O engenheiro Moisés Sirvente decidiu priorizar a educação financeira desde a infância na formação de suas filhas Júlia, de 22 anos, e Helena, de 11 anos. Para ele, conceitos simples, como avaliar a real necessidade de uma compra e economizar dinheiro, podem ter um impacto significativo no futuro, ajudando as crianças a evitar dívidas e a constituir uma reserva financeira.
“Cometi diversos erros na juventude, como financiar um apartamento a juros elevados, pois ninguém me orientou sobre a importância da gestão do dinheiro ou como fazer perguntas básicas, como: ‘eu realmente preciso disso?’ ou ‘tenho dinheiro para comprar?’. Se você tem disciplina para economizar, consegue pagar [um apartamento] à vista e evitar os juros altos, que poderiam elevar o custo de um novo imóvel posteriormente”, explica.
A psicóloga e especialista na área Ana Paula Hornos ressalta que a educação financeira abrange não apenas números, mas também valores e comportamentos. Ela afirma: “Na infância, quando a personalidade da criança está em formação, ela aprende a se relacionar com o mundo e com o outro. Assim, é fundamental que, desde cedo, ela apreenda e incorpore atitudes saudáveis, como planejar, esperar, compartilhar e valorizar o que possui, elementos essenciais para uma vida financeira saudável”.
A tarefa de ensinar educação financeira às crianças pode ser desafiadora, mas é uma contribuição significativa para que elas construam uma relação equilibrada e saudável com o dinheiro.
A importância do conhecimento financeiro precoce
“Acreditamos que quanto mais cedo as crianças tiverem acesso ao conhecimento financeiro, mais preparadas estarão para administrar suas finanças com responsabilidade no futuro. Queremos que elas cresçam entendendo a importância de poupar e investir, desenvolvendo autonomia financeira e habilidades para tomar decisões sobre seus próprios recursos”, declara Marina Naime, gerente de Projetos Educacionais da B3 (B3SA3).
O engenheiro Moisés utiliza o bom humor para introduzir o aprendizado financeiro às suas filhas, de forma que essas lições não pareçam meramente “chatas” ou “cobranças”. Ele faz referência a como um programa de comédia de televisão, ‘Todo Mundo Odeia o Chris’, ensina sobre descontos, buscando tornar o aprendizado mais atraente e acessível.
Como introduzir a mesada na educação financeira?
Segundo Ana Paula Hornos, não existe uma idade específica para começar a ensinar a gestão do dinheiro às crianças. “Quando a criança demonstra vontade de realizar um pagamento sozinha, isso indica um senso de autonomia que é o momento ideal para se iniciar a educação financeira formal.”
A psicóloga indica que a mesada é apropriada por volta dos sete anos de idade, quando a criança já domina as operações matemáticas básicas e desenvolve o raciocínio concreto. “É uma ferramenta educativa excelente”, avalia.
Um exemplo prático vem de Helena Sirvente, que ao solicitar um aumento em sua mesada, fez um acordo com o pai. “A condição foi de que ela elaborasse resumos de vídeos do canal de YouTube ‘Seja uma Pessoa Melhor’, que traz dicas financeiras. Isso serviu como um incentivo para que ela aprendesse mais”, relata Moisés.
Além disso, desde cedo ele incentivou suas filhas a se interessarem pelo assunto por meio da leitura. Quando Helena tinha cerca de oito anos, ele adquiriu a versão em quadrinhos do livro ‘Pai Rico, Pai Pobre’. Já para Júlia, com aproximadamente 15 anos, ele ofereceu ‘O Homem Mais Rico da Babilônia’ e também ‘Pai Rico, Pai Pobre’ novamente.
Iniciativas para ensinar finanças às crianças
A Bolsa de Valores brasileira, B3, oferece de maneira gratuita, por meio de sua plataforma de cursos, uma masterclass intitulada Educação Financeira para Crianças, ministrada pela consultora internacional de educação financeira e especialista em educação infantil, Cássia D’Aquino. Esta formação toca em como ajudar uma criança a desenvolver suas habilidades no uso do dinheiro em diferentes fases da vida e analisa quais são as falhas mais comuns cometidas pelos pais e como abordar o empreendedorismo mirim.
Nesta masterclass, D’Aquino destaca que a mesada deve ser entendida como um instrumento educacional, sendo essencial que os pais incentivem seus filhos a registrar seus gastos e estabelecer metas financeiras que sejam alcançáveis em curto prazo. “Esse processo de definir, buscar e conquistar um objetivo ajuda a criança a desenvolver, para a vida adulta, uma mentalidade voltada para a poupança, ou seja, a habilidade de adiar gratificações imediatas por benefícios futuros”, explica a consultora.
Adicionalmente, nos dias 11, 18 e 25 de outubro, o Museu da Bolsa (MUB3) promove atividades lúdicas que aproximam as crianças do universo do mercado financeiro de maneira divertida e didática. Dentre as atividades estão o Laboratório de Fantoches – Meu Pé de Meia; a Contação de História – Bem Aqui Neste Quintal; a Oficina Musical – O Samba de Pitágoras; e a Visita-Jogo – O Mistério da Bolsa Perdida. Ingressos gratuitos podem ser obtidos pelo site do MUB3.
Por outro lado, o Banco Central (BC) disponibiliza o programa gratuito Aprender Valor, que oferece cursos de capacitação e letramento financeiro para educadores, com a intenção de trabalharem o tema com crianças nas escolas de ensino fundamental. Contudo, qualquer interessado pode acessar o programa. Para mais informações sobre o programa, basta acessar o link, utilizando uma conta Gov.br de nível prata ou ouro.
Fonte: einvestidor.estadao.com.br