O Ano Novo Chinês e suas Implicações no Mercado do Boi
O Ano Novo Chinês de 2026 marca o retorno simbólico do Cavalo de Fogo após um intervalo de 60 anos. Este evento, que teve início no dia 17 de fevereiro, é frequentemente associado a uma fase de ação decisiva. Essa interpretação parece se encaixar no atual cenário do mercado do boi, especialmente considerando as novas cotas estabelecidas pela China para a carne bovina proveniente do Brasil. Essas cotas começaram a vigorar na virada do ano e, atualmente, geram uma verdadeira corrida no setor.
Corrida entre Frigoríficos
Apesar das negociações em andamento entre o governo e a Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes) para encontrar mecanismos que organizem os embarques, uma intensa disputa entre os frigoríficos já se iniciou para garantir espaço dentro das cotas. Essa análise é feita por Fernando Iglesias, analista de proteínas animais da Safras & Mercado. Segundo ele, “os primeiros 20 dias de 2026 serviram para o mercado entender o funcionamento das cotas. A expectativa inicial era de que a China reduziria suas compras de maneira imediata, o que levou os frigoríficos a diminuírem os abates. No entanto, houve uma corrida entre importadores chineses e exportadores brasileiros para garantir as maiores fatias da cota. Em janeiro, o Brasil utilizou quase 11% do volume anual disponível”, explicou.
Cenário Atual do Mercado Pecuário
Conforme Iglesias, essa movimentação ocorre em um momento em que se observa uma clara inversão no ciclo pecuário. A oferta de animais está mais restrita, e o abate de fêmeas caiu 9% em janeiro em comparação ao mesmo período do ano anterior. Por outro lado, a demanda externa continua aquecida, embora restrita devido às novas cotas impostas pela China.
O efeito imediato dessa situação é um mercado firme, sendo o boi gordo e a reposição sustentados pela combinação de oferta limitada e a intensa competição pelos embarques. O indicador Cepea/Esalq do boi gordo apresentou uma alta acumulada de 8,21% neste ano, atingindo R$ 345,40, enquanto o indicador do bezerro Cepea/Esalq (MS) subiu 3,72% no mesmo período.
Diversificação de Mercados
A diversificação de mercados, que é uma das principais pautas do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) em 2026, é considerada fundamental para reduzir a dependência em relação à China.
A maior preocupação do mercado
De acordo com Iglesias, o principal risco no cenário atual está na falta de organização em relação às cotas ao longo do ano. Se o governo e a Abiec não conseguirem estruturar uma distribuição escalonada dos embarques, permitindo as vendas ao longo de todo o ano de 2026, há o risco de que a cota se esgote já em agosto ou setembro. “Caso isso aconteça, o mercado do boi poderá enfrentar um último quadrimestre com exportações significativamente mais baixas do que o normal, o que poderá resultar em uma queda nos preços. No entanto, até lá, a demanda aquecida tende a sustentar aumentos constantes nos preços”, acrescentou.
Além desse aspecto, surgiu também um risco jurídico: frigoríficos que se sintam prejudicados por uma possível redistribuição das cotas podem optar por judicializar a questão. “É uma temática de alta complexidade, envolvendo aspectos de livre mercado e interferência nas exportações. Qualquer decisão que o Brasil tome necessita da anuência da China. Persistem dúvidas quanto à possibilidade de flexibilização ou eventual absorção de cotas não utilizadas por nações como a Argentina”, disse Iglesias.
Negociações sobre o boi
As projeções da Safras & Mercado sugerem que o preço máximo pode chegar próximo de R$ 370 por arroba em 2026, embora esse patamar dependa da ocorrência de um novo fator que impulsione os preços. Iglesias recomenda que os produtores utilizem instrumentos de hedge na B3 para proteger suas margens, ressaltando que o câmbio mais forte limita altas mais agressivas no preço do boi. “A B3 apresenta boas oportunidades. O contrato para maio (BGIK26) está avançando 1,19%, em torno de R$ 347. É essencial garantir um resultado positivo para o ano. O cenário é favorável até março, mas permanece muito imprevisível. Se houver um efeito rebote nas exportações no segundo semestre, o mercado pode ser impactado de maneira significativa”, concluiu Iglesias.
Projeções para 2025
A cota estabelecida para o Brasil foi de 1,106 milhão de toneladas livres de tarifas adicionais para 2026, com uma previsão de aumento para 1,128 milhão em 2027 e 1,154 milhão em 2028. Contudo, o volume exportado em 2025 superou consideravelmente essas estimativas, situando-se entre 1,65 milhão e 1,68 milhão de toneladas, com a China representando entre 45% e 48% do total de embarques. O secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Luis Rua, afirmou, em declaração ao Money Times, que 2025 foi um ano excepcional — historicamente, o Brasil exporta cerca de 1,2 milhão de toneladas para o país asiático.
Fonte: www.moneytimes.com.br