Entenda a tese de investimento no agronegócio além da commodity. Veja análises, resultados e a avaliação de mercado para SOJA3, AGRO3 e TTEN3.
O agronegócio no Brasil é responsável por cerca de 25% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Contudo, sua representação no mercado de capitais esteve historicamente centrada em frigoríficos e empresas exportadoras de commodities. No entanto, nos últimos anos, surgiram novas empresas que abriram seu capital na B3, promovendo teses de investimento mais estruturais, incluindo o fornecimento de tecnologia em insumos, a arbitragem do mercado imobiliário agrícola e o desenvolvimento de ecossistemas integrados no campo.
Empresas como Boa Safra Sementes (BOV:SOJA3), BrasilAgro (BOV:AGRO3) e 3tentos (BOV:TTEN3) desempenham papéis distintos em diferentes etapas dessa cadeia produtiva, apresentando dinâmicas operacionais, margens e perfis de risco variados para os investidores.
Mapeando a cadeia: antes, dentro e depois da porteira
Para uma avaliação adequada dos ativos de empresas do setor agrícola, o mercado financeiro costuma dividir a cadeia produtiva em três etapas principais:
Antes da porteira: Esta etapa concentra-se no fornecimento de insumos essenciais, incluindo biotecnologia, fertilizantes, defensivos e máquinas, onde atua a Boa Safra.
Dentro da porteira: Refere-se ao cultivo direto, manejo de terras, pecuária e gestão imobiliária rural, que é o foco operacional da BrasilAgro.
Depois da porteira: Envolve a industrialização, esmagamento de grãos, distribuição de combustíveis/biodiesel, logística e exportação.
Ecossistema integrado: Refere-se à atuação transversal que abrange desde o fornecimento de insumos até o processamento e a comercialização de grãos, sendo este o modelo adotado pela 3tentos.
Visão geral comparativa dos resultados mais recentes
Os mais recentes balanços financeiros refletem a influência de variados fatores operacionais, sazonalidade e a precificação de matérias-primas sobre cada uma das empresas mencionadas:
| Indicador | SOJA3 (Boa Safra) | AGRO3 (BrasilAgro) | TTEN3 (3tentos) |
| Último Resultado Divulgado | 2T26 | 4T26 Fiscal | 2T26 |
| Receita Líquida | R$ 124,7 milhões (+23%) | R$ 289,5 milhões (-20%) | R$ 4,7 bilhões (+31,9%) |
| Lucro / Prejuízo Líquido | R$ 2,7 mi (ex-SNAG11) | -R$ 13,9 milhões | R$ 205,9 milhões (-37,8%) |
| EBITDA / EBITDA Ajustado | R$ 52,2 mi (Ajust.: R$ 27,7 mi) | R$ 31,6 mi (Ajust.: R$ 56,6 mi) | R$ 204,6 mi (Ajust. c/ hedge: R$ 78,7 mi) |
| Margem EBITDA Ajustada | 22% | 20% total / 22% operacional | 1,7% (Ajustada com hedge) |
| Consenso do Mercado | Neutro | Neutro | Compra Forte |
| Preço-Alvo Médio (12m) | R$ 10,14 | R$ 23,83 | R$ 20,69 |
Análise detalhada das empresas SOJA3, AGRO3 e TTEN3
Boa Safra (SOJA3): Tecnologia e ganho de market share em sementes
A Boa Safra (BOV:SOJA3) é reconhecida como líder no mercado brasileiro de sementes de soja, atuando como produtora independente. A tese que sustenta o investimento na empresa baseia-se na contínua conquista de participação de mercado por meio do beneficiamento e da biotecnologia aplicados em sementes de alta produtividade.
Infraestrutura e capacidade de armazenamento
Para garantir a qualidade das sementes de soja, que exigem um controle rigoroso de temperatura para preservar o vigor germinativo, a Boa Safra possui mais de 123 mil m² de câmaras frias, uma estrutura capaz de armazenar mais de 280 mil big bags de sementes, bem como movimentar até 232 veículos diariamente. Para o ciclo 2025/26, a empresa já havia contratado cerca de 320 mil hectares para cultivo de sementes, além de ter internalizado aproximadamente 90% da capacidade instalada após rigorosos processos de descarte de qualidade.
Participação de mercado
A gestão da Boa Safra conseguiu aumentar sua participação de mercado de 8% para cerca de 10% no segmento nacional de sementes de soja, consolidando sua posição como a maior produtora independente no setor no Brasil.
Dinâmica operacional e sazonalidade
O setor de sementes é caracterizado por sua forte sazonalidade: o segundo trimestre (2T26) é essencialmente dedicado à produção, ao beneficiamento e ao armazenamento, enquanto o volume de vendas se concentra nos trimestres subsequentes. No 2T26, a empresa registrou um crescimento de 23% em sua receita líquida, que alcançou R$ 124,7 milhões, e uma elevação na margem bruta de 38% para 56%. Um indicador operacional relevante é a carteira de pedidos (ou backlog), que no final de junho totalizava R$ 1,804 bilhão (destes, R$ 1,467 bilhão em sementes de soja), além de R$ 622 milhões em estoques.
BrasilAgro (AGRO3): arbitragem imobiliária e desconto sobre o NAV
A BrasilAgro (BOV:AGRO3) combina a produção agrícola com atividades de compra, desenvolvimento e venda de propriedades rurais, fundamentando sua operação na tese de arbitragem imobiliária agrícola. Isso significa que a empresa adquire terras brutas ou subutilizadas, implementa a infraestrutura necessária, cultiva os campos e posteriormente vende as propriedades após apreciação de sua valorização.
Portfólio de terras e valorização
Ao encerrar o exercício de junho de 2026, a BrasilAgro operava 21 fazendas localizadas no Brasil, Paraguai e Bolívia, abrangendo um total de 257.141 hectares (sendo 187.056 hectares próprios e 70.085 hectares arrendados).
Valor contábil: R$ 1,337 bilhão
Valor justo (avaliação): R$ 3,231 bilhões (aproximadamente 2,42 vezes o valor contábil, ou 142% acima do que está registrado no balanço)
Net Asset Value (NAV) e precificação de mercado
A BrasilAgro calcula seu Net Asset Value (NAV) em R$ 38,17 por ação. Com suas ações sendo negociadas entre R$ 19 a R$ 20, o mercado aplica um desconto de quase 50% em relação ao valor econômico estimado de seu patrimônio imobiliário.
Múltiplos e resultados do 4T26 fiscal
No resultado do 4T26 fiscal, a BrasilAgro reportou uma receita líquida de R$ 289,5 milhões, o que representa uma queda de 20%, além de um prejuízo líquido de R$ 13,9 milhões, afetado pela falta de vendas significativas de propriedades durante o período. Contudo, a receita operacional agrícola aumentou 12%, somando R$ 255,9 milhões, impulsionada pela comercialização de 96,4 mil toneladas de soja. O EBITDA Ajustado Total foi de R$ 56,6 milhões, com uma margem ajustada de 20%.
Em relação à distribuição de proventos, o histórico Dividend Yield da AGRO3 é de aproximadamente 3,9%, e a administração propôs a distribuição de R$ 30 milhões em dividendos, correspondendo a R$ 0,30 por ação, referente ao fechamento do exercício.
3tentos (TTEN3): expansão ecossistêmica e processamento industrial
A 3tentos (BOV:TTEN3) opera com um modelo verticalizado embasado em três pilares principais: a venda de insumos agrícolas, a originação e comercialização de grãos, além da industrialização, que inclui o processamento de soja e a fabricação de biodiesel e etanol de milho.
Rede de varejo e expansão de lojas
A empresa encerrou o 2T26 com 81 lojas físicas operando (localizadas nos estados do Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Goiás, Pará, Minas Gerais e Tocantins), comparado a 73 unidades presentes no final do ano de 2025. Com isso, a 3tentos alcançou 81% de sua meta oficial de atingir 100 lojas até 2030, o que representa um prazo quatro anos mais curto que o estabelecido originalmente.
Capacidade industrial e transição para etanol de milho
A infraestrutura industrial da 3tentos envolve:
Processamento de soja: A empresa opera três plantas industriais (localizadas em Ijuí/RS, Cruz Alta/RS e Vera/MT) que possuem uma capacidade total de processamento de 10,8 mil toneladas de soja por dia.
Etanol de milho: A nova usina situada em Porto Alegre do Norte (MT) iniciou suas operações em maio e tem uma capacidade nominal de 2.800 toneladas de milho por dia, conseguindo produzir diariamente 1.275 m³ de etanol hidratado, 1.215 m³ de anidro, 785 toneladas de DDGS e 50 toneladas de óleo de milho. A unidade já alcançou sua capacidade máxima em agosto, e uma nova planta está prevista para ser construída em Redenção (PA) com lançamento projetado para 2028.
Composição de receita por pilar
No 2T26, a receita líquida consolidada da 3tentos alcançou R$ 4,700 bilhões, representando um crescimento de 31,9%. A distribuição de receita entre os três segmentos evidencia a diversificação do modelo:
• Comercialização de Grãos: R$ 2,203 bilhões (46,9% da receita total)
• Divisão Industrial: R$ 2,010 bilhões (42,8% da receita total)
• Venda de Insumos: R$ 487,3 milhões (10,4% da receita total)
Desafios marginais no 2T26
Embora tenha havido um crescimento de 31,9% na receita, o EBITDA Ajustado com hedge apresentou uma queda de 64,3%, totalizando R$ 78,7 milhões, o que resultou em uma margem de 1,7%, comparada a 6,2% no 2T25. Essa compressão na margem é atribuída ao aumento da participação das vendas de grãos, que em geral possuem margens mais estreitas, além da pressão nos preços do farelo de soja (-12%) e biodiesel (-3%) durante a fase de ramp-up das novas plantas industriais.
O que observar em SOJA3, AGRO3 e TTEN3
Para os investidores que desejam se expor ao setor agrícola por meio da renda variável, a análise dos balanços requer a consideração de diferentes métricas para cada uma das empresas:
Em SOJA3: É essencial acompanhar a evolução da carteira de pedidos (backlog), a taxa de ocupação das câmaras frias e o crescimento da participação de mercado das sementes em cada ciclo de safra.
Em AGRO3: É importante monitorar o ritmo das vendas de fazendas, o desconto de mercado em relação ao NAV de R$ 38,17 e a geração de receita operacional nas etapas interinas de cultivo.
Em TTEN3: Deve-se observar a recuperação da margem EBITDA ajustada conforme as novas plantas de etanol de milho atingirem a plena eficiência e avaliar o avanço na abertura de novas lojas em áreas agrícolas emergentes.
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Fonte: br.advfn.com
