Mercado de Investimentos Brasileiro em Consolidação
O mercado de investimentos no Brasil entrou em um novo ciclo de consolidação, com dados recentes indicando que, nos últimos 16 meses, aproximadamente R$ 160 bilhões foram movimentados em operações de fusões e aquisições (M&As). Este montante inclui tanto os recursos sob custódia, que são administrados pelas instituições em nome dos clientes, quanto aqueles sob gestão, em que as casas também tomam decisões de investimento. Essas informações fazem parte do estudo denominado Market Trends M&A, elaborado pela consultoria Veritas.
Crescimento do Mercado de M&A
No primeiro trimestre de 2026, o movimento no mercado de M&As ganhou um impulso significativo, com R$ 56,1 bilhões em ativos sob custódia sendo movimentados nas operações. Este volume representa o maior registrado desde 2018 e teve uma alta expressiva de 180,5% em comparação ao mesmo período do ano anterior, 2025.
Anderson Timm, CEO da Veritas e coordenador do estudo, destaca que, embora o crescimento orgânico continue sendo relevante, ele não é mais suficiente para explicar a expansão das principais instituições. Para muitas delas, a compra, venda, fusão ou integração de operações tornou-se uma parte imprescindível da estratégia a longo prazo.
Atividade das Assessorias de Investimentos
Entre os segmentos analisados, as assessorias de investimentos destacaram-se como as mais ativas em termos de número de transações, totalizando 14 operações que somaram aproximadamente R$ 46,3 bilhões em ativos sob custódia e sob gestão, entre janeiro de 2025 e maio de 2026. Por outro lado, as plataformas e corretoras realizaram seis operações no mesmo período, movimentando em torno de R$ 65 bilhões. As gestoras de carteira participaram com cinco operações, totalizando aproximadamente R$ 49,2 bilhões em ativos incorporados.
As distinções entre os segmentos analisados refletem as funções de cada um: as assessorias auxiliam os investidores na escolha de produtos financeiros, enquanto as plataformas e corretoras são responsáveis pela distribuição dos produtos e pela execução das ordens de investimento. Já as gestoras tomam decisões sobre a alocação em fundos e carteiras geridas.
Expectativas Futuras de M&As
Marcelo Shima, sócio do escritório Bronstein, Zilberberg, Chueiri & Potenza Advogados, prevê que o último trimestre de 2026 poderá concentrar um número ainda maior de acordos no mercado, especialmente após o término da temporada eleitoral. As empresas deverão também se adaptar a um cenário de Selic mais baixa em comparação ao início do ano. Shima estima que o efeito pleno dessa recuperação se manifestará no primeiro semestre de 2027.
Uma das consultorias que têm se posicionado ativamente nas fusões e aquisições é a Davos, que já realizou três integrações nos últimos quatro anos com os escritórios de assessoria Fênix, Étre Investimentos e Sirius. A Davos tem priorizado a execução de operações por meio da troca de ações, ao invés da simples compra de carteiras.
Mudanças no Comportamento do Mercado
Thiago Nunes, sócio-fundador da Davos, afirma que o mercado brasileiro passou por diferentes ondas de desenvolvimento. A primeira onda foi caracterizada por um crescimento acelerado durante um período de baixa taxa de juros, seguida por uma fase em que grandes plataformas, como XP Investimentos e BTG Pactual, capitalizaram diversos escritórios.
Atualmente, Nunes observa o surgimento de uma terceira onda, em que a situação de Selic elevada combinado com a desaceleração do crescimento de escritórios de investimento faz com que muitas casas considerem as fusões como uma estratégia para minimizar a preocupação com o crescimento e se conectar a estruturas maiores.
Uma tendência que pode se intensificar nos próximos anos é a entrada de fundos de private equity em escritórios de assessoria. Esses fundos focam em empresas de capital privado, ou seja, aquelas que não negociam suas ações na Bolsa de Valores.
Cássio Bariani, sócio-fundador da Smartbrain, uma plataforma para controle e consolidação de investimentos, observa que grandes operações envolvendo M&As ainda são limitadas no Brasil devido à falta de volume. “À medida que as casas do mercado financeiro se expandirem, elas abrirão espaço para a entrada de fundos de private equity no setor”, comenta Bariani.
Exemplos de Iniciativas de Crescimento
Um exemplo significativo dessa nova abordagem é a Vita, que introduz uma participação minoritária em cada negócio em que se envolve, sem a intenção de sair no futuro. Em contrapartida, oferece aos empreendedores a infraestrutura necessária para o crescimento do negócio, incluindo suporte jurídico, planejamento financeiro, auxílio na construção de modelo societário, sistemas, conformidade e o direito de usar a marca Vita.
Desafios da Integração
Realizar uma fusão não se resume apenas a chegar a um acordo; a verdadeira tarefa está na integração entre as empresas. Esse processo começa com a avaliação de quais negócios podem agregar valor à operação existente. Segundo Nunes, a fusão deve buscar um alinhamento de propósito e cultural. “A Davos não visa se integrar com outra empresa apenas para crescer, mas sim para agregar equipes que ajudem a construir algo novo”, afirma.
Esse conceito difere de outras operações, onde os escritórios se integram a operações maiores apenas para expandir seu tamanho. A Davos também vê nas fusões uma oportunidade para aprimorar seu ecossistema de atendimento. A parceria com a Étre foi fundamental para a criação de um multi family office (MFO), enquanto a fusão com a Sirius possibilitou a formação de uma boutique de M&As focada em empresas familiares.
Os profissionais do setor acreditam que as fusões podem proporcionar aos investidores um acesso mais diversificado a serviços que incluem planejamento tributário, sucessório, além de soluções em câmbio e crédito. A união entre as casas pode também facilitar a contratação e retenção de profissionais mais experientes.
No entanto, até a conclusão de uma operação de fusão, existem muitos desafios a serem superados, especialmente na definição dos cargos de cada colaborador. É vital que se tenha um entendimento claro sobre o papel de cada um dentro da nova estrutura. “Um profissional que se destaca na parte de investimentos, por exemplo, não necessariamente terá o mesmo êxito em uma função de liderança”, pontua Eduardo Akira, CEO da AVIN.
Após a delimitação de funções, o próximo passo é integrar os processos comerciais, sistemas e modelos de remuneração. Akira possui experiência em diferentes fusões e, a AVIN foi criada em 2025 pela união das assessorias Acqua-Vero e SWM, que por sua vez, se originou de integrações anteriores entre outros escritórios.
Projeções para o Mercado
Projeções apontam que o mercado brasileiro deverá contar com menos assessorias nos próximos anos. Akira nota que, entre as casas que oferecem múltiplas soluções em uma única estrutura, a tendência é de concentração. “Não vejo espaço para mais de 100 empresas nesse formato, considerando o tamanho do mercado brasileiro e a concorrência que enfrentam com os grandes bancos”, afirma.
Marcelo Caleffi, sócio-fundador e CEO do escritório Nippur Finance, compartilha uma visão semelhante, e acredita que os escritórios menores enfrentarão dificuldades para se manter competitivos diante da exigência crescente dos investidores. “Acredito que veremos muitos M&As nos próximos dois anos, com o número de escritórios caindo pela metade no Brasil”, prevê Caleffi.
A Nippur, que anunciou uma fusão com a SYM Investments em 2025, está planejando acelerar sua agenda de M&As. A empresa, além do alinhamento de equipes, está analisando a questão geográfica das operações, buscando integrar filiais em cidades onde já possui presença para otimizar a escala de suas atividades.
Os dados disponíveis indicam que o setor de assessoria ainda é significativo, com 26.870 assessores de investimento credenciados no Brasil até julho deste ano, conforme levantamento da Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias (Ancord). Desses, 20.257 estavam vinculados a instituições do mercado, enquanto havia 1.425 escritórios credenciados.
Fonte: www.estadao.com.br
