Bolsa pode valorizar com ajuste fiscal em 2027, mas eleição deve trazer volatilidade, diz Ágora
Expectativas do Mercado
Com menos de uma semana para o primeiro turno das eleições, a discussão que mais importa para os investidores na Bolsa de Valores não está relacionada diretamente a quem vencerá a eleição, mas sim ao quanto o mercado já começou a incorporar diferentes resultados em seus preços.
As pesquisas eleitorais, que medem a intenção de voto, revelam que o mercado financeiro está tentando antecipar como variáveis como juros, câmbio, fluxo de capital estrangeiro e os lucros das empresas poderão reagir a distintos cenários. Observando os acontecimentos das últimas semanas, tornou-se evidente que uma parte significativa dos investidores já começou a ocupar suas posições.
Análise do Relatório do Goldman Sachs
Um recente relatório do Goldman Sachs fornece uma visão sobre essa assimetria. No caso de uma vitória de Flávio Bolsonaro (PL), representando uma mudança no poder, o potencial de valorização estimado para os ativos brasileiros chega a cerca de 20%.
Implicações para o Ibovespa
Ao aplicarmos essa análise ao Ibovespa, essa valorização implicaria uma ascensão até aproximadamente 210 mil pontos, superando as máximas históricas. No cenário oposto, com a permanência do atual governo, a previsão é de uma queda de cerca de 15% nos ativos considerados de risco.
Essa diferença nos preços sugere que o mercado não sabe, de fato, quem será o vencedor, mas sim que está atribuindo valores bastante distintos aos dois possíveis resultados.
Movimentação no Mercado de Opções
Esses preços diferenciados já começaram a se refletir no mercado de opções. No final de agosto, o interesse em aberto nas opções de compra, conhecidas como calls, que apostavam na possibilidade do Ibovespa alcançar 200 mil pontos até novembro, aumentou de cerca de 1,1 milhão para 5,6 milhões de contratos em um único dia.
Concentração de Posições
Recentemente, operadores notaram uma concentração de posições em strikes nos níveis de 200 mil e 210 mil pontos, tanto no Ibovespa quanto no EWZ, principal ETF (fundo de índice) que representa ações brasileiras negociadas nos Estados Unidos.
Ao adquirir uma opção de compra, o investidor paga pelo direito de participar de uma futura alta sem precisar investir todo o capital no ativo imediatamente. Se a Bolsa subir substancialmente, a opção pode se valorizar consideravelmente; caso a tese não se concretize, a perda será limitada ao prêmio pago.
Por isso, o aumento significativo nas opções com vencimento após a eleição, em preços de exercício muito acima do nível atual da Bolsa, sinaliza que existem investidores dispostos a pagar para se posicionar numa reprecificação acentuada dos ativos brasileiros.
A eleição pode mudar o preço, não o lucro
Expectativas em Relação à Política Fiscal
É necessário entender por que a mudança de governo poderia resultar em uma alta de 20%, enquanto a continuidade do governo atual poderia acarretar uma queda de 15%, conforme indicado pelo Goldman Sachs. A explicação, de acordo com a análise, parece ter menos a ver com os nomes dos candidatos e mais a ver com as expectativas a respeito da política fiscal, dos juros, e, consequentemente, do preço que os investidores estão dispostos a pagar pelas empresas brasileiras.
O Brasil se aproxima dessa eleição com um desafio fiscal que permanece sem uma solução definitiva. A dívida pública continua em crescimento, os juros de longo prazo permanecem elevados, e o mercado acredita que será necessário enfrentar de maneira mais intensa o descompasso entre receitas e despesas.
A expectativa em torno de uma alternância no poder é que isso possa indicar uma mudança na trajetória fiscal: algum tipo de ajuste fiscal mais rigoroso, melhora na percepção de risco e uma possível queda nos juros.
Reação do Mercado
Caso essas mudanças ocorram, a Bolsa não precisaria necessariamente aguardar anos de crescimento econômico para se manifestar. Ela poderia simplesmente começar a valer mais.
Um exemplo prático ilustra essa dinâmica: considere uma empresa com valor de R$ 100, que gera R$ 10 de lucro anualmente. Com um múltiplo de preço sobre lucro (P/L) de 10, se o valor que investidores estão dispostos a pagar pela empresa subir para R$ 120, o P/L aumenta para 12. Isso é o que se denomina expansão de múltiplo.
Influência dos Juros
Os juros desempenham um papel crucial nesse processo. Com juros elevados, o investidor tem à sua disposição alternativas relativamente seguras que oferecem altos retornos e, por isso, tende a exigir preços mais baixos para aceitar correr o risco na Bolsa. Por outro lado, quando os juros caem, o custo de oportunidade diminui, o valor presente dos lucros futuros aumenta, e o mercado normalmente fica mais disposto a aceitar múltiplos maiores pelas mesmas empresas.
Consequentemente, é possível que o Ibovespa suba 20% mesmo sem um aumento correspondente nos lucros das companhias.
Cenário de Continuidade
Num cenário inverso, se a permanência do atual governo for vista como uma continuidade na trajetória fiscal atual, os juros longos podem se manter elevados, o custo de capital permanecerá alto e isso reduzirá as justificativas para que o mercado pague múltiplos superiores pelas empresas.
É importante ressaltar que, apesar de a Bolsa já operar em patamares relativamente baixos, isso não significa que não possa sofrer novas quedas. O termo “ativo barato” não implica que esse ativo não possa se desvalorizar ainda mais; investidores que estão há algum tempo no Brasil são plenamente conscientes disso. Entretanto, atualmente, o Ibovespa não parte de um valuation que pressupõe um crescimento robusto ou uma drástica redução nos juros.
Diferença Simétrica
É por essas razões que essa eleição é vista como particularmente assimétrica para os ativos. Em um cenário de continuidade, pode-se observar uma nova compressão nos múltiplos, resultando em uma queda em torno dos 15% previstos. Contudo, com uma alternância de poder, acompanhada por uma mudança crível na trajetória fiscal, há a possibilidade de uma simultânea redução nos juros, expansão nos múltiplos e entrada de um investidor estrangeiro que, até então, esteja com um nível de alocação baixo no Brasil.
Esses três fatores combinados ajudam a explicar por que a expectativa de uma alta de 20% não é tão irracional quanto poderia parecer à primeira vista.
As apostas começam antes da urna
Indicadores de Probabilidade
Outro dado relevante vem do Polymarket, um mercado de previsões onde participantes apostam dinheiro nos resultados que acreditam que ocorrerão. Flávio Bolsonaro estava sendo negociado com uma probabilidade implícita de vitória próxima de 60%.
Esse dado não deve ser confundido com pesquisas eleitorais, uma vez que não representa uma amostra do eleitorado brasileiro, mas fornece uma visão de como outro mercado também começa a se posicionar.
Movimento do Mercado
Esse é um dos pontos centrais. O mercado não espera pelo resultado da eleição para iniciar suas negociações; ele busca se antecipar ao resultado.
Quando observa-se um aumento do interesse em calls nos níveis de 200 mil e 210 mil pontos, quando o EWZ recebe posições voltadas a um vencimento posterior ao segundo turno, e quando investidores estrangeiros, com alocação reduzida, começam a adquirir opções relacionadas ao Brasil, uma mensagem clara está sendo transmitida pelos preços.
Assimetria em Potenciais Resultados
Isso não garante que essas apostas estarão corretas, mas revela que a assimetria percebida entre os dois resultados parece ser significativa. De um lado, a continuidade de um cenário fiscal conhecido pelo mercado, que poderia implicar em uma perda de cerca de 15% no valor dos ativos de risco. Do outro lado, a possibilidade de uma mudança de trajetória que poderia resultar em uma redução dos juros, entrada de capital estrangeiro e uma expansão dos múltiplos, levando a uma elevação do Ibovespa em direção a 210 mil pontos.
Faltando menos de uma semana para a eleição, é importante observar que a urna ainda não se expressou, mas o mercado já começou a tomar suas decisões e posicionamentos.
Fonte: www.estadao.com.br
