Inadimplência das Famílias Brasileiras
A inadimplência das famílias brasileiras registrou, em julho, o maior nível desde março de 2011. De acordo com dados divulgados pelo Banco Central em uma sexta-feira, o indicador subiu de 5,4% em junho para 5,8% em julho. Esse aumento indica que a pressão financeira sobre os consumidores continua intensa, mesmo com a redução gradual das taxas de juros nas operações de crédito.
Crédito Livre e Direcionado
O cenário se agrava quando se analisa o crédito livre. Nessa modalidade, onde as taxas de juros são negociadas entre os bancos e os consumidores, a inadimplência das pessoas físicas cresceu de 7,4% para 7,8%, atingindo o maior nível desde o início da série histórica. No caso do crédito direcionado, a inadimplência também alcançou um novo recorde, passando de 3% para 3,4%.
Impacto na Inadimplência Geral
A deterioração das condições financeiras das famílias contribuiu para a elevação da inadimplência geral no sistema financeiro. O índice geral atingiu 4,9% em julho, comparado a 4,6% no mês anterior. No crédito livre, a inadimplência foi de 6,0% em junho para 6,4% em julho, enquanto no crédito direcionado subiu de 2,7% para 2,9%. Entre as empresas, também houve um aumento na inadimplência, com o crédito livre subindo de 4,0% para 4,2% e o direcionado de 2,0% para 2,1%. No total, a inadimplência no crédito para as empresas passou de 3,2% para 3,3%, embora nenhum desses percentuais tenha atingido um recorde.
Comprometimento da Renda
Outro dado relevante é o comprometimento da renda das famílias, que continuou a aumentar em junho, alcançando um novo recorde desde março de 2011. O indicador, que mensura a porcentagem do orçamento mensal destinada ao pagamento das dívidas, subiu de 28,5% em maio para 28,9% em junho. Essa alta aconteceu apesar do funcionamento do programa Desenrola 2.0, lançado pelo governo federal em maio, com o intuito de facilitar a renegociação de dívidas com condições de juros mais favoráveis.
Quando o financiamento imobiliário é excluído do cálculo, o comprometimento da renda também registrou aumento, passando de 26,2% para 26,6%. Por outro lado, o endividamento das famílias teve uma ligeira queda em junho, de 49,9% para 49,8%. Mesmo assim, o indicador permanece elevado em comparação à média histórica. Sem incluir o crédito habitacional, o endividamento caiu de 31,1% para 30,8%.
É importante ressaltar que os índices de endividamento e comprometimento da renda apresentam uma defasagem de dois meses em relação ao período de divulgação. Dessa forma, os dados que estão sendo apresentados refletem uma visão anterior da situação financeira das famílias, não necessariamente o cenário observado ao final de agosto.
Pressão Sobre o Mercado de Crédito
O conjunto de indicadores aumenta a pressão sobre o mercado de crédito brasileiro. Bancos, especialistas e autoridades monitoram de perto a evolução da inadimplência, enquanto empresas também enfrentam um número crescente de casos de recuperações judiciais e extrajudiciais. Os programas de renegociação lançados pelo governo buscam mitigar parte deste problema, mas o Banco Central também já anunciou a intenção de implementar medidas para reduzir o risco de crédito, especialmente em relação ao peso das modalidades mais onerosas no endividamento das famílias.
Queda dos Juros Médios
Nos dados divulgados, há uma contradição significativa. A redução das taxas de juros médios não parece ser suficiente para conter o aumento da inadimplência. Apesar da diminuição gradual da taxa Selic, que serve como referência para outras taxas no mercado, e os efeitos do programa Desenrola, a taxa média de juros do crédito total caiu de 33,3% ao ano em junho para 32,1% ao ano em julho. No crédito livre, a taxa recuou de 49,7% para 47,7% ao ano. No crédito direcionado, a taxa diminuiu de 12,2% para 12,1%. Para as famílias em crédito livre, a redução foi ainda mais acentuada, de 63,9% para 60,0%. Entretanto, entre as empresas, houve um aumento na taxa, que subiu de 24,3% para 25,4%.
Taxas Altas em Modalidades Caras
Nas modalidades de crédito mais caras para pessoas físicas, ainda assim, as taxas permanecem extremamente elevadas. A taxa do rotativo do cartão de crédito, por exemplo, caiu de 442,4% ao ano em junho para 436,2% em julho, o que equivale a cerca de 15% ao mês. No parcelado do cartão de crédito, a taxa diminuiu de 191,4% para 189,3% ao ano. O cheque especial também registrou queda, de 139,9% para 137,3%, enquanto o crédito pessoal sem garantia passou de 149,5% para 130,1%. Essas categorias estão entre as operações elegíveis pelo programa Desenrola voltado às famílias.
Concessão de Crédito
A concessão de crédito apresentou uma diminuição em julho. O volume total de crédito caiu 1,6% em relação a junho, totalizando R$ 736,8 bilhões. No crédito livre, a retração foi de 1,9%, resultando em R$ 656,1 bilhões. Dentro dessa categoria, as concessões para famílias aumentaram 6,1%, atingindo R$ 359,3 bilhões, enquanto os desembolsos para empresas sofreram uma redução de 10%, caindo para R$ 296,9 bilhões.
Em relação ao crédito direcionado, o cenário foi diferente. As concessões totais aumentaram 1,0% em julho, chegando a R$ 80,7 bilhões. Para as famílias, houve uma leve queda de 0,2%, totalizando R$ 47,1 bilhões, enquanto as empresas registraram um aumento de 2,4%, alcançando R$ 33,5 bilhões.
Fonte: br.advfn.com
