Estudo sobre a Realidade Financeira do Brasileiro
Nem todos despertam pela manhã interessados em adquirir um CDB (Certificado de Depósito Bancário), participar de um fundo de investimento ou montar uma carteira de ações. No entanto, muitos anseiam por sair da situação financeira complicada, organizar uma reserva de emergência, quitar dívidas ou garantir a proteção das pessoas que dependem deles. Esses aspectos foram revelados pelo estudo intitulado “O que a Faria Lima não vê”, realizado pela Planejar (Associação Brasileira do Planejamento Financeiro) em parceria com a Timelens, que analisou 6,431 bilhões de perguntas feitas no Google, 467 milhões de buscas únicas e 392 mil menções em redes sociais ao longo dos últimos cinco anos.
O levantamento cruzou dados de pesquisas da Anbima e da B3, e seus resultados indicam que a linguagem financeira usada pela população brasileira se mostra 5,21 vezes mais relacionada à vida cotidiana do que a produtos financeiros específicos.
Situações e Objetivos Financeiros
Entre os dados coletados, 76,1% das perguntas estão ligadas a situações específicas ou objetivos, como a necessidade de quitar uma dívida ou a realização de um sonho, enquanto apenas 14,6% já mencionam um ativo financeiro. Antes de considerar um CDB, por exemplo, surgem preocupações como orçamento apertado, dívidas, projetos, relacionamentos ou um desejo de maior segurança financeira.
Portas de Entrada para Investimentos
As dúvidas manifestadas pelos brasileiros se organizam, na prática, em torno de cinco situações que antecedem qualquer decisão de investimento. O primeiro elemento identificado é a pressão do orçamento; na sequência, a necessidade de estruturar uma reserva financeira. Em terceiro lugar, aparece a existência de um projeto com um prazo definido, seguida pela preocupação com os dependentes financeiros e, por último, a construção de um futuro financeiro seguro.
Segundo a pesquisa, um mesmo produto financeiro pode se encaixar em qualquer um desses objetivos, dependendo das circunstâncias da vida de cada investidor.
Etapas da Jornada do Investidor
O estudo ainda mapeou a jornada do brasileiro em seis etapas: identificação da situação, formulação da questão, busca de informações, conversa sobre opções, comparação de alternativas e, por fim, escolha do produto ou a decisão de fazer uma pausa. Durante esse processo, etapas como entender, testar e escolher consomem cerca de 81,9% do tempo de decisão, enquanto o ato de efetivamente investir representa apenas 13,6%.
A Solidão na Tomada de Decisão Financeira
Os dados obtidos também indicam que essa jornada costuma ser solitária. Termos como “ganho pouco” (19,5 milhões de menções) e “dinheiro no relacionamento” (10,4 milhões) figuram entre os mais buscados, ao lado de expressões ligadas à ansiedade em relação às finanças (2,2 milhões) e à busca por orientação (900 mil). O estudo sugere que essas buscas refletem o temor de errar, de ser julgado ou de não conseguir explicar suas dificuldades.
Antes de qualquer estratégia de investimento ser formulada, muitos expressam confusão (855 mil perguntas classificadas) e medo (806 mil) em contraste com a curiosidade por aprendizado (683 mil). Isso sugere que, para grande parte da população, o primeiro desafio não é escolher onde aplicar o capital, mas sim minimizar a incerteza e recuperar um senso de controle sobre sua vida financeira. Somente após essa etapa é que os produtos financeiros são considerados.
Os pesquisadores observaram que a maior parte das buscas é realizada em uma linguagem intermediária, que não é tão básica quanto “como guardar dinheiro”, nem extremamente técnica. Essa linguagem intermediária representa 65,7% das formulações, enquanto 29,4% correspondem a uma linguagem básica e apenas 4,9% a uma linguagem avançada.
O Papel da Inteligência Artificial no Processo
A inteligência artificial também desempenha um papel significativo nessa jornada. Aproximadamente 62,4% das perguntas identificadas são adequadas a tarefas que podem ser assistidas por meio de IA, como organizar dívidas, explicar termos financeiros, calcular cenários, comparar alternativas ou ajudar na preparação de conversas com instituições financeiras ou profissionais do setor.
Entretanto, a confiança nas tecnologias para a decisão final de investimento é bastante baixa. Somente 30% dos investidores entrevistados afirmaram confiar nas ferramentas de inteligência artificial para essa fase do processo, enquanto 65% preferem ter a validação de uma pessoa antes de prosseguir com suas decisões financeiras.
Entre os investidores que utilizam inteligência artificial para analisar ativos, 53% recorrem a essa tecnologia ao menos uma vez por mês. No entanto, o próprio estudo ressalta que a clareza não deve ser confundida com veracidade. Embora uma explicação possa parecer segura, muitas vezes ela carece de precisão, atualização e exatidão. Uma resposta genérica não contempla aspectos como renda, dívida, objetivos ou a urgência das necessidades de quem busca informação financeira.
O uso de ferramentas digitais para investimentos apresenta variações de acordo com a geração dos usuários. Enquanto 84% dos jovens da Geração Z investem por meio de aplicativos ou websites, apenas 7% dos indivíduos da geração que testemunhou o pós Segunda Guerra Mundial, conhecida como baby boomers, utilizam essas plataformas.
Entretanto, a porcentagem de idosos que estão conectados à internet aumentou de 44,8% em 2019 para 69,8% atualmente, evidenciando que a lacuna digital entre as gerações está se estreitando, mesmo que os hábitos de investimento sejam distintos.
Autoridades Financeiras nas Redes Sociais
Fora do âmbito dos bancos e plataformas oficiais, o estudo identificou 1.912 perfis que competem pela atenção do público com conteúdo financeiro nas redes sociais. Dentre esses, 904 são influenciadores ativos, que juntos geraram 1,3 bilhão de interações no período observado. As pessoas físicas são responsáveis por 61% das menções a produtos financeiros e por 81,5% do engajamento identificado.
O YouTube é mencionado como o canal preferido para explicações detalhadas, sendo referenciado por 35% dos investidores, que utilizam a plataforma para obter informações sobre fundos e FIIs (Fundos de Investimento Imobiliário). O Instagram, por sua vez, atua mais como um espaço de atualização e aproximação, sendo citado por 27% dos entrevistados e gerando 30% das menções.
Além disso, o estudo revela que a categoria de influenciadores não é homogênea, mas sim um ecossistema que abrange cinco papéis diferentes: criador de conteúdo, investidor independente, regulador, trader e analista. Juntos, esses papéis somam 74% da atenção do público na esfera financeira.
Fonte: borainvestir.b3.com.br
