Os fundos multimercados precisam rever suas estratégias e oferecer investimentos que não sejam facilmente replicados pelos clientes para recuperar atratividade, afirmou Fabrício Voigt, economista-chefe da Aware Investments, em entrevista ao programa Real Time, do Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC.
Segundo dados da Anbima apresentados pelo programa, os fundos multimercados registraram cerca de R$ 60 bilhões em saídas líquidas no ano passado.
Para Voigt, os juros elevados são uma das razões para a perda de recursos da categoria, mas não explicam sozinhos o movimento. A maior sofisticação dos investidores e o acesso a produtos mais baratos também aumentaram a pressão sobre esses fundos.
“Hoje nós conseguimos operar em ativos que não necessariamente são multimercados com custos muito mais baixos que replicam índices”, afirmou.
### Juros altos não são o único problema
Voigt explicou que a indústria de multimercados cresceu entre 2017 e 2021, período em que os juros mais baixos impulsionaram a busca por alternativas de diversificação.
Nos anos mais recentes, porém, a alta dos juros tornou os produtos de renda fixa mais competitivos.
Simultaneamente, segundo o economista, os investidores passaram a ter acesso a diferentes classes de ativos por meio de produtos mais simples e com tarifas reduzidas.
Como exemplo, ele citou os ETFs que acompanham índices da bolsa brasileira e podem cobrar taxas de administração inferiores às de fundos de gestão ativa.
### Custos precisam ser justificados
Na avaliação de Voigt, o problema se agrava quando os fundos cobram taxas elevadas para entregar uma estratégia que o próprio investidor consegue reproduzir com relativa facilidade.
Ele mencionou um modelo comum no mercado que consiste na cobrança de 2% de taxa de administração mais 20% de performance.
“Para replicar uma carteira que entrega um resultado abaixo do CDI, não é justificável”, afirmou.
Conforme o economista, diferentes estratégias de multimercados também apresentaram elevada correlação entre si, reduzindo parte do benefício de diversificação que se esperava desses produtos.
### Fundo virou uma ‘renda fixa sofisticada’
Para Voigt, parte da indústria se afastou da função que deveria cumprir na carteira dos investidores.
“No final do dia, o fundo multimercado acabou sendo utilizado como uma renda fixa sofisticada”, disse.
Segundo ele, o diferencial dos multimercados deveria estar justamente no acesso a estratégias que um investidor comum não consegue reproduzir com facilidade.
Hoje, afirmou, é possível montar uma carteira com ativos de crédito, ações e diferentes tipos de renda fixa, chegando a uma composição similar à de vários fundos.
### Gestores terão de oferecer estratégias menos replicáveis
Para recuperar espaço, os gestores precisarão demonstrar que conseguem acessar oportunidades que não estão disponíveis de maneira simples ao investidor, segundo Voigt.
Ele citou como exemplos operações específicas com commodities, dívidas e outros ativos de acesso mais restrito.
Na avaliação do economista, essa mudança é mais importante do que simplesmente reduzir os custos cobrados.
### Reduzir taxas não resolve sozinho
Questionado sobre mudanças no modelo de cobrança, Voigt afirmou que os custos também precisam ser debatidos, mas que a transformação deve ocorrer principalmente na estratégia.
“A atualização precisa passar, não necessariamente, apenas por uma redução de custos, mas por uma mudança na estratégia de gestão”, afirmou.
Ele observou que alguns fundos multimercados conseguiram atravessar diferentes ciclos e continuam apresentando bom desempenho.
Outros, no entanto, não conseguiram se adaptar às mudanças do mercado.
“A sua grande maioria acabou morrendo no meio desse período por não conseguir se adaptar e entregar de fato uma estrutura que possa buscar esse retorno”, afirmou.
Fonte: timesbrasil.com.br
