Aumento da Desconfiança nas Moedas Fiduciárias
A atual conjuntura de tensões geopolíticas, a perspectiva de taxas de juros mais baixas e a expansão dos gastos governamentais em todo o mundo estão impulsionando o que tem sido chamado de "comércio de desvalorização da moeda". Esse cenário resultou em recordes históricos em classes de ativos considerados de maior risco. O ouro, por exemplo, alcançou patamares impressionantes, subindo mais de 50% em 2025, sendo visto tanto como uma proteção contra a inflação quanto como um ativo de segurança. Outros metais preciosos e industriais também apresentaram ganhos significativos, enquanto o bitcoin ultrapassou a marca de US$ 120.000, à medida que os investidores buscam proteger-se da desvalorização do dólar americano.
"A avalanche de desconfiança nas moedas fiduciárias, ou o chamado comércio de desvalorização, enviou o ouro a novos recordes", afirmou Alex Kuptsikevich, analista-chefe de mercado da FxPro. Em resumo, o comércio de desvalorização é uma aposta de que o aumento do endividamento do governo e a impressão de dinheiro irão corroer o valor do dólar americano, levando os investidores a realocar suas economias em ativos como ouro, criptomoedas, ações e imóveis, que podem preservar seu valor.
Fatores que Influenciam o Comércio de Desvalorização
Kuptsikevich menciona diversos elementos que contribuem para essa tendência: as tensões geopolíticas, a situação do governo dos EUA em meio a uma paralisação, a instabilidade política na França com mudanças frequentes de primeiros-ministros que não conseguem solucionar problemas fiscais, a possibilidade de que as tarifas do presidente Donald Trump sejam anuladas judicialmente, resultando em um aumento na emissão de títulos do Tesouro para reembolsos, e as preocupações gerais com o crescimento acentuado da dívida pública. Além disso, o Japão é esperado a implementar um aumento nos gastos com déficit e taxas de juros mais baixas para estimular sua economia.
Esses fatores resultam em uma fuga do dólar americano e de outras moedas, verificando-se um aumento da compra de ouro por bancos centrais ao redor do mundo, enquanto investidores buscam alternativas de investimento. "Há uma tendência crescente em relação à estrutura clássica de portfólio, que tradicionalmente é composta por 60% em ações e 40% em títulos", disse Kuptsikevich. "No ambiente atual, recomenda-se alocar cerca de 20% em alternativas, como metais preciosos e criptomoedas."
Movimentos Marcantes no Mercado
Os números associados a esse comércio são impressionantes. O índice do dólar americano, que mede o desempenho da moeda em relação a uma cesta de moedas estrangeiras, caiu mais de 8%, enquanto outros ativos dispararam. O ouro subiu mais de 50%, a prata registrou um aumento superior a 60% e o cobre, um metal industrial considerado um indicador do crescimento econômico, teve uma alta de 26%. O bitcoin também viu um crescimento próximo de 30%, enquanto os índices de ações estabeleceram novas marcas. O Nasdaq Composite, que se concentra em ações de tecnologia, é um exemplo e está com alta de 19% no acumulado do ano, enquanto o Dow Jones Industrial Average apresentou um aumento mais modesto de 9%.
Percepções no Mercado de Investimentos
"Desvalorização, isso acontece desde o início da civilização. Porém, essa movimentação atual é de que precisamos ter menos dólares e, caso tenhamos, seja com proteção", afirmou Peter Boockvar, diretor de investimentos da One Point BFG Wealth Partners. "Os investidores estrangeiros estão buscando menos exposição ao dólar americano. Eles ainda desejam investir nos EUA, mas buscam proteger sua exposição ao dólar e adquirir ouro, ao mesmo tempo em que se resguardam de qualquer exposição a moedas fiduciárias."
É importante observar que Boockvar e outros analistas de Wall Street têm reservas em atribuir a movimentação exclusivamente ao comércio de desvalorização do dólar. "A recuperação das ações foi impulsionada pelo comércio de tecnologia com inteligência artificial, que obteve um novo fôlego após um baque nas notícias da DeepSeek no final de janeiro. E quem não desejaria comprar ações quando o Fed está cortando taxas de juros?", comentou.
Tony Pasquariello, chefe global de cobertura de fundos de hedge do Goldman Sachs, mencionou em nota a seus clientes que "se você perguntasse por que a economia e o mercado de ações se comportaram melhor do que o esperado, eu suspeitaria que uma boa parte dessa durabilidade tem a ver com todo esse gasto."
Crescimento da Propriedade do Ouro
Outros analistas apontam uma série de fatores, especialmente em relação ao ouro. Os bancos centrais globais agora detêm mais ouro do que títulos do Tesouro dos EUA pela primeira vez em quase 30 anos, evidenciando uma tendência de diversificação nos ativos. Ed Egilinsky, chefe de investimentos alternativos da Direxion, destacou que o ouro continuou a subir mesmo quando o dólar apresentou uma leve recuperação nas últimas semanas. "Existem outros fatores envolvidos", comentou. "Algumas pessoas ainda estão preocupadas com a inflação, a dívida crescente e a aparente disposição do Fed para mais cortes nas taxas. Portanto, essa busca pela segurança torna o ouro ainda mais atraente."
No que diz respeito ao bitcoin, Egilinsky o vê como um ativo beneficiado em um ambiente favorável ao risco. "O bitcoin é, para mim, um ativo que se associará ao apetite por risco. É uma ótima ferramenta de negociação, até que se prove o contrário, e se você observar o ouro, ele possui algumas qualidades defensivas e uma baixa correlação com ações e títulos," afirmou. "O ouro possui características diferentes e pode ser visto mais como uma alocação em ativos visando a diversificação. Já o bitcoin, para mim, é mais um ativo de negociação associado ao risco."
Mudanças nas Expectativas do Mercado
Diante de diversas razões que sustentam essa movimentação, Wall Street está observando de perto a questão da desvalorização da moeda e, em alguns casos, ajustando suas expectativas. A Citigroup, por exemplo, elevou suas metas de preço para cobre e estanho. "Esperamos que as preocupações com a desvalorização da moeda, associadas à percepção de que os formuladores de políticas, liderados pelos EUA, tentarão manter as economias aquecidas, assim como as expectativas futuras de déficits no mercado físico até 2026, devido à demanda mais forte sustentada por taxas de juros mais baixas, ofusquem os medos imediatos em relação ao crescimento e ao emprego nos EUA", indicou a instituição em um comunicado.
Os beneficiários desse comércio devem abranger ativos tangíveis, conforme disse Jeff Currie, diretor de estratégia da Carlyle Energy Pathways. "O tema da desdolarização, que já está em andamento há mais de cinco anos, continua a impulsionar o ouro. Podemos adicionar a isso o comércio de desvalorização, que realmente começou a ganhar força com a paralisação do governo", disse Currie durante uma entrevista na CNBC. "Estamos observando isso em todos esses metais pesados, e eu acredito que há muito mais potencial de crescimento."
Fonte: www.cnbc.com