Tokenização da Economia e sua Tração no Brasil
Você sabe o que é token? Tokenização da economia ganha tração no Brasil com adesão dos bancos
Transformar ativos do mundo real em ativos digitais: esse processo é chamado de tokenização e nós explicamos com mais detalhes no vídeo!
Recentemente, a Nasdaq Ventures anunciou um investimento no valor de US$ 100 milhões na Payward, empresa controladora da corretora de criptomoedas americana Kraken, com o intuito de levar ações tokenizadas ao mercado em 2027. O modelo de negócios firmado traz consigo mais do que o montante investido: a plataforma da Kraken irá distribuir versões tokenizadas de ações que estão listadas na Nasdaq. Em contrapartida, a Payward deverá integrar as ferramentas de vigilância de mercado da bolsa na operação, indicando que cada parte adquiriu exatamente aquilo que não conseguia desenvolver sozinha.
Poucos dias antes deste anúncio, um grupo de 21 instituições financeiras, incluindo grandes nomes como Goldman Sachs, Bank of America, Citi, Deutsche Bank, UBS, Santander e Fidelity, declarou a criação de uma nova empresa com a finalidade de emitir uma stablecoin lastreada em dólar no primeiro semestre de 2027.
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Bitcoin se tornou parte dos ETFs, os fundos de investimentos negociados na Bolsa. As stablecoins passaram a ser discutidas entre os principais bancos do mundo. A tokenização, por sua vez, foi incorporada nas bolsas de valores, nas gestoras de ativos e entre reguladores financeiros.
É atraente interpretar esse fenômeno como uma forma de domesticação. O sistema financeiro estaria, assim, fazendo o que sabe fazer melhor: identificar ideias que funcionam e integrá-las a sua própria infraestrutura. Com isso, poderia deixar de lado o contexto original onde essas inovações foram concebidas.
As exchanges (plataformas digitais que atuam como corretoras de criptomoedas), os protocolos, as wallets, os smart contracts e ainda a comunidade de indivíduos que se comunicam por meio de plataformas como X ou Reddit discutindo conceitos complexos e de difícil compreensão.
A convergência entre o universo cripto e o mercado financeiro é um caminho sem volta, embora a absorção completa das inovações desse último nunca pareça se concretizar. O mercado tradicional se destaca pela sua habilidade em industrializar a inovação: quando uma ideia demonstra potencial, ele sabe incorporar governança, capital, canais de distribuição, regulação e escalabilidade sobre essa ideia. Em contrapartida, o setor cripto demonstra uma habilidade notável em criar e testar novas ideias.
O Bitcoin é um exemplo claro. Ele surgiu fora do sistema financeiro, sem a presença de bancos, empresas ou reguladores, e durante muitos anos foi considerado uma curiosidade tecnológica, uma moeda para entusiastas ou uma bolha especulativa, entre outras características menos desejáveis. Quando os ETFs à vista foram finalmente autorizados nos Estados Unidos, em 2024, o Bitcoin já havia superado quinze anos, passado por vários ciclos e acumulado quase US$ 1 trilhão em valor de mercado. Wall Street entrou no negócio quando o experimento já apresentava evidências de sucesso.
Stablecoins têm um histórico semelhante. A Tether foi criada em 2014 com o objetivo específico de solucionar uma questão: as exchanges funcionam 24 horas, enquanto o sistema bancário possui horários limitados. Havia uma necessidade de transferir dólares entre plataformas sem ter que esperar a abertura dos bancos na segunda-feira, o que obrigava os usuários a depender de instituições que não entendiam o que eram criptomoedas e que, frequentemente, mantinham recursos ou encerravam contas de usuários que “lidavam com cripto”.
Inicialmente, aquilo parecia servir apenas como infraestrutura para traders (profissionais que compram e vendem ativos), mas atualmente as stablecoins facilitam pagamentos internacionais, gerenciamento de tesouraria, remessas e liquidacoes financeiras, além de despertar o interesse dos bancos para emissões próprias, enquanto autoridades monetárias analisam seu impacto sobre depósitos e a soberania monetária.
Quem fica com o dinheiro da invenção
A dinâmica de divisão de responsabilidades nesse cenário tem um custo, que precisa ser considerado.
O Bitcoin sobreviveu durante 15 anos sem depender do sistema financeiro, enquanto a taxa de administração dos ETFs acaba sendo direcionada para as gestoras de Wall Street. A Tether solucionou um problema real de liquidação em 2014 e passou mais de uma década demonstrando que seu modelo funcionava. Em 2027, uma stablecoin em dólar será emitida por 21 instituições que não assumiram os riscos ao longo desse percurso.
Se as empresas tradicionais podem adquirir esses experimentos após estes já terem demonstrado sucesso, então o papel de ser o laboratório se transforma em uma narrativa interessante, mas em um negócio desfavorável.
Há uma solução que já possui um nome: o player nativo obtém valor quando transforma inovações em licenças, escalabilidade e relações diretas com os clientes antes de o processo de industrialização ocorrer. Os que conseguem isso, conseguem um espaço à mesa. Já aqueles que não conseguem transformar suas ideias em valor, tornam-se fornecedores que apenas oferecem conceitos, e uma ideia, sozinha, não vale muito.
Esse modelo comercial se assemelha a práticas de outras indústrias que já funcionam há décadas. Por exemplo, a indústria farmacêutica deslocou seu foco de inovação para fora, com moléculas que se tornam medicamentos nascendo em pequenos laboratórios, financiados por venture capital e projetados com a expectativa de serem adquiridos quando suas descobertas se provem úteis.
Nessa nova dinâmica do mercado, o pequeno não é apenas um estágio temporário antes do crescimento, mas sim uma parte essencial do sistema como um todo. Os laboratórios sobrevivem uma vez que a indústria precisa deles e está disposta a pagar por seus serviços.
Um alerta concerne à natureza do software livre. O open source foi absorvido de maneira significativa pelo mundo corporativo. Embora não tenha desaparecido e se tornado a base de praticamente tudo que opera atualmente, quase todo o valor econômico foi apropriado por aqueles que empacotaram, distribuíram e venderam suporte.
A dinâmica do setor cripto apresenta características semelhantes. O código é público, mas as licenças não são, a distribuição não é, e a base de clientes também não é. É nesse contexto que a discussão se desloca do âmbito tecnológico para o das empresas e suas operações.
Radicalismo Construtivo
Esse padrão se repete devido à presença de uma espécie de radicalismo construtivo no mundo cripto. O radicalismo, aqui, não se refere à destruição, mas sim à investigação profunda. É a insatisfação de quem questiona com a mesma curiosidade de uma criança, não aceitando respostas como “sempre foi assim” e sem hesitar em persistir nas perguntas, mesmo após uma resposta já ter sido dada.
Por que um mercado precisa ser fechado?
Por que o dinheiro e os ativos precisam ser liquidadas em infraestruturas distintas?
Por que uma operação financeira necessita de tantos intermediários?
Por que um indivíduo não pode controlar diretamente um ativo que lhe pertence?
Algumas dessas questões podem levar a respostas insatisfatórias, enquanto outras podem resultar em ideias inovadoras. Os formadores de mercado automatizados, os AMMs, foram responsáveis por criar mercados sem a presença de livros de ofertas.
Protocolos de lending (sistemas automáticos na blockchain) desenvolveram empréstimos totalmente administrados por software. Exchanges perpétuas on-chain viabilizam mercados futuros globais que operam continuamente. Wallets oferecem aos usuários a capacidade de armazenar e transferir ativos sem depender de instituições financeiras.
Apesar dos fracassos ao longo do caminho, muitos deles, a taxa de mortalidade no mundo cripto é alta, reflexo de sua taxa de experimentação. Isso faz parte do seu modelo de funcionamento.
Uma instituição financeira tradicional inicia sua inovação atravessando um extenso processo que envolve estudos, orçamentos, comitês, questões jurídicas, avaliação de riscos, fornecedores, integração, compliance e, quando tudo está em ordem, um projeto piloto. Esse cuidado é essencial, considerando que elas gerenciam o dinheiro de milhões de pessoas.
Por sua vez, o universo cripto inverte essa ordem. Alguém desenvolve o código, publica, investe capital e verifica se os usuários estão dispostos a adotá-lo. Essa abordagem amplia a quantidade de experimentos realizados em simultâneo, enquanto reduz de forma significativa o custo de validação de uma nova ideia.
O Brasil Está Demonstrando Isso em Público
Desde 2019, o Mercado Bitcoin iniciou o processo de tokenização de ativos. Precatórios foram um dos primeiros casos, referindo-se a créditos reconhecidos judicialmente, que geralmente têm prazos longos, baixa liquidez e um mercado secundário pouco transparente, acessível, na prática, a um número reduzido de compradores especializados.
A tokenização foi uma solução que abordou tanto o fracionamento quanto o acesso. Na sequência, foram introduzidos outros ativos, como cotas de consórcio, direitos relacionados ao futebol, créditos, recebíveis e diversas outras estruturas. Já são mais de 800 ativos tokenizados em circulação, totalizando acima de R$ 2,5 bilhões.
Durante uma boa parte desse período, a tokenização foi encarada como um experimento ligado ao universo cripto.
Atualmente, a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA) está conduzindo um projeto piloto com 20 casos de uso e mais de 50 instituições, entre bancos, gestoras e fintechs, com o objetivo de testar a emissão de debêntures e fundos nativamente desenvolvidos em blockchain, utilizando um livro de registro digital.
Um bom número de instituições da Faria Lima está diretamente envolvido nessa experiência, testando em um ambiente controlado aquilo que até recentemente era um tópico restrito ao mundo das criptomoedas. Além disso, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) instituiu um grupo de trabalho dedicado ao estudo da tokenização de valores mobiliários. Atualmente, o mercado brasileiro já acumula aproximadamente R$ 13,5 bilhões em ativos tokenizados emitidos.
Todo esse movimento ocorre em um contexto de tempo limitado. As empresas que prestavam serviços relacionados a ativos virtuais até fevereiro deste ano têm até o dia 30 de outubro para protocolar a primeira fase de solicitação para autorização junto ao Banco Central.
Após essa data, tanto bancos quanto instituições de pagamento estarão impedidos de operar com plataformas que não possuírem autorização ou cujos pedidos ainda estejam em andamento. O dia 30 de outubro é um prazo crítico para protocolar as inscrições. A licença em si será concedida após mais tempo.
Transitar por essa nova realidade é um passo importante, e é neste contexto que reside o risco menos discutido da convergência. Qualquer empresa que se regula assimila, junto com as exigências, a influência de quem já estava operando nesse meio. A ANBIMA e a CVM não precisam se transformar em organismos especializados em cripto. Igualmente, o Mercado Bitcoin não deve perder a essência inovadora de uma empresa nativa cripto à medida que se torna maior, mais regulado e institucional. O que se busca é que a maturidade não signifique uma domesticação.
A tendência natural de toda indústria madura é aprimorar o que já existe, apresentando versões mais eficientes e seguras dos produtos consolidados. Isso leva as instituições tradicionais a olharem para a blockchain e a se perguntarem como podem emitir debêntures tokenizadas. Essa pergunta é válida e possui um alto valor informativo. Por outro lado, a visão original que vem do mundo cripto busca avançar um ponteiro: que produto financeiro ainda não foi criado porque a infraestrutura tradicional dificulta a sua concepção cara e complexa ou até mesmo a torna inviável?
O Que Isso Significa para Quem Investe
Quando inovações estreiam organizadas nas prateleiras do setor financeiro de Faria Lima, elas já passaram por processos de empacotamento, tarifação e reprecificação. Aqueles que chegam antes têm a vantagem de acesso a informações mais limpas e oportunidades menos poluídas.
O aspecto honesto dessa realidade é que, neste cenário, a correnteza também é mais forte. Estar próximo do local onde as inovações ocorrem implica na convivência com ativos sem histórico, estruturas ainda não testadas sob pressão e uma taxa de mortalidade que é parte inerente desse modelo. Para administrar isso, é preciso estar ciente de tamanho das posições, do horizonte de investimento e da predisposição para aceitar a perda de parte do que foi investido na empresa. Ser precoce é vantajoso. Ser precoce com a posição inadequada, no entanto, é o que pode acarretar custos altos.
O principal legado do setor cripto pode resultar em algo ainda maior do que o Bitcoin, as stablecoins ou a própria tokenização. Esse legado pode ser o fortalecimento de um laboratório onde uma parte significativa do futuro do sistema financeiro será estruturada antes de ser efetivamente industrializada.
Wall Street sempre consegue traçar o caminho até as fontes das inovações e geralmente paga alto ao chegar. Aqueles que estiveram no cenário preexistente se beneficiam de condições mais favoráveis, pagando menos e vendendo para aqueles que chegam depois.
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Fonte: www.estadao.com.br
