Parece uma tendência de geração, mas é uma questão econômica.

Parece uma tendência de geração, mas é uma questão econômica.

by Editoria Bolsa e Mercado
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A Influência da Economia nos Hábitos

A inflação passa. Os juros diminuem. Crises chegam ao fim. A moeda se transforma. Entretanto, nossos hábitos não se alteram com a mesma rapidez das mudanças econômicas.

O Impacto da Hiperinflação

Quem passou por períodos de inflação alta aprendeu que esperar pode ter um custo elevado. O salário chegava e os preços mudavam rapidamente. Por isso, antecipar uma compra não era uma ação impulsiva, mas uma decisão racional em um contexto no qual, no dia seguinte, o poder de compra do dinheiro seria reduzido. Embora o cenário tenha mudado, parte desse aprendizado perdura.

As gerações não surgem do nada. Cada uma é influenciada pela economia que enfrenta e, igualmente, pelas regras sobre o mundo que herdaram dos que vieram anteriormente.

O Experimento de Autocontrole

Howard Rachlin e Leonard Green realizaram, em 1972, um experimento clássico acerca do autocontrole. No experimento, os animais tinham a oportunidade de escolher entre uma recompensa pequena, disponível de maneira imediata, e uma recompensa maior, que exigiria espera. Quando a decisão era feita perto do momento da recompensa, os animais tendiam a optar pela opção menor e mais rápida. Porém, quando tinham a oportunidade de decidir com antecedência, antes que a recompensa imediata estivesse ao alcance, eles conseguiam esperar pela maior. Este experimento evidenciou um ponto crucial: o autocontrole não é determinado apenas pelas preferências individuais. A distância entre a decisão e a recompensa, traduzida em tempo disponível para reflexão e planejamento, também influencia na escolha.

A Relação Entre Ambiente e Comportamento

Essa ideia pode ajudar a esclarecer algumas questões sobre o manejo do dinheiro. Nem todo comportamento que parece ser impulsivo surge de uma personalidade intrinsecamente impensada. O ambiente pode tanto aproximar quanto afastar as recompensas e pode ensinar respostas que permanecem conosco mesmo após suas mudanças.

Refletindo sobre as experiências de quem sobreviveu à hiperinflação brasileira, a múltiplos planos econômicos e às mudanças de moeda, como, por exemplo, o bloqueio de grande parte dos depósitos e aplicações financeiras promovido pelo Plano Collor em 1990, é possível entender que essa geração vivenciou de maneira prática a transformação drástica das condições econômicas.

Essas vivências não desaparecem junto com aqueles que as experienciaram. Elas tendem a se transformar em significativas frases e ensinamentos familiares, como “imóvel é sempre seguro”, “mantenha sempre uma poupança” e “trabalhe arduamente para alcançar a estabilidade”.

O Ciclo de Aprendizagem e Cultura

Uma experiência econômica se converte em aprendizado. Este aprendizado se torna hábito. O hábito se transforma em conselho, que por sua vez é transmitido à próxima geração como formas de cultura.

Contudo, essa transmissão não acontece de maneira isolada. O conselho encontra um novo ambiente. Dessa interação, entre uma norma herdada e uma nova realidade, surgem adaptações que podem ser benéficas ou prejudiciais. Algumas dessas adaptações podem ser eficazes, enquanto outras podem ocasionar exatamente o efeito oposto ao que protegia a geração anterior.

Aqueles que aprenderam que a espera resultava na perda de poder de compra podem ter motivos válidos para anteceder suas compras. Anos após, a regra que diz “se pode comprar agora, não deixe para depois” se depara com um ambiente repleto de crédito pré-aprovado, parcelamento e compras realizadas com um único clique. Embora a regra ainda persista, o preço por segui-la mudou drasticamente. O que outrora protegia contra a inflação pode, nesse novo cenário, favorecer uma cultura de decisões imediatistas, estimulando o endividamento.

A História do Trabalho nas Gerações

A trajetória do trabalho nos proporciona uma percepção semelhante. Uma fração dos Millennials entrou na vida adulta durante um período de crescimento do emprego, aumento da renda, expansão do consumo e acesso ao crédito, especialmente entre meados dos anos 2000 e o início da década seguinte. Contudo, essa fase foi seguida pela severa recessão de 2015 e 2016 e pela rápida degradação do mercado de trabalho. A promessa de estabilidade foi novamente confrontada com a realidade de instabilidade.

Para aqueles que enfrentaram desemprego, crises ou perda de patrimônio, a ideia de trabalhar arduamente e preservar o emprego pode representar uma forma de proteção. A mensagem que foi transmitida aos filhos é bastante conhecida: estude, trabalhe, construa uma carreira, busque a estabilidade.

Entretanto, os filhos não recebem apenas o conselho; eles também observam as consequências. É possível que tenham visto seus pais dedicados ao trabalho, temendo a perda do emprego, com pouco tempo disponível e, nem sempre, encontrando nessa trajetória a qualidade de vida que almejavam.

A Geração Z e Suas Especificidades

Chegamos, então, à Geração Z. Essa geração não vivenciou a hiperinflação ou o Plano Collor, mas muitos de seus pais e avós passaram por experiências bastante complexas. Ao mesmo tempo, parte da Geração Z iniciou sua vida adulta sob a influência da pandemia, do trabalho remoto e de relações de trabalho que se mostravam menos lineares.

Quando essa herança cultural se depara com um contexto diferente, a adaptação também pode sofrer alterações. A busca por qualidade de vida pode assumir uma nova importância, vínculos profissionais podem se tornar menos duradouros e a aspiração por estabilidade pode perder parte de seu impacto. Isso não significa que o trabalho tenha perdido valor; pode apenas sugerir que a estratégia utilizada para atender necessidades humanas fundamentais, tais como segurança, realização, pertencimento e reconhecimento, teve de se readaptar.

Toda geração herda não apenas os conselhos da geração anterior, mas também as consequências que observou a partir destes conselhos.

A Dinâmica da Transmissão Cultural

Por essa razão, a transmissão cultural não implica apenas na reprodução cega de modelos. Podemos replicar aquilo que observamos ter sucesso, rejeitar aquilo cujo custo presenciamos ou adaptar regras antigas às novas realidades. É através dessa interação entre herança e ambiente que novos repertórios são construídos.

Nem toda adaptação, contudo, é eficientemente funcional. Um ambiente pode oferecer suporte ao planejamento ou encorajar o imediatismo, fomentar confiança ou alimentar o medo, e ainda influenciar a produtividade ou gerar paralisia. As escolhas são individuais, mas não são exclusivamente formadas dentro do indivíduo. Fatores como família, história, tecnologia, instituições e condições econômicas também têm um papel relevante na formação dessas escolhas.

A Economia e Suas Implicações

Provavelmente, é por esta razão que a economia, que pode soar abstrata quando apresentada em índices, juros e números, é, na realidade, profundamente concreta. Ela entra nas casas das pessoas, modifica as conversas, altera as expectativas e ensina, de forma silenciosa, o que se pode esperar do futuro.

Em um ano eleitoral, essa reflexão estende-se às nossas opções coletivas. Ao contemplar o país que desejamos construir, é relevante perguntar não apenas quais resultados econômicos pretendemos alcançar nos próximos anos, mas também que tipo de experiência cotidiana queremos que esse ambiente proporcione. A estabilidade, a previsibilidade, as oportunidades, a educação e instituições confiáveis ampliam as chances de planejar, investir, assumir riscos estratégicos e edificar projetos a longo prazo.

A Interpretação do Mundo

Uma geração não herda somente patrimônio ou dívidas. Ela herda uma compreensão do mundo. Confronta essa herança com a realidade que encontra, adapta-se e estabelecendo novos hábitos. E, um dia, transmitirá essa vivência aos que vierem a seguir. Se é dessa forma que a economia contribui para a formação de gerações, as nossas escolhas nas eleições também impactam a criação do ambiente em que os futuros cidadãos aprenderão a viver. Trata-se de uma decisão que vai muito além do simples aspecto econômico.

Fonte: www.estadao.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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