Desenvolvimentos Tarifários entre EUA e Europa
As recentes ameaças tarifárias do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, direcionadas à Groenlândia e as potenciais respostas da Europa, têm a capacidade de provocar um aumento considerável nos preços de importação, o que pode impactar negativamente as economias de ambas as regiões.
Tanto os EUA quanto os países europeus estão levando a situação a sério. Em um movimento inesperado na tentativa de adquirir a Groenlândia, Trump anunciou, no sábado, dia 17, que irá estabelecer tarifas de 10%, a partir de 1º de fevereiro, sobre produtos provenientes da Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Holanda, Noruega, Suécia e Reino Unido.
O percentual citado irá subir para 25% caso nenhuma negociação seja concluída até 1º de junho deste ano.
Essas declarações resultaram em uma reunião urgente no domingo, dia 18, entre representantes de países europeus. Durante essa reunião, o presidente francês Emmanuel Macron teria solicitado à União Europeia a ativação de seu mecanismo conhecido informalmente como “bazuca comercial”, um instrumento anticorrupção.
Possíveis Medidas da União Europeia
A bazuca comercial pode resultar na limitação do acesso americano aos mercados da União Europeia ou, ainda, na imposição de controles de exportação, entre outras possíveis contramedidas que estão sendo consideradas.
Este mecanismo de defesa comercial foi criado com foco em países como a China, e não necessariamente em aliados próximos como os Estados Unidos, conforme destacado por Erica York, vice-presidente de política tributária federal da Tax Foundation.
A União Europeia já havia considerado a aplicação de 93 bilhões de euros em tarifas retaliatórias anteriormente anunciadas contra os EUA. Essas tarifas foram suspensas após um acordo comercial provisório alcançado com os Estados Unidos em julho do ano passado, segundo informações da Reuters.
De acordo com Carsten Brzeski, chefe global de macro da ING, as reações iniciais de líderes europeus indicam que muitos estão dispostos a adotar uma postura firme diante dessas ameaças. Esse cenário traz um novo período de incerteza para as empresas que dependem do fluxo de investimentos e exportações para os Estados Unidos.
Essa incertidão já levou diversas companhias americanas a interromper contratações em 2025, enquanto aguardam esclarecimentos em relação às recentes ações tarifárias intermitentes de Trump.
Brzeski prevê que o aumento das tarifas pode reduzir em cerca de um quarto de ponto percentual o Produto Interno Bruto da Europa no ano atual.
Ele ainda ressaltou que a Europa continua a depender consideravelmente dos EUA, tanto do ponto de vista econômico quanto em questões de segurança.
Repercussões Econômicas e Comerciais
A implementação do mecanismo conhecido como “bazuca comercial”, que pode incluir a suspensão de licenças para empresas americanas ou a taxa de serviços dos EUA, pode levar um período prolongado até ser efetivada pela União Europeia, conforme alertou Dan Hamilton, pesquisador sênior não residente do Instituto Brookings.
As ameaças mais recentes feitas por Trump colocam em risco os acordos comerciais que as autoridades americanas estabeleceram com o Reino Unido e a União Europeia no verão passado, além de acirrar ainda mais as relações com os aliados mais próximos dos EUA, comentou Hamilton.
A cifra comercial entre os EUA e a Alemanha foi de US$ 236 bilhões em 2024, segundo dados do Departamento de Censo dos EUA. O comércio com o Reino Unido atingiu US$ 147,7 bilhões, enquanto os Países Baixos, França e os países nórdicos também registraram transações significativas, com valores variando entre dezenas a centenas de bilhões de dólares.
Contudo, Donald Trump parece ter deixado uma possibilidade de manobra: suas tarifas se aplicam a apenas alguns países membros, e não à União Europeia como um todo. Isso significa que os oito países podem redirecionar seus comportamentos comerciais dentro do bloco de livre comércio da UE para evitar as tarifas em questão.
Essa flexibilidade é possível, já que não existe uma fronteira rígida entre países europeus. Joseph Foudy, professor da Escola de Negócios Stern da Universidade de Nova York, destacou que qualquer país pode facilmente enviar mercadorias através de outro se houver tarifas específicas em vigor para estados individuais.
Implicações para o Futuro Comercial dos EUA
Embora uma tarifa de 10% possa não abalar a economia de imediato, as consequências a longo prazo em função de uma relação deteriorada com os principais parceiros comerciais dos Estados Unidos são preocupantes.
A incerteza sobre se Trump irá intensificar suas ameaças tarifárias ou recuar antes de aplicar novos impostos pode levar a exaustão das relações comerciais, afastando potenciais parceiros a longo prazo.
Conforme afirmou Durlauf, da Universidade de Chicago, “a incerteza é a inimiga do crescimento”. Ele acrescenta que ações sem precedentes tomadas por Trump podem tornar alguns aspectos da relação comercial irreversíveis, mesmo com a mudança de administração.
Essas tarifas também correm o risco de serem revertidas pela aguardada decisão da Suprema Corte sobre os poderes do presidente em situações de emergência.
Os principais parceiros comerciais dos Estados Unidos estão ativamente construindo relações comerciais com outros países. Apenas na semana passada, o Canadá formalizou uma “parceria estratégica” com a China, que inclui a redução de tarifas e a importação de veículos elétricos chineses.
Em paralelo, a União Europeia concluiu um acordo com o Mercosul, após 25 anos de negociações comerciais, evidenciando o avanço de tratados que distanciam os EUA do seu espaço tradicional no mercado global.
De acordo com Foudy, as ações em busca da Groenlândia podem estar, paradoxalmente, afastando nossos aliados mais próximos. O custo dessa política poderá estimular a concorrência que realmente desejamos evitar, impactando de maneira negativa a competitividade das exportações americanas e levando as empresas a adiar decisões de investimento devido à incerteza tarifária.
Foudy concluiu que o verdadeiro custo dos conflitos tarifários reside nas fábricas que nunca foram construídas, uma consequência direta da instabilidade que impede as empresas de avançar com projetos e investimentos.
Fonte: www.cnnbrasil.com.br