Franklin Templeton Reforça Postura Conservadora em Investimentos
A gestora de fundos Franklin Templeton, que possui R$ 49 bilhões sob sua administração, decidiu eliminar sua exposição a ativos de infraestrutura e optou por não investir em crédito diretamente relacionado ao agronegócio. Essas escolhas refletem uma abordagem mais conservadora da gestora, em resposta à demanda dos investidores por maior remuneração em relação ao risco, ao cenário de juros altos e aos riscos associados ao crédito.
Desinvestimento em Infraestrutura
Conforme declarações de Adriano Casarotto, gestor da Franklin Templeton, a gestora desfez a maior parte de seus ativos de infraestrutura durante o quarto trimestre de 2025 e no primeiro trimestre de 2026. Em números, aproximadamente R$ 200 milhões foram vendidos em serviços onde havia liberdade para reduzir essa exposição. Para Casarotto, quando os spreads, que representam os prêmios cobrados pelo risco em relação a um título de referência, estão muito baixos, é um momento adequado para desinvestir. Mesmo após a recuperação dos spreads, a Franklin Templeton ainda não retornou a esse segmento.
A gestora mantém ativos de infraestrutura apenas em produtos com regulamentos que exigem esse tipo de alocação, como fundos dedicados à inflação ou à infraestrutura. Porém, em produtos direcionados ao público geral que permitiam uma alocação estratégica nessa classe, a posição foi completamente zerada.
Decisão sobre o Agronegócio
Em relação ao segmento de crédito ligado ao agronegócio, a Franklin Templeton decidiu não alocar investimentos no setor desde 2023. Essa decisão foi baseada na percepção de uma euforia no lançamento de produtos relacionados ao agronegócio. Atualmente, a gestora investe em empresas com atividades relacionadas ao setor agrícola, mas evita a aplicação em crédito rural, o que significa que não possui nenhum Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) em suas carteiras.
Redução da Exposição ao Crédito Corporativo
A gestora também realizou uma redução significativa em sua exposição a crédito corporativo. Em um dos produtos, a participação média de empresas caiu de cerca de 80% para menos de 50%. A Franklin Templeton opera com mais de 200 fundos e carteiras com diferentes estratégias de investimento.
Por outro lado, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) têm visto um aumento em sua representatividade nas carteiras de crédito privado da gestora. A alocação média nessa classe subiu de aproximadamente 8% para cerca de 13% da carteira.
Motivos para a Redução da Infraestrutura
A Franklin Templeton avalia que os ativos de infraestrutura, muitas vezes considerados uma alternativa defensiva dentro do crédito privado, apresentam um risco em carteiras que precisam competir com o rendimento de títulos públicos, especialmente em relação ao prazo médio de investimento. Quando os juros reais aumentam, esses ativos podem sofrer, mesmo que o spread de crédito não se deteriore. Casarotto aponta que isso ocorreu no ano em questão, quando houve uma alta simultânea na taxa real e na abertura dos spreads.
A gestora antecipa a possibilidade de uma redução nas taxas de juros futuras em 2027, embora isso dependa de um ajuste fiscal. Até que haja uma clareza maior sobre esse processo, a Franklin Templeton planeja adotar uma postura cautelosa, levando em consideração a chance de uma desaceleração econômica em 2027.
Desafios no Crédito Agro
A Franklin Templeton argumenta que o crédito agrícola requer uma análise distinta daquela aplicada ao crédito corporativo convencional. Enquanto uma empresa industrial pode ter sua produção e geração de caixa monitoradas com regularidade, no setor agrícola esses ciclos estão sujeitos a variáveis como clima, colheita e flutuação nos preços das commodities.
Além do risco operacional, a gestora destaca as incertezas jurídicas como uma das razões para sua opção de não investir no segmento agrícola. Casarotto observa que ainda há discussões em curso sobre a validade e alcance de certas garantias utilizadas em operações desse tipo. Um dos problemas identificados é a diversidade de decisões em primeira instância: enquanto grandes centros contam com profissionais especializados em recuperações judiciais e mercados de capitais, casos envolvendo produtores rurais podem ser encaminhados a comarcas do interior, onde a experiência em tais processos é menor.
Na visão da Franklin Templeton, essa incerteza aumenta o risco ao investidor, o que requer uma cautela adicional na concessão de crédito ao setor agrícola.
Atração pelos FIDCs
A crescente preferência pelos FIDCs deve-se à estrutura de proteção que esses veículos oferecem. Casarotto cita o exemplo da Light (LIGT3), que entrou em recuperação judicial, mas conseguiu realizar pagamentos aos FIDCs, ilustrando a diferença entre certas estruturas securitizadas e o crédito corporativo.
Entretanto, a gestora ressalta que sua alocação em FIDCs é seletiva e não deve ultrapassar 20% do fundo, devido à liquidez reduzida no mercado secundário. A analise de um FIDC deve ser distinta da análise de uma companhia tradicional. Em vez de se restringir à avaliação do balanço patrimonial de uma empresa, o investidor deve considerar a carteira de recebíveis, as garantias, a estrutura de pagamentos e os participantes envolvidos na operação.
Os segmentos que despertam o interesse da gestora incluem o crédito consignado e financiamento de veículos. No caso do crédito consignado, a Franklin Templeton prefere operações com o consignado público e o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Essas operações podem ter spreads menores, mas oferecem estruturas de proteção mais robustas.
Fonte: www.estadao.com.br
