 meses. Esse crescimento, no entanto, ocorre em um cenário em que os principais indicadores de risco dos fundos têm apresentado avanço.

Aumento das Provisões e Créditos em Atraso

As provisões para perdas relacionadas à inadimplência registraram um aumento de 40,8% durante o período analisado, subindo de R$ 46,1 bilhões para R$ 64,9 bilhões. Além disso, os créditos com atrasos superiores a 90 dias mostraram um aumento de 62%, atingindo R$ 7,5 bilhões. Essa elevação nas provisões é significativa quando comparada ao tamanho das carteiras, já que a proporção das provisões em relação à carteira bruta de direitos creditórios passou de 7,3% para 8,3%. É importante ressaltar que o levantamento excluiu os fundos que têm como foco a aquisição de créditos já vencidos, conhecidos como Non-Performing Loans (NPLs). Apesar dessa exclusão, o percentual de risco permaneceu praticamente estável fora desse segmento, indicando que o aumento nos indicadores de risco não se limita apenas à inadimplência.

Contexto de Crescimento dos FIDCs

A expansão dos FIDCs acelerou a partir de 2025, em um ambiente caracterizado pela concessão de crédito mais restritiva por parte das instituições financeiras. Nos últimos 12 meses, a carteira bruta de direitos creditórios dos fundos cresceu 22,8%, passando de R$ 634,4 bilhões para R$ 779,2 bilhões. Essa taxa de crescimento foi, aproximadamente, três vezes superior ao aumento de 7% registrado pelo crédito bancário com recursos livres no mesmo período.

Ricardo Rochman, professor de finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV), observa que parte do crédito tem migrado dos bancos para os fundos, que oferecem maior flexibilidade na estruturação de operações. Contudo, Rochman alerta que algumas carteiras podem estar assumindo riscos mais elevados em um cenário de juros altos e aumento do endividamento de famílias e empresas.

Visões da Indústria sobre os Atrasos

Representantes da indústria financeira têm uma perspectiva mais otimista. Samuel Garson, presidente da Associação Nacional dos Participantes em Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (Anfidc), afirma que o crescimento dos atrasos não configura um cenário alarmante. Ele destaca a diversidade das carteiras como um fator que pode diminuir o impacto das perdas. Marcelo Michaluá, sócio fundador e co-CEO da RB Asset, argumenta que as estruturas de subordinação dos fundos podem absorver uma parte significativa de possíveis inadimplências.

Mecanismos de Distribuição de Risco nos FIDCs

A estrutura de cotas é um dos principais mecanismos utilizados pelos FIDCs para distribuir os riscos entre os investidores. As cotas seniores têm prioridade no recebimento, enquanto as subordinadas absorvem primeiro eventuais perdas. Em uma carteira com uma perda esperada de 2%, por exemplo, uma maior quantidade de cotas subordinadas pode ser utilizada para criar uma camada de proteção para os investidores das classes superiores.

Desafios na Avaliação dos FIDCs

A diversidade entre as carteiras dos FIDCs, no entanto, torna difícil a adoção de uma avaliação única para toda a indústria. Os FIDCs podem investir em diferentes tipos de direitos creditórios, que vão desde empréstimos consignados, considerados de menor risco, até financiamentos destinados a devedores com maior probabilidade de inadimplência e ativos já inadimplentes. A falta de uma padronização ampla nos critérios de avaliação de crédito e a quantidade limitada de fundos que possuem classificação de agências de rating também tornam a comparação entre as estruturas bastante complexa.

Necessidade de Transparência e Normas Regulamentares

Neste contexto, a transparência emerge como um dos principais pontos de atenção para a próxima fase de crescimento do segmento. Eduardo Solamone, diretor de relações com investidores da Sol Agora, defende a necessidade de uma maior harmonização das regras de provisionamento e a adoção de critérios mais uniformes entre os veículos de investimento. Segundo Solamone, a redução da subjetividade nas avaliações poderia aumentar a confiança e melhorar a comparação entre diferentes FIDCs.

Com o crescimento do mercado, os reguladores também estão ampliando sua fiscalização. A Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) criou um grupo de trabalho para discutir possíveis mudanças na autorregulação e publicou orientações sobre metodologias de provisão para devedores considerados duvidosos. O Conselho Monetário Nacional (CMN) recentemente endureceu as regras para algumas aquisições de créditos e as expectativas de direitos relacionados a processos judiciais e arbitrais.

Considerações Finais sobre Investimentos em FIDCs

Apesar do crescimento substancial da indústria, o tamanho alcançado pelos FIDCs não elimina as diferenças de risco entre os fundos. Christopher Galvão, sócio e analista da Nord Investimentos, ressalta que a baixa liquidez do mercado secundário pode dificultar a saída de algumas posições. A análise de cada FIDC requer uma consideração aprofundada da qualidade dos créditos, do nível de subordinação, das garantias, da concentração da carteira e dos critérios adotados para reconhecer as possíveis perdas.

Fonte: br.advfn.com

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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