O futuro vislumbrado por Elon Musk se aproxima mais da utopia ou da distopia?

A rápida expansão da inteligência artificial e o futuro do trabalho

A rápida expansão da inteligência artificial já está começando a redesenhar o mercado de trabalho, substituindo funções antes consideradas estáveis. A principal dúvida que surge nesse contexto é se esse avanço pode levar ao fim do emprego como o conhecemos atualmente. O empresário Elon Musk, fundador da Tesla e da SpaceX, acredita que esse cenário é possível e, segundo ele, estaria mais próximo do que se imagina. Musk sugere que essa transição poderia ocorrer em um intervalo de 10 a 20 anos.

A visão de Elon Musk sobre a inteligência artificial e o trabalho

Em uma entrevista recente ao podcast People by WTF, Elon Musk compartilhou suas preocupações e perspectivas sobre o impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho. Ele afirmou que a tendência é que a inteligência artificial torne o trabalho remunerado desnecessário, insinuando que “o dinheiro está desaparecendo como conceito”. Musk baseia suas observações na ideia de abundância. Se as máquinas forem capazes de produzir tudo o que é necessário, incluindo alimentos, moradia, serviços de saúde e transporte, não haveria mais necessidade de empregos formais e do pagamento de salários.

No cenário hipotetizado por Musk, o trabalho deixaria de ser uma obrigação, permitindo que as pessoas se dedicassem a hobbies, artes, interesses intelectuais e atividades pessoais. Essa visão, embora atraente, pode soar mais como um enredo de ficção científica do que um plano econômico viável na realidade atual.

Um aspecto provocativo dessa utopia é a condição em que atualmente cerca de 1 bilhão de pessoas vivem em extrema pobreza, sem trabalho e quase sem renda. A pergunta que surge é: a ausência de emprego e dinheiro realmente resultaria em melhores condições de vida para essas pessoas?

A problemática da utopia

Uma das principais críticas a esse tipo de projeção é que o fim do trabalho remunerado não implica, necessariamente, o fim das desigualdades sociais. Na prática, essa nova realidade poderia até mesmo aprofundar as desigualdades existentes. Michel Foucault, filósofo e teórico social, já argumentava que “o poder não se elimina […] as relações de poder se reorganizam constantemente”. Isso sugere que, mesmo se o dinheiro deixar de existir, outras formas de “moeda” — como métricas, reputação, acesso e informações — surgiriam, impactando as estruturas sociais, políticas e econômicas.

Outro aspecto central neste debate é o poder relacionado ao controle das máquinas. Existe a preocupação de que a concentração de poder não desapareça com o advento da inteligência artificial. Ao contrário, os mesmos bilionários que hoje lideram o desenvolvimento das inteligências artificiais poderiam continuar a assegurar sua posição no topo da hierarquia mundial.

A crítica histórica sobre desigualdade

Já no século XVIII, o filósofo Jean-Jacques Rousseau identificou a raiz da desigualdade. Para ele, essa desigualdade começa quando alguém cerca um terreno e declara sua posse. A propriedade precede a moeda e marca a transição da liberdade natural para uma sociedade desigual. Ao substituirmos “terrenos” por dados, robôs, algoritmos e infraestrutura computacional, vemos que Rousseau continua a ser relevante em discussões contemporâneas.

Rousseau afirmou que “o dinheiro semeia dinheiro” e que o primeiro franco é, muitas vezes, mais difícil de obter do que o segundo milhão. Assim, em um mundo sem dinheiro, mas com tecnologia que se concentra nas mãos de poucos, a dinâmica de desigualdade poderia persistir ou até se intensificar.

Atualmente, o 1% mais rico do planeta detém mais riqueza do que 95% da população global. Com as IAs transformando o mercado de trabalho e o dinheiro ainda atuando como principal vetor de ascensão social, a possibilidade de romper barreiras de poder poderia se tornar ainda mais desafiadora. O economista Thomas Piketty, em sua obra “O Capital no Século XXI”, destaca que quem controla os ativos também controla o futuro, independentemente do formato da economia. No século XIX, eram propriedades de terra; no século XX, era o capital financeiro; e, no século XXI, tudo indica que serão dados, algoritmos, energia e sistemas de decisão automatizados. Assim, mesmo sem salários, a propriedade das máquinas poderá manter alguns indivíduos no topo, perpetuando ou até ampliando as desigualdades já existentes.

A distopia nas mãos do programador

Cenas da ficção científica já exploraram esse experimento anteriormente. Em “Blade Runner 2049”, a automação é quase total, com produção abundante e tecnologia avançada. No entanto, a sociedade continua a apresentar uma hierarquia profundamente enraizada. Nesta narrativa, a desigualdade deixa de estar atrelada ao trabalho, passando a se manifestar em algo ainda mais fundamental: o valor ontológico de cada indivíduo—quem “vale” mais e quem é considerado descartável.

Uma lógica análoga é apresentada no clássico da ficção política “1984”, onde o controle não é imposto necessariamente pela força, mas ocorre de maneira mais sutil. Aqueles que dominam os sistemas moldam a realidade criando um controle mais velado e insidioso.

Enquanto isso, indivíduos sem trabalho, distraídos por prazeres e entretenimentos, podem aceitar passivamente as condições que lhes são impostas, frequentemente sem perceber as limitações que enfrentam. A hipótese de um mundo sem trabalho e sem dinheiro levanta questões significativas sobre o futuro da economia e da organização social. A experiência histórica e os debates teóricos sugerem que a desigualdade não está apenas ligada à presença da moeda ou ao emprego formal, mas, antes, ao controle dos meios que estruturam a vida em sociedade.

Dessa forma, a promessa de abundância não encerra o debate sobre desigualdade. Ao contrário, ela o desloca para um novo contexto, demandando uma reavaliação crítica de como as sociedades se organizam e distribuem recursos.

Fonte: www.moneytimes.com.br

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