Cabeça de Gestor com Daniel Pegorini, da Valora – FIDCs atravessam juros altos sem piora de risco
Introdução
O executivo Daniel Pegorini, da Valora, destaca a importância da subordinação de cotas e da pulverização de ativos na proteção dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs). Ele também enfatiza a relevância da seleção de gestores na estruturação dos fundos.
O fenômeno dos FIDCs em um cenário de juros altos
Em um contexto onde a taxa Selic está fixada em 13,75% ao ano, observa-se um efeito curioso em relação aos fundos de crédito. Alguns FIDCs podem começar a apresentar rendimentos de 150%, 160% ou até mais em relação ao Certificado de Depósito Interbancário (CDI), mesmo sem um aumento no retorno nominal. Esse fenômeno pode parecer contraditório, mas é explicado através de cálculos matemáticos.
Para compreender isso, considera-se que a maior parte das operações dos FIDCs é estruturada com uma taxa de referência que inclui um prêmio pelo risco de crédito. Por exemplo, se houver uma carteira que oferece CDI mais 5 pontos percentuais, e o CDI está em torno de 13,65%, isso resulta em aproximadamente 137% do CDI anual.
Se o CDI for reduzido para 10% e o spread se manter, os 15% de rendimento representam então 150% do CDI. Em um cenário onde o CDI está em 8%, um retorno de 13% corresponde a 162,5% do CDI, e se o CDI cair para 7%, os mesmos cinco pontos adicionais resultariam em aproximadamente 171% do CDI.
A mudança de perspectiva do investidor
Nesse contexto, o investidor, embora receba um retorno nominal menor, percebe um aumento significativo na relação em comparação ao principal referencial da renda fixa. Essa evolução na forma de avaliar os rendimentos pode sinalizar uma nova fase na expansão dos FIDCs.
O efeito curioso de um CDI menor
A dinâmica entre Selic, CDI e spread de crédito é fundamental para entender este fenômeno. A Selic, taxa básica de juros, está intimamente ligada ao nível dos juros, enquanto o spread remunera os riscos específicos da operação, como o crédito do devedor, o prazo, a liquidez e a estrutura, entre outros fatores.
Assim, uma queda na Selic não implica automaticamente em uma redução equivalente do spread. Um exemplo pode ser visto quando um fundo que trabalha com CDI mais 4 pontos percentuais ver sua remuneração simplificada mudar de 17,65% ao ano (com CDI a 13,65%) para 150% do CDI (com CDI a 8%).
O comportamento do investidor em um novo cenário
Durante um período em que as taxas de juros estavam excepcionalmente altas, obter 100% ou 110% do CDI com riscos baixos era considerado suficiente por muitos investidores. Contudo, à medida que o CDI diminui, o incentivo para buscar ativos que ofereçam retornos adicionais torna-se mais evidente.
Este novo perfil de investimentos tende a favorecer ativos de crédito estruturado, FIDCs e outras estratégias mais complexas. Contudo, é essencial ressaltar que esse movimento não acontece sem riscos; spreads podem se contrair junto com a Selic, a inadimplência tem possibilidade de aumento e as qualidades das carteiras variam, logo, percentuais elevados do CDI não garantem retorno assegurado.
Além disso, essa evolução ocorre em um momento em que a indústria de FIDCs não se encontra mais em uma posição marginal no mercado de capitais. A ampliação do crédito privado e a entrada de novos investidores têm expandido a relevância dessa classe de ativos, que já se aproxima de um patrimônio total de R$ 1 trilhão. Observadores do setor notam que essa transformação está se tornando visível.
O FIDC como infraestrutura econômica
O FIDC começa a ser visto não apenas como um produto destinado a especialistas, mas como um componente importante da infraestrutura de financiamento da economia. Empresas que antecipam recebíveis e acessam capital, gestores que estruturam o risco e investidores que recebem prêmios por financiá-lo são todos aspectos que evidenciam esse novo entendimento.
Se a taxa de juro básica continuar a cair nos próximos anos, a relevância desse mecanismo pode aumentar, especialmente quando investidores forem forçados a buscar retornos em alternativas, em vez de depender de rendimentos facilitados por um CDI em 13,75%.
A diferença na rentabilidade dos FIDCs
É preciso esclarecer que, embora seja possível afirmar que um FIDC pode gerar 160% do CDI, isso não significa que todos os FIDCs se tornem mais rentáveis com a queda dos juros. Essa afirmação é matematicamente válida, mas a generalização pode ser equivocada.
Se o CDI cair de 13,65% para 8%, a remuneração nominal do exemplo que utilizamos anteriormente diminuirá de 18,65% para 13% ao ano, embora passe a representar 162,5% do CDI. O aumento nos números relativos ocorre porque o denominador se contrai.
Considerações finais sobre as tendências do mercado
Em uma fase de flexibilização monetária, a melhora nas condições financeiras pode contrair spreads, elevar a concorrência por boas oportunidades de crédito e alterar completamente esta equação. A queda do retorno isolado do CDI pode tornar cada ponto percentual adicional de retorno ainda mais significativo.
Após anos em que a taxa de juros foi o principal responsável pelos ganhos dos investidores, a nova fase da renda fixa no Brasil provavelmente demandará uma análise mais criteriosa, envolvendo seleção de crédito e avaliação de risco. Neste cenário, 160% do CDI pode deixar de ser um número impressionante, tornando-se, em determinadas situações de mercado, um resultado matemático de um CDI reduzido.
Fonte: www.estadao.com.br
