Inflação atual poderia possibilitar cortes mais significativos na Selic este ano, mas eleições restringem reduções, afirma especialista.

Expectativa do Copom para corte de juros

O mercado já possui uma expectativa consolidada sobre a política monetária do Brasil: o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central cortará os juros em março.

A última decisão do Comitê, ocorrida em janeiro, indicou o início do afrouxamento monetário na próxima reunião, reforçado pela ata da decisão. Além disso, a maioria do mercado prevê um corte de 0,50 ponto percentual, reduzindo a Selic para 14,50% ao ano, de acordo com a precificação na curva de juros futuros.

Os agentes financeiros estão precificando cortes em todas as reuniões do Comitê ao longo de 2025, projetando uma Selic em 12,25% até o final do ano. A principal questão atualmente é: qual será o ritmo e a magnitude dos cortes nos juros até dezembro? Segundo Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, há um espaço maior para cortes de juros do que o que está atualmente previsto.

Análise sobre os cortes de juros

“A simetria do Brasil é para mais cortes. Hoje, a expectativa para inflação é de quase 4% no final do ano, e com os juros que o mercado projeta [12,25% em dezembro], estamos falando de uma taxa de juros real perto de 8%, que é extremamente elevada”, afirmou Shahini em entrevista ao Money Times.

Ele acrescentou que o Banco Central possui um maior potencial para cortes do que o estimado pelo mercado. Essa avaliação é sustentada pela recente desaceleração da inflação, um movimento que também foi reconhecido pela instituição. Na ata da última reunião, o Copom destacou que tanto a inflação cheia quanto as medidas subjacentes mostraram um certo arrefecimento, embora ainda permaneçam acima da meta.

Fatores que influenciam as projeções

Além do comportamento da inflação, o enfraquecimento do dólar também contribui para a expectativa de um maior afrouxamento monetário. “Considerando que o dólar é um componente importante da cesta de consumo brasileiro, a divisa mais fraca tem ajudado a controlar a inflação medida pelo IPCA”, enfatizou Shahini.

Entretanto, o cenário eleitoral pode limitar a possibilidade de cortes mais agressivos na Selic devido ao aumento da volatilidade no mercado no segundo semestre. “Se não fosse um ano eleitoral, eu diria que a gente poderia até ter mais cortes. A Selic poderia cair para 10% tranquilamente”, observou o especialista da Nomad.

“No entanto, dada a situação eleitoral, estimo que o Banco Central, que já adota uma retórica conservadora, continuará a ser cauteloso, esperando para observar como será a dinâmica inflacionária, considerando tanto as situações correntes quanto as expectativas do mercado”, completou.

Perspectivas para os juros nos Estados Unidos

Nos Estados Unidos, o mercado também projeta cortes de juros ao longo deste ano, com pelo menos duas reduções já precificadas. “O que importa é onde a taxa vai parar. O mercado hoje precifica algo em torno de 3%. Qualquer desvio significativo disso pode ter efeitos relevantes sobre a força do dólar”, afirma Shahini. Atualmente, os juros americanos variam de 3,50% a 3,75% ao ano.

O especialista da Nomad ressalta que o mercado de trabalho mais resiliente ao longo do ano passado apoiou o ciclo de cortes promovido pelo Federal Reserve (Fed), que atua com um duplo mandato que envolve inflação e emprego. Entre setembro e dezembro, o Fed fez três cortes consecutivos, reduzindo as taxas da faixa de 4,25% a 4,50% para a variação de 3,50% a 3,75% ao ano.

A principal preocupação atualmente parece retornar à inflação, conforme indicam as comunicações mais recentes da autoridade monetária norte-americana. “A inflação medida pelo PCE [índice de preços de gastos com consumo pessoal] ainda permanece acima da meta. Assim, o Fed deve continuar a se manter dependente de dados”, destacou Shahini.

Possíveis mudanças na liderança do Fed

Além disso, há uma nova incerteza no horizonte: Kevin Warsh, que poderá assumir o comando do Fed. O ex-diretor do Banco Central foi indicado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no final de janeiro e, caso seu nome seja aprovado pelo Senado, ele deverá assumir a presidência da autoridade monetária no término do mandato de Jerome Powell, em maio.

Considerado um nome técnico e mais independente em comparação a outros candidatos, Warsh foi bem recebido pelo mercado. “Diante do conjunto de nomes que estavam sendo cogitados, a indicação foi positiva. O mercado percebe nele uma maior independência para conduzir a política monetária”, afirmou Shahini.

Ele acrescentou que “essa mudança [no comando] é relevante, pois pode impactar a transição [de Powell para Warsh] e se podemos observar um Fed com menos intervenção no mercado e com uma atuação mais moderada via títulos públicos.”

Warsh, nos anos recentes, começou a criticar algumas práticas do Fed, incluindo o tamanho do balanço patrimonial e a manutenção prolongada de políticas monetárias expansionistas. Em suas últimas declarações, ele defendeu que a redução das reservas de títulos do Banco Central – que superam 6 trilhões de dólares – permitiria cortes nas taxas sem impulsionar a inflação.

Fonte: www.moneytimes.com.br

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