Você sabe o que é um fundo multimercado?
Conheça esta modalidade versátil de investimento, suas vantagens e seus riscos.
Crédito: BM&F | 15.01.2015
O panorama dos fundos multimercados
Nos últimos vinte anos, o multimercado se destacou como a principal vitrine da indústria de fundos no Brasil. Nesse ambiente se destacavam os gestores mais renomados do país, muitos dos quais tinham experiências anteriores em cargos de liderança no Banco Central. Suas apostas sobre as direções da Selic (taxa básica de juros), do dólar e do mercado de ações atraíam uma base fiel de cotistas e acumulavam patrimônios bilionários.
Contudo, em 2026, esse cenário mudou drasticamente. Gestoras que haviam consolidado a reputação da classe decidiram vender o controle, encerrar seus fundos ou transferir a gestão para grandes bancos. Essa movimentação resultou em uma saída contínua de capital. A pergunta que se impõe agora é se estamos assistindo ao fim do multimercado como o conhecemos.
Para tentar responder a essa questão, analisei a edição mais recente da revista Investidor Institucional, que apresenta o ranking Melhores Fundos para Institucionais, com dados coletados pela equipe da DataBay, focando especificamente nos fundos multimercados. O levantamento inclui fundos com recursos de fundações e de regimes próprios de previdência, comparando cada um com seus pares da mesma categoria, levando em consideração o retorno e o risco em períodos de um, dois e três anos até junho de 2026. Os fundos que se destacam nos 33% superiores recebem uma nota excelente, enquanto aqueles nos 33% inferiores ficam com uma classificação insuficiente.
Sete em cada dez multimercados perderam para o CDI
Na base de dados analisada, são 190 multimercados, e os resultados encontrados são preocupantes. No período de 12 meses, apenas 28% desses fundos renderam mais do que o Certificado de Depósito Interbancário (CDI), que acumulou uma taxa de 14,8%. Ao observar o desempenho em 36 meses, dentre os 177 fundos com histórico suficiente, apenas 32% superaram os 43,8% do CDI.
Ao examinar a categoria macro, que é a mais associada ao modelo tradicional de multimercado, o cenário é ainda mais alarmante. Apenas 6 dos 36 fundos conseguiram superar o CDI em 12 meses, enquanto somente 8 o fizeram em um prazo de três anos, período em que o fundo macro típico alcançou um retorno acumulado de 32,3%, resultado mais de 11 pontos percentuais inferior ao CDI. Vale ressaltar que dez multimercados encerraram os últimos 12 meses com rentabilidade negativa.
Os piores do ranking
O levantamento também revelou que, entre os fundos que obtiveram nota insuficiente nos três horizontes de avaliação, encontram-se nomes que já foram considerados referência no setor. Os dois fundos Mar Absoluto apresentaram perdas superiores a 16% em 12 meses, enquanto a estratégia do Bradesco que utiliza a gestora Vista retraiu 11,9% nesse mesmo período.
Além disso, os fundos associados a Neo, Gávea e Ibiuna acumularam retornos entre 14% e 25% em três anos, representando entre um terço e um pouco mais da metade do CDI. Para as fundações que são orientadas por um conselho e que possuem metas de rentabilidade, justificar esse desempenho abaixo do Tesouro Selic apresenta desafios significativos.
A captação de 2026 confirma o diagnóstico
O início de 2026 trouxe um otimismo considerável. Em janeiro, os multimercados captaram R$ 18,9 bilhões líquidos, e muitos especulavam sobre uma possível retomada. Entretanto, essa tendência não se consolidou. Entre fevereiro e agosto, ocorreu saída líquida de recursos em seis dos sete meses, totalizando R$ 29,6 bilhões, sendo R$ 21,1 bilhões apenas no período entre junho e agosto.
A análise até agosto indica que a captação líquida da classe está negativa em R$ 10,7 bilhões, conforme dados compilados pela DataBay, enquanto a renda fixa absorveu um montante de R$ 239,8 bilhões. De acordo com informações da Anbima, os resgates de multimercados acumulam R$ 672 bilhões desde 2022 e 2026 pode se tornar o quinto ano consecutivo de saídas significativas.
As gestoras que venderam, fecharam ou mudaram de casa
Um dos casos mais emblemáticos é o da Verde Asset, gerida por Luis Stuhlberger. Em outubro de 2025, a Vinci Compass anunciou a aquisição de 50,1% da gestora, com planos para adquirir os 49,9% restantes ao longo de cinco anos. Stuhlberger permanece na função de CEO e diretor de investimentos. A Verde, que gerenciou cerca de R$ 55 bilhões em 2021, contava com aproximadamente R$ 16 bilhões no momento do anúncio do negócio.
Em agosto deste ano, a Gávea Investimentos, liderada por Armínio Fraga, decidiu encerrar a gestão de multimercados após 23 anos, designando a Bradesco Asset para a administração dos fundos. Em junho, o Itaú Asset completou a incorporação da Solana Capital, uma gestora de renda variável, à sua plataforma de múltiplas mesas.
Ainda em julho, a Novus Capital desmantelou sua estrutura, repassou os fundos para a Leto Capital e a Occam Brasil, e o sócio-fundador Luiz Eduardo Portella foi recrutado pela Itaú Asset para liderar uma nova mesa de investimento.
Por outro lado, a TAG Investimentos, que detinha R$ 18 bilhões sob gestão, eliminou totalmente a alocação em multimercados e publicou um estudo intitulado “Multimercados, uma classe de ativos em extinção?”, resumindo a atual situação do setor.
Os recursos que antes estavam alocados em multimercados não desapareceram, mas mudaram de movimentação. De acordo com uma pesquisa da Bloomberg, baseada em dados da Anbima, o patrimônio de sete das maiores gestoras independentes focadas em estratégias macro locais reduziu cerca da metade desde 2022, totalizando aproximadamente R$ 89 bilhões. Em contraste, o patrimônio em fundos macro das seis principais gestoras vinculadas a bancos quase dobrou desde 2019, alcançando R$ 542 bilhões.
O outro lado do ranking
Entretanto, seria injusto considerar somente a parte negativa dos dados. O mesmo ranking apresenta 32 multimercados com classificação máxima nos três horizontes de avaliação, embora seja necessário investigar mais a fundo o que eles realmente oferecem.
Sete dos fundos na lista alta, na prática, são equivalentes à bolsa americana sob uma nova classificação, como o BTG Pactual S&P 500 BRL, que mais que dobrou seu valor em três anos (registrando um crescimento de 106,8%). Oito deles são essencialmente carteiras de crédito privado, como o BTG Multigestor Credit, que obteve um retorno de 48,3% no mesmo período. Além disso, cinco repassam ao investidor as estratégias de gestores estrangeiros.
Esses 20 fundos, que representam uma parte significativa da lista, incluem estratégias de gestão ativa tradicionais, onde alguns gestores se destacam. A estratégia da Verde, por exemplo, através do fundo distribuído pelo Bradesco, superou o CDI em todos os horizontes de avaliação, indicando que a mudança de controle ocorreu enquanto a gestora ainda era uma das mais consistentes da categoria. O mesmo se aplica à Solana, cujo modelo de operação long and short (consistindo na operação de dois ativos simultaneamente visando lucrar a partir da diferença de desempenho entre eles) registrou um rendimento de 26,95% em 12 meses.
A AdamCapital e a Milênio lideram a avaliação em um horizonte de três anos, ambas com mais de 54%, enquanto a SPX, uma das maiores gestoras macro do país, também se destaca entre as excelentes, mesmo que a nota máxima na categoria não assegure que obtenha retornos superiores à renda fixa; o SPX Nimitz Estruturado, por exemplo, teve um desempenho inferior ao CDI em um e em três anos.
O multimercado não acabou, mas mudou de forma
Os dados apresentados no ranking não permitem afirmar que a classe dos multimercados chegou ao seu fim. Entretanto, eles sinalizam o esgotamento de um modelo em que gestoras independentes dependem de grandes apostas macroeconômicas em um cenário onde a taxa CDI permanece alta, em torno de 15% ao ano, acompanhada de muito pouca volatilidade.
Os exemplos da Verde e da Solana indicam que, mesmo um bom desempenho financeiro não garante a independência da gestora quando essa não possui escala adequada, ou quando o patrimônio disponível diminui e as despesas fixas permanecem elevadas.
Aqueles fundos que conseguem se manter estão migrando para plataformas de grandes bancos, que atuam para diluir custos entre várias mesas e priorizam estratégias que proporcionam retornos mais previsíveis, como crédito e aplicações no exterior. Além disso, um número menor de gestoras independentes está conseguindo se destacar entre as demais nos três horizontes analisados.
Para os investidores, a informação mais relevante pode ser a dispersão de resultados. Sob o rótulo de multimercados coexistem tanto fundos que apresentaram perdas superiores a 16% em um ano, quanto fundos que conseguiram dobrar seu valor em um período de três anos.
Com variações tão significativas, a escolha do gestor, a estratégia que ele emprega com o capital e as taxas que ele cobra tornam-se fatores de maior relevância do que a decisão de manter ou não multimercados na carteira de investimentos.
É importante ressaltar que rentabilidade passada não assegura resultados futuros, e a questão que o ranking levanta para os investidores que ainda possuem multimercados é se o seu gestor está entre aqueles que conseguirão superar essa transição de mercado.
Fonte: www.estadao.com.br
