Por que a baixa taxa de investimento continua sendo o principal obstáculo estrutural do PIB?

Por que a baixa taxa de investimento continua sendo o principal obstáculo estrutural do PIB?

by Editoria Bolsa e Mercado
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Contas Nacionais e Comportamento da Economia

Os economistas desenvolveram, ao longo dos anos, as chamadas contas nacionais, que são essenciais para medir o comportamento da economia como um todo. Esses conceitos são análogos à contabilidade de uma empresa, mas seu objetivo é mensurar variáveis como produção, consumo e investimento em toda a economia. Entre os indicadores, o Produto Interno Bruto (PIB) recebe a maior atenção, embora existam diversas outras informações relevantes. Tais medidas também permitem avaliar questões conjunturais, como a desaceleração ou aquecimento da economia, e possibilitam análises a longo prazo. O foco a seguir será nas questões estruturais, com uma breve análise sobre o comportamento econômico de curto prazo.

Crescimento do PIB e seus Componentes

O PIB registrou um crescimento considerável no segundo trimestre, com uma variação de 0,5% em relação ao trimestre anterior, ajustando-se o efeito sazonal. Esse resultado se segue a uma expressiva expansão de 1,1% no primeiro trimestre do ano. A princípio, os números indicariam uma economia estável, sem sinais de desaceleração. No entanto, a análise dos componentes do PIB revela uma situação ligeiramente diferente.

Os setores que não dependem da demanda interna foram responsáveis pela maior parte da expansão, em particular o setor agropecuário e o extrativo, com destaque para a produção de petróleo. Em relação à demanda, observou-se um desaquecimento do consumo das famílias, que apresentou uma queda de 0,4% na margem, após um crescimento sólido de 0,8% no primeiro trimestre. O consumo do governo continuou a expandir-se, com um aumento de 0,4%, e, ao contrário do que seria esperado, dadas as taxas de juros em nível restritivo, houve um novo aumento do investimento, que cresceu 1,2%. Apesar do PIB total permanecer firme, as variáveis das contas nacionais indicam que a economia encontra-se em um processo gradual de desaceleração.

Perspectivas de Longo Prazo

Ao se analisar a economia em um horizonte mais extenso, torna-se evidente que a expansão da produção de bens e serviços ao longo do tempo demanda investimentos em ativos fixos e em capital humano, englobando a formação de indivíduos, o conhecimento e a tecnologia.

Os ativos fixos incluem uma ampla gama de bens, tais como fábricas industriais, galpões logísticos, silos agrícolas, edifícios comerciais, imóveis residenciais, rodovias, portos, plataformas de petróleo, caminhões, tratores e softwares, entre outros. No entanto, o baixo nível de investimento na economia brasileira representa um problema fundamental que limita a capacidade de crescimento. Não apenas a taxa atual é baixa, mas a trajetória dos últimos dez anos também é motivo de preocupação. Embora não seja o foco desta discussão, é importante reconhecer que existem desafios também no que se refere ao investimento em capital humano, abordando questões ligadas à educação, pesquisa básica e tecnologia.

Taxa de Investimento e Comparações Internacionais

Desde 1995, a taxa média de investimento em relação ao PIB é de 17,9%, tendo atingido um pico de 20,9% em 2013 e um mínimo de 14,6% em 2017. Nos últimos doze meses, a taxa de investimento foi de 16,5%. Em comparação, a taxa média de investimento em relação ao PIB global é de 25%, de acordo com dados do relatório World Economic Outlook do Fundo Monetário Internacional (FMI). Para um país com características semelhantes às do Brasil, o México apresenta uma taxa de investimento de 23% do PIB. Essa discrepância coloca o Brasil em um patamar de investimento bastante insatisfatório.

Queda do Investimento em Decorrência da Recessão

A trajetória dos últimos dez anos foi desfavorável, evidenciando uma acentuada queda do investimento durante a recessão de 2014 e 2015, com uma retração que chegou a 30% em termos reais. Nos últimos doze meses, encerrados no segundo trimestre, o investimento real permanece 7,5% abaixo da média registrada em 2013. Ao observar as médias anuais, verifica-se que o investimento se manteve estável entre 2026 e 2025.

Composição do Investimento

A composição do investimento revela que um dos principais responsáveis pela queda persistente do investimento total é a despesa com construções residenciais e comerciais/industriais. Em termos reais, o PIB da construção apresenta-se 11% abaixo do volume registrado em 2013. Vale destacar a composição do investimento, onde a construção representa pouco mais de 40% do total investido, com aproximadamente igual divisão entre residências e outros tipos de imóveis ou estruturas, como galpões e fábricas. Máquinas e equipamentos correspondem a 45% do investimento, enquanto a propriedade intelectual representa pouco mais de 10% do total, com destaque para os investimentos em software e no mapeamento de recursos minerais. Nos últimos anos, o investimento em tecnologia da informação apresentou um crescimento considerável, com uma expansão de 30% desde 2021.

Fatores Explicativos da Baixa Taxa de Investimento

Uma indagação pertinente é o que explica a baixa taxa de investimento no país. Este tema poderia ser abordado em uma análise mais abrangente; no entanto, é possível apontar algumas razões que contribuem para essa situação: primeiro, o espaço limitado no orçamento do setor público para investimentos, abrangendo tanto os níveis federal, estadual quanto municipal; segundo, as taxas de juros historicamente elevadas; terceiro, um ambiente de negócios que impõe diferentes custos à atividade empresarial; e, por fim, a preferência da população pelo consumo no presente, que é um ponto controverso e necessita de mais estudos para confirmação.

Fatores Positivos e Expectativas Futuras

É importante notar que também existem fatores positivos nos últimos dez anos. O Brasil tem consolidado regras e processos para a concessão de serviços públicos, o que levou a uma expansão do investimento em setores como energia elétrica, rodovias, aeroportos e, em menor escala, portos. Recentemente, o setor de saneamento ganhou impulso com a transferência de concessões para a iniciativa privada.

No cenário atual, as taxas de juros permanecem elevadas, o que desencoraja as empresas a ampliaram seus planos de investimento. Contudo, existem condições favoráveis que podem levar a uma redução da taxa Selic no futuro, dependendo da mudança na relação entre as políticas fiscal e monetária. Esse será um tópico que merece ser abordado em colunas futuras.

Fonte: www.estadao.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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