Realidade das Empresas "Zumbis" nas Firmas de Private Equity
As firmas de private equity estão enfrentando uma nova realidade: o crescimento de um número significativo de empresas que não conseguem prosperar nem falir, permanecendo em portfólios como se fossem os mortos-vivos. Essas chamadas "empresas zumbis" referem-se a negócios que não estão em crescimento, mal geram fluxo de caixa suficiente para quitar dívidas e são incapazes de atrair compradores, mesmo a preços reduzidos. Elas costumam estar presas no balanço de um fundo além do período de retenção esperado.
Desafios em Cenário de Taxas de Juros Elevadas
"Agora, com o aumento das taxas de juros, as pessoas sentem que estão presas a negócios que são ligeiramente sem valor, mas não conseguem realmente vendê-los… Então, você está em uma situação terrível onde as pessoas usam o termo ‘empresas zumbis’", declarou Oliver Haarmann, sócio fundador da firma de investimentos privados Searchlight Capital Partners, em entrevista ao programa "Squawk Box Europe" da CNBC, na terça-feira. Haarmann acrescentou que as firmas de private equity acumularam dívidas em grandes volumes, com taxas "muito baratas" nos anos de 2020 e 2021. No entanto, os bancos centrais começaram a elevar rapidamente as taxas em 2022, e essas taxas elevadas por um período prolongado inflacionaram os custos de serviços da dívida.
Fluxo de Caixa e Oportunidades de Investimento
A espera pela recuperação dos "mortos-vivos" muitas vezes não é um luxo disponível para uma firma de private equity. Segundo Haarmann, "Eles não têm fluxo de caixa suficiente devido ao aumento das taxas de juros para continuar investindo em crescimento, e não existem compradores potenciais para essas empresas, e esse é um grande desafio para toda a nossa indústria." Tradicionalmente, as firmas de private equity conseguiam superar recessões, refinanciar dívidas e vender quando os mercados se recuperavam. No entanto, veteranos da indústria alertaram que o congelamento atual parece estar durando mais tempo do que o esperado.
Bloqueio no Ciclo de Private Equity
"Firmas de private equity estão enfrentando dificuldades porque a máquina está emperrada", disse Oliver Gottschalg, professor da HEC Paris, cuja pesquisa se concentra em private equity. "Se você não distribui os retornos, não consegue colocar os LPs (limited partners) em uma posição onde tenham liquidez para se comprometer com novos fundos. Portanto, é realmente problemático", ressaltou Gottschalg, acrescentando que os ativos ‘zumbis’ estão se tornando mais frequentes e difíceis de eliminar. Os LPs são os investidores de fundos de private equity.
Comparação com a Crise Financeira de 2008
O impasse atual reflete a situação do mercado após a crise financeira de 2008, quando portfólios envelhecidos e dificuldades em refinanciar afetaram o mercado, segundo Gottschalg. De acordo com a firma de contabilidade PwC, as firmas de private equity estão com cerca de US$ 1 trilhão em ativos não vendidos que, normalmente, já teriam sido desinvestidos em um ciclo normal. O período médio de retenção para empresas em portfólios de private equity atingiu seu ponto mais alto da história, com 5,6 anos, segundo dados publicados em agosto pela VDS Consulting Group.
Fundos Zumbis e Oportunidades de Liquidez
Além disso, um número crescente de investidores em private equity afirma que seu capital está preso em "fundos zumbis", de acordo com uma pesquisa de 2024 realizada por um importante gestor de ativos. Quase metade dos entrevistados institucionais, incluindo fundos de pensão e seguradoras, relataram estar expostos a veículos que são improváveis de desinvestir ativos ou garantir novos compromissos.
Mecânica e Pressão nas Firmas de Private Equity
Esse backlog está colidindo com a mecânica das firmas de private equity, cujos fundos são estruturados para transformar ativos em liquidez dentro de um prazo específico. "Esperar pela ressuscitação dos mortos-vivos geralmente não é um luxo disponível para uma firma de private equity", escreveram Nastascha Harduth e David Pinnock, advogados da Cliffe Dekker Hofmeyr (CDH), em uma nota recente. No entanto, os sócios gerais (GPs), que são as firmas ou pessoas que administram os fundos de private equity, muitas vezes se agarram a empresas de portfólio zumbis, pois reconhecer a derrota pode ser mais prejudicial do que adiá a decisão.
Consequências da Liquidação
Liquidar um investimento fracassado cristaliza perdas realizadas que afetam o desempenho do fundo e prejudicam futuras captações, oferecendo um forte incentivo para "empurrar a situação com a barriga" na esperança de uma recuperação ou de um mercado de saída mais favorável. "É mais fácil manter o corpo educadamente sentado à mesa do conselho do que realizar um funeral que convida a uma análise crítica", afirmaram os advogados da CDH. O dano à reputação é igualmente severo: a liquidação não apenas sinaliza uma má decisão de investimento, mas também uma incapacidade de resgatar o ativo.
Exemplo do Mercado Sul-Africano e Saída Potencial
A CDH citou um exemplo de um mercado estressado, como é o caso da África do Sul, onde há poucos compradores dispostos, e um processo de venda fracassado pode estigmatizar ainda mais um ativo, dificultando a saída. "Um processo de venda mal-sucedido é sua própria história de terror, carregando quase tanto estigma quanto uma liquidação para firmas de private equity e, devido à publicização do fracasso, torna o ativo ainda mais difícil de vender."
Perspectivas Futuras e Novos Investimentos
Entretanto, uma possível facilidade pode estar no horizonte. Gottschalg apontou para o aumento do capital de massa e de riqueza privada, também conhecido como a "retailização" do private equity, como uma válvula de pressão potencial para desbloquear o impasse das saídas. Ao contrário dos fundos tradicionais de private equity respaldados por pensões e doações, que visam retornos líquidos de 25%, esse novo pool de capital aceita limiares de retorno mais baixos, em torno de 10 a 12%, e períodos de retenção potencialmente mais longos, oferecendo assim um custo de capital inferior. Embora esses investidores não se apressarão em empresas realmente falidas, sua flexibilidade e escala poderiam ainda "ajudar a desbloquear o congelamento temporário" ao absorver ativos que não se encaixam mais no modelo tradicional de private equity, segundo ele.
Fonte: www.cnbc.com